OESP  

 

     A palavra ainda é maldita, mas é necessário empregá-la para que se possa ter exata consciência dos problemas que ameaçam não o Governo, em si, mas o País, como um todo. Se os responsáveis pela condução da política – Governo e, sobretudo, oposição – atentassem para as realidades fundamentais e não se perdessem em querelas sem sentido, veriam que é tempo de soar o “União Nacional” para que se pense no que o futuro próximo nos pode reservar.  

 

    O chanceler Lampreia voltou a falar na Calha Norte. Se nada mudou no País desde que o projeto foi proposto e começou a ser posto em prática, o Presidente Fernando Henrique Cardoso em breve terá de enfrentar a pressão da CNBB – especialmente do Cimi –, dos defensores dos índios que não têm interesse em que a fronteira permaneça desguarnecida e daqueles que consideram indispensável, para que o Brasil seja bem-visto na comunidade internacional, que os militares não se preocupem em guarnecer as fronteiras do norte, onde há índios e outras coisas mais – para não falar na imensidão territorial despovoada e desguarnecida. Se o chanceler falou em Calha Norte é porque tem consciência de que ou se reforça o dispositivo militar na fronteira com a Colômbia ou a Amazônia correrá o risco não de ser invadida pelos Estados Unidos – balela que volta a ser posta em circulação por quem tem interesse em conturbar o ambiente e em afastar as Forças Armadas de sua missão constitucional de defender as fronteiras –, mas pela guerrilha colombiana, que procurará fazer da Amazônia (na hipótese de recrudescerem as operações militares contra as Farc) um santuário, como o Laos e o Camboja foram santuários durante a Guerra do Vietnã e a Tunísia foi da FLN até que as forças francesas atacaram seu território e desmantelaram a base guerrilheira. Os Estados Unidos não são o problema na Amazônia; o problema são as Farc e também esse misterioso grupo Tupamaro que assumiu a responsabilidade por atentados terroristas contra embaixada e consulado colombianos em Caracas.  

 

    Os Estados devem fazer a política de sua geografia. A geografia impõe uma política na Amazônia. Não é apenas esse problema geopolítico que deve preocupar quem se preocupa com o Estado brasileiro. Por mais que queiramos esquecer que o Estado brasileiro existe para defender brasileiros no exterior, o Governo não poderá ficar inerme ante a ofensiva que se desenvolve contra os brasiguaios. Não são dois ou três brasileiros que estão sendo perseguidos e ameaçados; é toda uma comunidade que reclamará, mais cedo ou mais tarde, a proteção que lhe deve o Estado brasileiro. Sem dúvida, a chancelaria e os Estados-Maiores estarão pensando na parceria no Mercosul e em Itaipu, especialmente na usina. Essa parceria não cancelou, porém, as obrigações do Estado brasileiro com seus naturais. Cedo ou tarde – e é melhor que seja antes cedo do que tarde –, a chancelaria deverá adotar uma posição que, seguramente, desagradará ao Paraguai e levantará contra o Governo Fernando Henrique Cardoso uma maré de contestação em nome da solidariedade latino-americana.  

 

    Infelizmente para os que desejam que tudo corra sobre trilhos bem azeitados, a realidade não são trilhos azeitados, mas estradas apenas carroçáveis. É necessário percorrê-las. Sobretudo, é preciso ter, além dos planos de contingência para as emergências que surgirão na fronteira norte e na fronteira oeste, uma visão ampla que nos retire do marasmo do economicismo em que tudo é pensado e restabeleça o primado da política. Apenas o triunfo da política sobre a economia permitirá abrir uma válvula de segurança e dar a todos uma esperança. É chegada a hora de lembrar o lema com que resumi, fazendo críticas, a política do Governo Castelo Branco: austeridade, grandeza e progresso. A geopolítica impõe que a ele se volte e se faça dele o guia das ações nos difíceis momentos internacionais que nos esperam.

 

 

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