A cassação do deputado José Dirceu encerra um episódio na conjuntura: aquele durante o qual tivemos a tendência a ver o ex-Ministro como o todo-poderoso Secretário Geral que deixava o Presidente da República para trás. Lembro-me de que escrevi, bem antes desse entreato, que se enganavam quantos pensavam assim: o Secretário Geral, aquele que estabelece quando a Esquerda deve ser perseguida e condenada porque as teses da Direita estão se impondo já que a realidade fala mais alto, esse era o Presidente da República. Aliás, Lula cassou José Dirceu no momento em que, em entrevista ao Roda Viva, disse que ele seria cassado – ressalvando, para disfarçar o ato falho, que seria por motivos políticos… Agora é chegada a vez de Palocci – ainda mais porque o PIB deixou de crescer e o Partido da Ordem sente que talvez não possa mais contar com o Ministro para fazer sua política e Lula precisa do Partido da Ordem para se reeleger.

 

     Quando refletimos sobre a crise, a primeira pergunta que deveria ser feita é: “mas que crise?”. Afinal, a Bolsa oscila como sempre, o dólar cai como todos os dias (mostrando a língua, malcriado!) para o Banco Central, o saldo da balança comercial é muito, muito bom, o Ministério Público investiga, as CPIs funcionam. Onde está a crise? Alguns poderão dizer que está na política econômica, que levou à queda do PIB. Sucede que o Presidente tem, para eles, as respostas do passado e as repete em cada comício: “Vocês pediram a queda da inflação. Aí está. Vocês pediram o câmbio flutuante. Aí está. Que é mais que vocês querem?”.

 

     O vice-Presidente José de Alencar aumentou o tom de suas críticas, passando a dizer diante dos mais requintados representantes do Partido da Ordem que a política orçamentária é irresponsável. O drama não é ver o vice-Presidente dizer o que diz; é não saber se ele fala como Vice ou como Ministro da Defesa… A rigor, pela repercussão que têm suas palavras, nem como um nem como outro. O Presidente não o escuta; a Reserva militar, pela voz do Presidente do Clube da Aeronáutica, mandam dizer que ele não é bem-vindo porque saiu em defesa de José Dirceu.  

 

     Todavia, apesar de todas as evidências, é preciso reconhecer que a crise existe. Difícil é saber qual é seu centro de gravidade. As Armas já não têm voz no cenário político. Os partidos preocupam-se em disputar as eleições. Talvez o centro de gravidade esteja naquilo que a voz de Alencar, Aécio e Itamar representa, clamando contra São Paulo que pode ter como candidatos Lula, Alckmin e Serra! Estarão querendo o “Leite com Café”? Isto é, Presidente mineiro e vice paulista? Ou estarão querendo repetir 1930, eles na liderança, tanto assim que vão querer saber do Governador do Rio Grande do Sul se ele participa da conjura, pensando talvez em se lançar à aventura de conquistar o Brasil. Sem ele, a conjura mineira marchará solitária. O que significará que o Partido da Ordem estará cindido nas suas bases tradicionais.

 

     Se a Revolução de 1930 foi feita para que São Paulo e Minas (o Café com Leite) não mais mandassem no Brasil, a história acabou frustrando aqueles que levaram Vargas ao poder e sobreviveram aos cataclismos de 1964 e 1968. Se não, pensemos: Dutra, Getúlio, Juscelino, Jânio, Sarney, Collor, Fernando Henrique, Lula – apenas os Presidentes eleitos. Alguém duvida que Sarney e Collor eram membros conspícuos do Partido da Ordem e representantes de São Paulo? E que Lula é paulista e da Ordem, como Jânio o foi? Foi e é o Partido da Ordem quem nos governa – e seu PIB ainda está concentrado em São Paulo e Minas. Especialmente em São Paulo, quando se pensa no financeiro. A conjura mineira pretende acabar com o predomínio de São Paulo, mas ainda não tem quem, no Partido, faça seu jogo em São Paulo. Poderá vir a tê-lo, mas só depois que as pesquisas eleitorais demonstrarem que Aécio pode chegar ao segundo turno.

 

     A conjura mineira é o primeiro sinal sério de que há uma crise. O PIB poderá cair um pouco mais do que já caiu e o crescimento será pífio, com certeza. Quem sofrerá com isso? Não será, evidentemente, o Partido da Ordem. É nessa oportunidade que se pode vislumbrar uma chance, pequena, mas real, para quem queira ser o D’Artagnan dos sofridos. Deverá ter a linguagem e o destemor — disfarçado de bonomia, quando não de postura austera — como os antigos caudilhos que marcaram a história política brasileira. O problema é que em 2006 não se tratará de uma “revolução municipal”, como a de Jânio em 1963 ou “estadual”, como em 1964 quando derrotou Ademar e Prestes Maia. Ele deverá saber expressar o sentimento profundo das grandes massas sofridas, que não crêem mais na Política e detestam os políticos, querendo mais sangue nesta temporada de caça.  

 

     E deverá atentar para fato maior, para o qual poucos prestam atenção: o cerco ao Brasil se está construindo lentamente, com os aplausos do Governo de Brasília. Chávez fez suas alianças preferenciais: Argentina, Uruguai e com toda a certeza, Bolívia. E para assegurar-se nos flancos, assinou um acordo para construir um gasoduto Colômbia-Venezuela. O cerco é uma realidade que a conjura mineira não romperá. O caudilho, sim, talvez, se souber compreender os sentimentos profundos das Armas.

 

 

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