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          O mal de fazer análises de conjuntura considerando apenas os dados econômicos é que se perdem de vista os fatores reais de poder. Sem dúvida, quem desprezar os elementos econômicos fará tão apenas um exercício intelectual, quando não manifestará um ato de vontade. Deixar, porém, de considerar os fatores reais de poder implica aceitar que os movimentos sociais e políticos, que as instituições em suma, não têm peso ou importância maior na determinação das ações políticas, portanto na construção do futuro.  

 

    A discussão sobre se os dados da economia ou dos movimentos sociais organizados devem ou não prevalecer na análise é importante, especialmente quando se procura ver como será o futuro governo, pouco importa se de Fernando Henrique Cardoso, se de Luiz Inácio Lula da Silva. A rigor, haverá uma diferença fundamental entre os dois: se Fernando Henrique Cardoso for reeleito, terá de enfrentar movimentos organizados que procurarão, por todos os meios e modos, desestabilizar sua administração. O MST deverá fazer alguma coisa a mais do que fez até agora, e a ele juntar-se-ão quantos movimentos sociais estiverem organizados e dispostos a chegar até a fronteira da insurreição. Contra esse tipo de organização, o Estado Constitucional pouco terá a opor, a não ser a rigidez dos códigos. Se o eleito for Lula da Silva – coisa pouco provável, hoje -, a crise assumirá outro feitio, porque os movimentos organizados farão pressão para que o Presidente avance contra o Brasil velho – possivelmente “fugindo para a frente” para tentar resolver problemas – e o Presidente não terá como enfrentar sua ação, pois não aceitará ser inquinado de “reacionário” e “vendido ao imperialismo”. Como escrevi há alguns anos, em situação totalmente diferente, os organizados levam sempre vantagem sobre os não-organizados. Os partidos políticos que sustentarão Fernando Henrique pertencem a esse último grupo; os que formam com Lula supõem ser organizados, mas não são diante da força telúrica do MST.  

 

    Estes são um importante fator real de poder – os “organizados”. Só depois que tivermos traçado o quadro de sua provável ação é que os dados econômicos passarão a ter relevância na análise. Um governo democrático que seja “organizado” terá condições de enfrentar uma crise social e política originada na economia; um governo que não conte com o apoio de “organizados” estará à mercê dos movimentos sociais organizados, a menos que queira apelar para aqueles que são, por natureza, organizados, isto é, para os que devem defender os Poderes Constituídos e garantir a lei e a ordem.  

 

    Há outros elementos que devem ser considerados, quando se faz análise da conjuntura brasileira: a crise do Estado. Já não me refiro aos diversos Estados anticonstitucionais, cuja existência irá minando, lentamente, o princípio da autoridade e, portanto, abalando a própria estrutura do poder constitucional. Tenho em mente, neste momento, o fato de que os aparelhos de repressão do Estado constitucional não mais pertencem a ele. Assim como Góes pretendia que o Exército fosse uma corporação distinta do Governo – tal qual se configurara a situação na Questão Militar, no Segundo Reinado -, as Polícias Civil e Militar são, hoje, aparelhos praticamente à margem do Estado constitucional, isto é, estão a um passo de fugir a seu controle.  

 

    Esse é um problema – diverso do confronto com os “organizados” – com o qual Fernando Henrique Cardoso ou Lula se deverá defrontar. O risco maior é que, na evolução dos fatos, por aquilo que Saint-Just dizia ser a “força das coisas” – e neste momento o desempenho da economia será importante -, esses aparelhos repressivos, de uma maneira ou de outra, venham a somar forças e agitação com os “organizados”.

 

 

 

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