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    Disseram-me que o último livro de George Soros, o megainvestidor, não teve boa aceitação da crítica inglesa. Acredito que assim tenha sido. Afinal, Soros é economista de formação e ele procura construir sua visão da crise a partir da tentativa de ver as coisas de uma nova perspectiva filosófica apoiada em parte na teoria quântica e em parte em Karl Popper. Os professores de filosofia terão, pois, um bom prato para dissertar sobre as fragilidades de suas teses. Especialmente, porque ele coloca em dúvida as virtudes do mercado e lança mão de uma expressão que deverá ter irritado os partidários do laissez faire: “Fundamentalismo do mercado.”  

 

    Não interessa discutir as bases filosóficas sobre as quais Soros constrói sua visão da crise. O importante a reter, para quem leu A crise do capitalismo (Editora Campus) é o subtítulo da obra: “As ameaças aos valores democráticos.” Na realidade, Soros está preocupado com a crise não porque o capitalismo esteja chegando ao fim, mas porque a nova ideologia que se construiu a partir da queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética é fundamentalista e como tal ameaça a “sociedade aberta”. É fundamentalista porque erigiu o mercado em deus ex machina e porque fez do êxito pessoal, expresso monetariamente ou em bens transformáveis em dinheiro, a referência moral de praticamente todos. O fundamentalismo do mercado não é uma nova versão, atualizada, do que Weber chamaria da influência do calvinismo na criação do capitalismo. É pior do que isso. Ele destrói os valores comuns sobre os quais se construiu a democracia e faz tudo girar em torno do êxito pessoal – mesmo que se ignore que, para que a sociedade seja democrática, isto é, “aberta” como diz Popper, é preciso que haja valores comuns que não tenham como ponto de referência o dinheiro. Para Soros, os perigos que a sociedade aberta corre estão mais na instabilidade provocada pela “ausência de valores sociais compartilhados” do que na “ideologia repressiva” do comunismo. O comunismo – e mesmo o socialismo, diz ele – estão desacreditados, “enquanto a crença no capitalismo laissez faire converteu em princípio moral a ausência de valores sociais”.  

 

    A crítica ao fundamentalismo do mercado terá, sem dúvida, desagradado quantos acreditam que basta cada um perseguir seus próprios interesses para que os interesses de todos sejam atendidos. Mas a rigor, bem pesadas as coisas, essa crítica é antiga. A rigor, a preocupação de Soros com as conseqüências sociais e políticas da ausência de valores compartilhados não é nova – e ele é feliz ao dizer que “a economia de mercado não constitui uma comunidade” e “a moralidade se fundamenta no senso de pertencer a uma comunidade, seja a família, os amigos, a tribo, a nação ou a humanidade”. Se quisermos, poderíamos voltar a Auguste Comte, que apontava as conseqüências funestas, para a sociedade e para o indivíduo, da divisão anômica do trabalho. O fenômeno a que assistimos, hoje, é a potenciação dessa divisão anômala do trabalho, o dinheiro tendo perdido qualquer relação com o produto feito por mãos humanas.  

 

    A conseqüência dessa separação do dinheiro do produto provocou aquilo que Durkheim chamou de anomia social – que é exatamente a inexistência de valores compartidos pela maioria dos membros da sociedade. E eu acrescentaria, na linha de Soros, decorrência da perda do sentido de comunidade. Um dos méritos do livro de Soros é este: mostrar que a sociedade democrática pode estar ameaçada por um fenômeno que os pais da Sociologia haviam visto no horizonte. E que já atingiu o Brasil pelas particulares condições em que se deram nossa formação histórica e nosso desenvolvimento econômico.

 

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