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     Chamava-se Iskra. Ou A Centelha. Quem quer que o tenha fundado – Stalin, Lenin ou Trotsky – sabia que sem um órgão de divulgação e propaganda não seria possível difundir as idéias revolucionárias. Os três – não importa quem tenha fundado o jornal – não falavam em nome da Santa Mãe Rússia, que para muitos intelectuais era a Terceira Roma, de onde se difundiriam os ideais religiosos e místicos que levariam a humanidade a encontrar-se novamente com Cristo. Sua moral era diferente da “deles”, os burgueses. Bronstein, vulgo Trotsky, chegou a escrever um livro famoso intitulado “Nossa moral e a deles”. O importante para os três não era o reencontro da humanidade com Cristo, mas a redenção da humanidade pela vitória do partido, pela instalação da ditadura e pela revolução mundial. Eles sabiam que as personalidades não fazem a História, mas tinham plena consciência de que sem as personalidades, os homens capazes de conduzir ações transformadoras, a História não se realizaria. Para que essa ação pudesse ser de massa, era preciso uma centelha que despertasse as consciências. No outro extremo do espectro ideológico daqueles tempos, Hitler também sabia que era preciso um jornal para difundir as idéias do nacional-socialismo. Em 1926, seu partido distribuía 100 mil exemplares do Völkischer Beobachter por toda a Alemanha.  

 

     O MST, hoje, não precisa de jornal próprio para fazer difusão e propaganda. A expansão dos meios de comunicação contemporâneos e a concorrência encarregaram-se de dispensar os partidos anticonstitucionais do pesado encargo financeiro de manter um jornal. “Eles” fazem a “nossa” propaganda e difundem “nossa” moral. Uma das fases desse novo tipo de guerrilha, que, como assinalei em artigo anterior, não quer o poder, mas apenas abalar a autoridade para, depois, pensar no que fazer, já foi ultrapassada, e os princípios da nova moral encontram guarida em boa parte dos meios intelectuais e, o que é mais importante para a direção do movimento, na massa. O Governo, diante dele, comporta-se como a mãe austera que, ante as traquinagens do filho, retira-lhe o brinquedo, que promete devolver se ele se comportar direitinho. A imagem da mãe e do filho travesso – talvez beirando a hiperatividade – ocorreu-me ao ler declarações do Presidente do Incra, afirmando em tom categórico que, nas cidades onde o MST organizar saques ou participar deles, o movimento será desligado das ações governamentais para o combate à seca! Quem quer que tenha sido o fundador da Iskra estará rindo diante de tamanha ingenuidade – a menos que mais alguém tenha sido convertido a “nossa” moral.  

 

    Se o Governo ainda é capaz de pensar em termos estratégicos, deveria saber que o grave não é o MST incentivar saques, a CUT programar acampamentos pacíficos diante de supermercados, bispos falarem isto ou aquilo, o Presidente da República polemizar com o Ministro Pertence ou o que seja. Grave, porque indica que se está passando daquilo que alguns chamariam de “consciência corporativa” para “consciência política”; que a massa está começando, levada pela seca, a questionar, na prática e estrondosamente, a ordem legal que já havia destruído silenciosamente com a cumplicidade de não se sabe quantos políticos que se dizem do Partido da Ordem – o grave é a notícia de que, antes do saque em Gravatá, lideranças comunitárias e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais procuraram o MST para definir estratégias para conseguir arranjar alimentos para as famílias carentes, e tenham aceitado o saque. O grave é que o MST começou a transformar-se em pólo de aglutinação da insatisfação popular. O grave é que a centelha ameaça deitar fogo ao capinzal seco.

 

 

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