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          Façamos um coquetel com afirmações constantes de artigos que o Estado publicou quinta-feira e a advertência de São Paulo a Timóteo. A primeira afirmação é de Holman W. Jenkins Jr. no artigo “Uma crise do mundo burguês”: “Muito do dinheiro passeando pelo mundo e atrapalhando mercados locais vem de poupadores americanos, que têm dúvidas quanto à capacidade da Previdência Social de socorrê-los na velhice.” A outra é de Robert J. Samuelson, que escreve em “Quais as chances de um desaquecimento global?”: “As previsões têm uma propensão à estabilidade, precisamente porque acreditam que geralmente a economia faz hoje o que fez ontem. Os economistas que apresentam previsões muito diferentes logo perdem o emprego ou perdem sua empresa.” São Paulo diz, na Primeira Carta a Timóteo: “Ora, os que querem se enriquecer caem em tentação e cilada, e em muitos desejos insensatos e perniciosos que mergulham os homens na ruína e na perdição. Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por cujo desenfreado desejo alguns se afastaram da fé, e a si mesmos se afligem com múltiplos tormentos.” (6, 9/10).  

 

    Concordemos com o Apóstolo dos Gentios em que o amor ao dinheiro é a fonte de todos os males. É esse “desenfreado desejo”, seguramente, que leva alguém a arriscar bilhões num jogo em que a banca corre sempre o risco de perder tudo e encerrar o jogo. Aquele que joga contra o Banco da Inglaterra ou os bancos centrais dos países asiáticos e a Rússia pode sentir o prazer de quebrar a banca – mas corre o risco de perder alguns bilhões, como muitos vêm perdendo desde que a crise começou há quase um ano. Quando a banca quebra, quem fez as previsões seguramente arriscou alguma coisa, mas não muito. Mas os americanos que estão financiando essa aventura – a ser verdadeira a afirmação de Jenkins Jr. – perderam dinheiro, e muito, e talvez já não tenham mais certeza de que o jogo feito por terceiros lhes garantirá uma velhice tranqüila. Perderam não apenas nos fundos de risco, ou até mesmo de aplicações relativamente seguras até que começou o vendaval; perderam também em ações, como mostra Samuelson, comparando os índices de julho com os de setembro. Será que, diante dessas perdas, os que poupam para ter uma velhice sem grandes preocupações não começarão a refletir que mais valem 7% ao ano, seguros em investimentos produtivos do que 14% em investimentos de risco que podem transformar a poupança de parte da vida em pó? Os que administram os fundos, até agora não perderam seus empregos, como poderia dizer Samuelson, mas correm o perigo de perdê-los – e de não encontrar nenhum outro comparável na praça dos que lêem na bola de cristal das finanças. Com tudo isso, quero dizer que a certeza de que as poupanças feitas para gozar a velhice já não valem o que valiam e o medo de perder o emprego e depender da seguridade social podem fazer que se compreenda que o mal não é o dinheiro, mas o amor a ele (em algumas traduções da Bíblia, encontro a expressão “a cobiça pelo dinheiro”), e que a segurança da velhice residirá numa fundamental mudança de rumo, que deve ser inspirada, afora pelos cuidados materiais com o futuro, por algum tipo de vivência espiritual.  

 

    Não faço ilusões sobre o comportamento humano, pelo contrário. Sei que o prazer de jogar, ganhando ou perdendo, em boa parte vem do fato de o Homem haver decaído e ter passado a ser mortal. O jogo é uma aposta contra a Morte. Por isso não se pode esperar que de um momento para outro tudo mude.

 

    Mas é preciso ter presente, também, que os cassinos mundiais não são muitos, e que um dia será preciso pensar a sério no que fazer com o dinheiro dos que querem ter uma velhice sossegada.

 

  

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