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      O eleitor comum pouco atento ao noticiário dos jornais e da televisão terá grande dificuldade em situar-se e, mais ainda, em tentar acompanhar as diferentes explicações que são dadas à crise que se instalou no país.

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     A crise, segundo Fernando Henrique, é de legitimidade. Sua solução seria um grande acordo envolvendo a renúncia de Dilma. Segundo o Comandante do Exército, Gen. Villas Boas, é uma crise ética.

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     O Comandante disse mais em entrevista publicada no Estado em 02/11 – que, quando os problemas sociais se agravam, transformam-se em violência e passam a dizer respeito diretamente ao Exército que, caso agisse, estaria no seu papel constitucional – a “manutenção da estabilidade para permitir que as instituições cumpram suas funções”. E que, se “as instituições cumprem seu papel” e se “os militares têm o direito de falar”, sobre questões institucionais apenas ele mesmo, o Comandante do Exército, poderá manifestar-se.

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     Acrescentou – e a observação é importante – que o Exército se preocupa com qualquer coisa que eventualmente venha a quebrar a estabilidade. E referiu-se à situação encontrada na Maré e outros locais onde “havia o risco de uma crise social”, obrigando a que meses fossem dedicados a tentar contorná-lo.

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     Depreende-se do que é dito que a crise é maior e mais profunda – que a crise ética tem raízes sociais tais como o desemprego e a falta de perspectiva do povo.

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     Mas é no mínimo curioso que as Instituições estejam “sólidas e amadurecidas” e cumpram seu papel estando a corrupção “instalada no Brasil”. Como é complicado conceber-se uma Instituição como se praticamente não fosse formada por indivíduos e, ainda assim, cumprisse a função de ordenar os grupos da Sociedade.

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     Há ainda outra observação bastante grave na entrevista do Gen Villas Boas, muito embora ele pretenda aparentar tranqüilidade na forma como diz da crise: a de que os cortes orçamentários produziram forte impacto no Exército, que tem problemas nas fronteiras e não tem munição. Pior – a substituição dos 226 mil fuzis FAL, da década de 60, pode demorar 226 anos”, se não mais, “porque atualmente só há recursos para se comprar mil fuzis por ano”.

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     É, portanto, inquietante registrar essa tranqüilidade com que o Comandante do Exército possa pretender dizer da crise brasileira, sobretudo quando pensamos na situação das fronteiras e na do Exército, que deve guarnecê-las com equipamento escasso, defasado e sem munição.

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     O Comandante reconhece que o forte impacto produzido pelos cortes orçamentários obriga os militares a falar: “militar tem de falar, pode falar” sobre problemas que estejam em sua esfera de atribuições. Ora, a falta de munição e os dois séculos necessários para que haja a substituição do armamento básico do Exército são problemas institucionais, e é apenas natural que um Comandante de Unidade, grande ou pequena, fale a respeito do assunto para sua tropa e procure explicar o porquê da situação, certo de que, se não o fizer, correrá o risco de começar a perder sua autoridade. Ao falar, seguramente, será levado, tal como foi o Comandante do Exército, a referir-se à corrupção. Deixando no ar suas causas…

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     Se persistir na posição de chamar única e exclusivamente a si o direito de falar sobre problemas institucionais, o Gen Villas Boas poderá defrontar-se com uma difícil situação, que tentamos retratar acima – a da tropa ver-se órfã de orientação e comando. Porque seus Comandantes mais próximos não poderão expressar sua opinião sobre as causas da corrupção que se vê instalada, portanto institucionalizada, e as causas dos problemas que ela provoca inclusive nas FFAA.

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     Crise de legitimidade, tal como o ex-presidente a definiu, ou, agora, na palavra do Comandante do Exército, crise ética, sobre a crise brasileira qualquer cidadão poderá eticamente se manifestar – inclusive qualquer militar, inclusive qualquer General, se disposto a correr o risco de perder seu comando ao dizer o óbvio a seus comandados, que seguramente já o perceberam.

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     Fiquemos, por um instante, no problema dos fuzis FAL. O Exército, no tempo justo, reclamou de sua substituição por armamento menos obsoleto. A questão foi tratada como não prioritária pelos sucessivos Ministros da Defesa, chegando-se a esse atual resultado, patético, que deve levar os chefes do tráfico e os Ministros da Defesa de países amigos a pensar que não será difícil ocupar parte do território brasileiro. Essa hipótese, a de ocupação de parte do território, só poderá parecer descabida aos que estudam as relações do Brasil com o resto do mundo sem atentar para fato que está presente nas fronteiras e sempre foi considerado como um problema – dez outros Estados nacionais.

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     Tanto o narcotráfico quanto qualquer governo com pretensões expansionistas sabem que, em Miami, poderão armar os grupos que possam não concordar com a política externa e, sobretudo, a política interna brasileiras.

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     A defasagem de equipamento do Exército, em paralelo às do da Marinha e da Aeronáutica, faz do Brasil apenas uma parte do coro que entoa hinos pacifistas que exaltam as virtudes dos que não sabem avaliar, porque não conseguem perceber, a extensão das ameaças reais que a Política enseja.

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     Os que não querem admitir que a crise é do sistema político em que vivemos – e por sistema entenda-se o conjunto das Instituições consagradas na Constituição e órgãos criados pela Sociedade – recorrem a imagens que servem apenas para mascarar a sua gravidade.

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     E ao observador da cena política ocorrerá considerar algumas hipóteses. Entre elas, a de que, sendo ética a crise, o que poderá estar perturbando a tranqüilidade dos comandos é uma pergunta muito simples – até que ponto as Instituições militares não foram afetadas e não estão, elas mesmas, em crise?

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 (publicado no dia 10 de novembro em “O Estado de S.Paulo”)

 

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