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      A universidade pública está em nítida desvantagem – diria estratégica – diante das universidades privadas pela simples e boa razão de que não tem mais o sentido de “vocação”, para não dizer de “missão” que os fundadores da Universidade de São Paulo pretendiam que ela tivesse. Essa “vocação” se expressava na tomada de algumas posições públicas que traduziam uma visão do mundo que se contrapunha à vigorante nas escolas tradicionais que foram incorporadas à Universidade e nas escolas privadas – com grande força, então, no ensino secundário -, especialmente nos colégios religiosos. Quais eram essas posições? Em primeiro lugar, o sentido laico que se pretendia imprimir ao ensino; depois, o espírito crítico; finalmente, a certeza de que a formação de professores para o ensino secundário permitiria reproduzir essas posições e romper o marasmo social e político em que o País estava mergulhado nos anos 30 apesar de toda a movimentação intelectual e política que se dava na superfície.  

 

    Na verdade, o que se pretendia era fazer aquilo que Gramsci – que não conheciam! – colocava como uma das condições básicas para a afirmação da hegemonia, que só se dá pela conquista das consciências. Pretendia-se transmitir, pela educação laica e crítica, “uma concepção geral da vida, uma filosofia (Gioberti), um princípio de distinção e um elemento de luta contra as velhas ideologias dominantes coercitivamente”. A hegemonia – notem que sou eu que falo em hegemonia, não eles – se exerceria mediante a formulação de “um programa escolástico, um princípio educativo e pedagógico original que interesse e dê uma atividade própria, no seu campo técnico, àquela fração dos intelectuais que é a mais homogênea e a mais numerosa – instrutores, do mestre elementar aos professores de universidade”. Ao pretender duas coisas: 1) que todos os alunos da Universidade, qualquer que fosse sua faculdade ou escola, freqüentassem um ano básico na Faculdade de Filosofia; 2) que a Faculdade de Filosofia formasse professores para o ensino secundário e, evidentemente, para o superior, os fundadores tinham presente que só poderiam recuperar o terreno perdido no campo político pela conquista das consciências, derrotando as forças que sabiam regressistas no campo intelectual, e que essa conquista só se poderia sustentar se assentasse num “modo de vida, de pensar e agir” que tivesse como substrato uma “filosofia” ou uma “fé”. A grande campanha pelo ensino público laico, em 1962, quando se reuniram intelectuais dos mais variados espectros políticos, marca o fim desse esforço.  

 

    Tenho plena convicção de que a tese que avanço será veementemente negada pelos bem-pensantes que vivem, hoje, em função dos “interesses investidos” e que por isso só podem negá-la. Pouco importa. A tese é simples: se se pretender compreender, da perspectiva gramsciana da hegemonia – ainda que a palavra seja compreendida no sentido adocicado com que se a difunde hoje -, a disputa entre a universidade pública e as universidades privadas, será preciso remontar à cisão no Partido Republicano Paulista, em 1924, da qual resultou o Partido Democrático – do qual saíram os que fundaram a Faculdade de Filosofia e a Universidade. Não que o fato partidário seja relevante. O importante é o que está por detrás dele: a cisão – e minha afirmação vale por seu valor de face, construída por intuições brotadas de observações pessoais, conversas ouvidas a meias, busca de um sentido real para as coisas – numa sociedade secreta que conduziu os destinos de São Paulo durante muito tempo, e talvez os do próprio Brasil. Os que, rompendo com a “Bucha”, foram para o Partido Democrático queriam preservar os ideais “iluminados” – não liberais nem democráticos, apenas iluminados – da sociedade; os que com ela ficaram já tinham no mundo social, econômico e político interesses investidos de tal ordem que não podiam mais acompanhar o “iluminismo” original da sociedade secreta e, como quiseram fazer na medida em que lhes foi possível, tinham de destruir a Universidade e a Faculdade “dos Mesquitas”. Não conseguiram, mas ambas se deixaram perverter pelos interesses investidos que seus membros ativos foram construindo ou por uma visão distorcida da realidade brasileira trazida pela difusão da vulgata marxista. A Universidade e a Faculdade de Filosofia perderam, assim, seu sentido de missão e com ela a universidade pública. 

 

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