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     Quando se procura delinear o que será o Brasil na virada do século ou no ano 2020 – para repetir os lugares comuns — é preciso ter presente que “saber” e “poder” não estão concentrados num grupo social. Houve tempo em que o “poder” estava concentrado nas Forças Armadas. Então se tomou o cuidado — para salvar as aparências e não repetir, como Mao, o Grande Timoneiro, que o poder nasce do cano do fuzil — de dizer que elas eram o Poder Moderador na República. Hoje, deixaram de exercer essa função que os civis lhes atribuíram. Para compreender a dissociação que existe hoje entre “saber” e “poder”, é preciso levar em conta que o “saber” que se tem para exercer poder na fábrica ou no mercado de capitais conta pouco quando, no Estado, onde se fazem as regras que governam uma e outro, há pessoas que podem saber menos, mas mandam mais.  

 

    O “saber” não se concentra nas universidades. Boa parte dele, sem dúvida, lá está, mas dissociado do poder de fato – exceto quando algum acadêmico é guindado a postos executivos, ou faz carreira política e chega à Presidência da República, como é hoje o caso. A maior parte do “saber” está fora da política – que tem os seus “saberes”, às vezes distintos daqueles em que se formaram os sábios.  

 

    Aqueles que detêm o poder na fábrica e no mercado de capitais não têm vocação para servir o País na esfera pública, preferindo fazê-lo no setor privado. Com isso, a esfera pública é ocupada por aqueles que, antes de tudo, são burocratas e têm a mentalidade que os “bureaux” criam, além de obedecer, na maioria das vezes, no Executivo ou no Legislativo, ao “princípio de Peter”: cada qual chega ao nível de sua incompetência. Obedecem ao princípio, mas mandam.  

 

    Os que, como eu, nasceram para a vida política com a queda da ditadura Vargas, aprenderam uma dolorosa lição, que abalou as convicções demoliberais – mesmo quando se era socialista – sobre a necessidade e a excelência dos Parlamentos, locus privilegiado das discussões e do encontro das soluções para o País. Ainda me recordo do que dizia velho companheiro, que durante anos fez a cobertura dos trabalhos da Assembléia Legislativa paulista: “O nível da Assembléia cai a cada Legislatura.” O mesmo juízo se aplica ao Congresso – e são poucos (porque as Parcas, afinal, exercem sua função) os que se lembrarão dos tempos em que um punhado de deputados e senadores colocou em xeque o prestígio do Presidente Vargas em seu período constitucional. Pela palavra e pelo “saber”.  

 

    No instante em que, primeiro os de minha geração, depois os que pertencem às que a sucederam, puseram em dúvida a vitalidade do Congresso – e nessa dúvida foram auxiliados pelos Atos Institucionais e Complementares durante 20 anos – os “sábios” deixaram a política de lado. Os homens do mercado (industriais, comerciantes, financistas) preferiram ter seus delegados a enfrentar a dura realidade da política no Congresso, como fizera Roberto Simonsen. Ao retraírem-se, deixaram aos que os sucediam nos negócios a impressão de que a política era coisa para pessoas não muito respeitadas. Com isso, o cursus honorum, que sempre foi a marca distintiva da carreira política, transformou-se numa loteria em que ganhavam os menos qualificados.  

 

    Afastados da Política, recusando-se a enfrentar os Chefes do Executivo onde quer que fosse, os “sábios” que mandam nas fábricas e no mercado de capitais deixaram o Poder entregue aos que sabem menos, mas conhecem os meandros de uma atividade que por mil razões se tornara vil aos olhos de muitos.  

 

    Esses que não são “sábios” mandam. Continuam mandando, malgrado as críticas que nós, “sábios”, fazemos aos que exercem poder na República.

 

 

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