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    O drama vivido pelo “partido fardado” pode ser assim resumido: pretendeu impor uma diretriz à política nacional – o “elã sorreliano” de que se falou depois da reunião do Conselho de Segurança Nacional em que se decidiu editar o AI-5 – sem ter uma clara visão do processo histórico e político, e sem ter perdido a noção, arraigada a perder de vista, da disciplina. Para não falar do “princípio do chefe”. Três exemplos ilustrarão o que pretendo dizer. Um deles remonta a 1821; outro, aos dias que se seguiram à revoada do major Veloso para Jacareacanga; o terceiro, aos dias que antecederam a escolha do General Médici para presidente da República pelo Alto Comando das Forças Armadas. Apesar de separados por mais de século, espelham a mesma realidade.  

 

    Em 1821, a tropa paga mandou uma delegação a D. Pedro, Príncipe Regente, pedindo a exoneração de um Ministro. Depois de fazer bonito discurso, o Príncipe acedeu ao pedido e pediu aos representantes da tropa que indicassem o substituto. Eles se recusaram porque essa não era função da tropa. Insistindo o Príncipe, indicaram. Mas indicaram porque D. Pedro insistiu. A autoridade, afinal, era do Poder Civil.  

 

    Quando Veloso e seus companheiros voaram, perguntei a um Coronel da FAB, que comungava da mesma hostilidade à posse de Juscelino e ao golpe do General Lott em novembro de 55, porque não assumia o comando de uma revolução. A resposta, por nada ter de política, surpreendeu-me: não havendo um Brigadeiro para comandar a revolução, qualquer outro Coronel poderia querer ser chefe…  

 

    Na eleição de Médici, um membro do “partido fardado” veio à redação, uniforme de campanha, 45 na cinta, pedir a última carta de Albuquerque Lima a Lyra Tavares – o candidato da tropa e o membro da Junta Militar trocavam insultos delicados em cartas que a censura não deixava publicar. O Coronel, que queria saber das últimas, estava fardado porque o Exército estava de prontidão e, mais importante, porque ele era Oficial-de-dia de grande unidade. Quando lhe observei a gravidade do ato que cometera, abandonando o quartel, confidenciou que se seu superior soubesse, estaria em má situação. No decorrer da conversa, deixou claro que se o Alto Comando não escolhesse Albuquerque, haveria revolução. Médici foi escolhido e como Albuquerque deixou passar o cavalo encilhado, nenhum Coronel se levantou, Capitão muito menos. Como contraprova disso tudo, lembro-me do General José Alberto Betancourt – que foi a primeira pessoa que me falou em “partido fardado” – narrando o episódio do 11 de novembro. Lott recusou o comando que os dois irmãos Betancourt lhe foram pedir para assumir, Denys fez a mesma coisa e o Ministro só comandou a sublevação quando soube que os Coronéis iriam oferecer o movimento ao General Zenóbio. Quando perguntei a José Alberto o que eles fariam se Zenóbio também recusasse, disse: “Bom, aí, nós assumiríamos.” Pediu transferência para a reserva quando o Ministro, General Lott, não quis nomeá-lo para o comando da Brigada de Paraquedistas, mas sim para o 6º RI em São Paulo. Foi para a reserva, ele que queria montar um sistema para abrir a porta do Ministro e não ter de pedir audiência…  

 

    Esse atavismo da obediência ao superior explica porque o “partido” morreu. Aliás, começou a morrer com 1964 e foi esquartejado pela Junta Militar. Nunca será demais repetir para as jovens gerações que o Marechal Castelo Branco, Presidente da República, começou a redução do orçamento das Forças Armadas. Da mesma maneira que é preciso insistir que o Ato Institucional nº 17, o último que se baixou neste País, foi editado pela Junta Militar para liquidar o “partido fardado”.

 

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