O artigo abaixo reproduzido chegou às minhas mãos enviado pelo autor, Gen. Valmir Fonseca Azevedo Pereira, e também me foi gentilmente remetido pelo Gen. Pedro Fernando Malta. Agradeço a atenção dada por ambos ao meu texto anterior e a deferência com que sou citado.  

 

     Desejo ressaltar a importância do artigo do Gen. Azevedo não porque suas considerações possam aproximar-se da idéia-força que me levou a escrever “Uma questão de método”, mas, sim, pela grave notícia que nos dá: a de que o problema que procurei apresentar já tinha sido por ele detectado.  

 

     Infelizmente, pelo que também se lê, o resultado de seu esforço para dar a conhecer o verdadeiro estado de espírito do Exército brasileiro foi afogado nos meandros burocráticos. E das pesquisas realizadas não se tem conhecimento.  

 

     Reafirmando o quanto sensibilizou-me a atenção do Gen. Azevedo e do Gen. Malta, manifesto a esperança de que esta página possa continuar contribuindo para o conhecimento real das condições em que não só o Exército como as demais Forças atuam hoje em nosso País, e para que esse conhecimento permita que as Armas, a serviço do Estado, conduzam a que Austeridade, Grandeza e Progresso, lema que deve ser de todos nós, transforme-se em efetiva realidade nacional.  

 

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     A CRISE MORAL E OS VALORES MILITARES  

 

     A quem interessar possa.

 

     Em recente crônica de 18/06/2008, acerca dos malfadados acontecimentos protagonizados por militares do Exército nos morros da “Providência” e da “Mineira”, o renomado Professor Oliveiros S. Ferreira elaborou o intrigante texto “Questão de Método” (Pensar e Repensar), do qual selecionamos as passagens abaixo, que sintetizam uma verdade inquestionável, a qual, mesmo os Chefes militares que deveriam ser os mais atentos a respeito do tema, insistem em desconhecer ou reconhecer como reais.

 

    …“Encastelados e, até certo ponto, deixando que sua reação seja orientada exclusivamente pela necessidade de defender o nome da instituição, os Comandos não se apercebem de que o que ocorreu só pôde ter ocorrido porque ela, instituição, está em crise — crise que alguns pensadores do começo do século XX diriam ser crise moral, na medida em que os valores que a aglutinam já não têm o mesmo peso para todos os que a integram. Quando um Oficial considera que o cumprimento de uma determinação (ordem ou que coisa tenha sido) de seu superior poderá fazer que seus subordinados passem a vê-lo como frouxo, a idéia mesma de disciplina e de hierarquia — e, junto com ela, o ideal da corporação — desapareceu. O importante é ver o ocorrido como indício seguro do único fato com que os Comandos deveriam preocupar-se: o caminho para a anomia está aberto”. … “A crise é moral, uma crise de valores. Assim é, porque os valores que aglutinam a Força Armada já não têm, para o conjunto de seus integrantes, a capacidade de soldar todas as almas na disposição de enfrentar os sacrifícios exigidos para que se mantenha viva a chama do ideal. Da honra!”

 

     O tema toca-nos de modo especial, pois debruçados sobre sua problemática, durante quase três anos de minuciosas pesquisas e dedicados estudos, elaboramos um trabalho inédito, que repousa nas gavetas do DEP, intitulado “Valores Militares”, que entendemos, poderia ser publicado para difusão.

 

     Durante o trabalho, realizamos mais de cem entrevistas (com treze perguntas) por escrito, com a colaboração de militares da reserva (na sua maioria), e mesmo da ativa, de todas as patentes e graduações. Seria deveras interessante que os encarregados das áreas responsáveis pelo aspecto moral da Força e isto inclui os Valores, as Virtudes, os Atributos e as Qualificações e, portanto, estão, intimamente, ligados aos Princípios da Chefia e da Liderança, tomassem conhecimento e as devidas providências.

 

     Respaldam aquela apreciação, além dos estudos levados a termo pelo autor, suas preocupadas considerações e alertas, e uma Pesquisa, contendo 30 perguntas de múltipla escolha, na qual entrevistamos mais de 900 (cem de cada Escola/Quartel) militares do universo que chamamos “os novos contingentes”, ou seja, àqueles que cumpriam seu 1º ano na caserna. Por isso, dirigimos nossa Pesquisa para a Escola Preparatória, para o 1º Ano da AMAN, para a ESA, para o NPOR do Rio de Janeiro, para a Escola de Administração e para a Escola de Saúde, nesta, tanto para os Oficiais como para os Sargentos e, também, para três Quartéis do Distrito Federal. Nas Escolas de Administração e Saúde, inclusive para o segmento feminino.

 

     Para validação dos objetivos pretendidos, a Pesquisa foi realizada ao final do ano, ou seja, após o universo considerado ter vivenciado um bom período na caserna.

 

     Tivemos, embora parcial, uma lúcida percepção do que estava ocorrendo, pois tínhamos a opinião e o pensamento de profissionais de vasta experiência, e o sentimento dos novos militares, acerca de sua curta vivência na caserna. É inegável, que semelhante estudo deveria ser de valia para o entendimento efetivo do que ocorre na atualidade no seio militar, em termos de Valores, corroborando a real dimensão da situação, como bem retratou o Professor Oliveiros.

 

     À guisa de informação, destacamos que o trabalho é muito mais amplo do que o referido nas duas pesquisas. Estas, apenas uma parte de um estudo, que entre outras abordagens, debruçou-se, inclusive, na análise dos Programas de Ensino daquelas escolas (no caso dos soldados, foram estudados os Programas de Instrução a cargo do COTER), nos aspectos “Atributos” (Virtudes…), e no tema “Chefia e Liderança”, verificando-se em cada um, os assuntos abordados, a dosagem, a carga curricular, etc.  

 

     Finalmente, alertando aos desavisados ou preconceituosos, o trabalho longe de pretender tornar públicas eventuais idiossincrasias da Força, visava, como visa, prestar uma graciosa colaboração, e mesmo homenagem à Instituição, que tanto respeitamos e admiramos. Por isso, antes de uma crítica, a quem quer que seja, entendemos que o nosso esforço, prioritária e objetivamente, ao abordar um tema onde poucos mourejaram, tanto que não existe nenhuma obra deste quilate na Historiografia Militar Brasileira, foi escrever um preito, uma louvação, uma emulação ao Exército Brasileiro e aos militares em geral, independentemente de seu posto ou graduação.

 

     Infelizmente, por fatores alheios a nossa vontade, não atingimos o nosso intento.  

 

     É lamentável.  

 

     Brasília, DF, 20 de junho de 2008

 

     Gen. Bda R1 Valmir Fonseca AZEVEDO Pereira

 

  

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