AO LEITOR

14-01-2010

    

 

    

 

     Esta página, “pensar e repensar”, como seu nome indica, foi um instrumento que encontrei, ao deixar a lide de Imprensa depois de cerca de 50 anos, para prosseguir analisando a situação brasileira e, às vezes, a internacional. Tenho por norma não responder a todos quantos divirjam de minhas colocações. Aprendi, na sofrida escola do jornalismo profissional, que a opinião que emiti dada estará; outros terão suas próprias opiniões, ainda que contrárias à minha, sem que, por isso, eu me veja obrigado a esclarecer isto ou aquilo.

 

     Mas não sou apenas um Jornalista — sou um Professor. E, como Professor, tenho outras responsabilidades.

 

     Hoje, sou levado a romper minha própria norma, tendo em vista correspondência de um leitor de “pensar e repensar”, que expressamente me pede o esclarecimento de algumas proposições. Faço-o não exatamente para lhe responder, mas para esclarecer algumas idéias que norteiam minhas análises. Penso, ao fazê-lo, deixar ainda mais claros os caminhos que trilho − às vezes sob fogo cerrado de intelectuais da esquerda, outras sofrendo a ação de patrulhas da direita (se é que podemos falar em Esquerda e Direita, hoje em dia).

 

     Vamos, pois, buscar esclarecer, tendo em vista, como dizia Sarmiento, que “las cosas, hay que hacerlas; hacerlas mal, pero hacerlas” .

 

     Transcrevo literalmente as perguntas que me foram dirigidas.

 

     Pergunta“Por que o Sr. afirma que o Foro de São Paulo é coisa de “teóricos da conspiração”? Não é verdade que no Programa de Mestrado San Thiago Dantas, onde o Sr. leciona, lecionou até falecer uma mulher que fora agente, pelo menos participante, do Foro e a qual, por sinal, parece ter sido sua orientanda de Mestrado (…). Ademais, qual seria a razão exata de sua ironia ao dar a entender que o Foro é considerado por tais conspiradores como o “inimigo número 1 da cristandade?”.     

 

     Resposta – A Professora Ana Maria Stuart foi, de fato, minha orientanda, tendo defendido, em 1989, tese sobre a crise de 1902 na Venezuela, quando potências européias bombardearam portos e ocuparam alfândegas para cobrar dívidas externas. Referir-se à Professora Ana Maria como “uma mulher” indica apenas a absoluta falta de educação de quem assim a ela se referiu — não a qualifica. E a menção a esta orientação é indicativa da forma mentis perversa (para dizer o mínimo) de quem formulou a pergunta, desejando ver um inimigo potencial, se não oculto, em quem tenha tido contato intelectual e profissional com “o inimigo”. Uma menção que me parece nada ter a ver com a pergunta e que indica, claramente, que, de minha “ficha corrida”, constará como evidência de que eu poderia vir a ser um agente do Foro de São Paulo.

 

     Mas vamos ao que interessa de fato. Tivesse o leitor sido meu aluno, teria ouvido várias vezes que devemos sempre prestar atenção aos paranóicos, pois eles têm sensibilidade maior que a nossa e podem estar vendo uma luz no fim do túnel antes que o comum dos mortais a pressinta. Daí, porém, a fazer desta luz, que alguém supõe estar vendo, uma diretriz de ação, vai um longo passo.

 

     Digo, e reafirmo, que atribuir ao Foro de São Paulo a responsabilidade intelectual, moral e política por tudo o que acontece de errado no Brasil tem algo a ver com o que entendo por “teoria da conspiração” — que se define por apontar um fato isolado e único como causa e explicação única e suficiente de todos. Sucede que o Foro já é uma conseqüência de fatos outros, que, em seu conjunto, são origem de outros tantos. Inverter a realidade e afirmar que ele é responsável pela deterioração dos valores e pela crise política brasileira, crise que só os idiotas não estariam vendo, é ir além da “teoria”. É atribuir culpa a uma entidade real, sem dúvida; mas é dar prova de total ignorância do que sejam os processos sociais. Atribuir culpas a esmo, porque e quando não temos disposição para descer fundo na análise dos fatos, será atribuir culpas ao que não deve ser atribuído, livrando de responsabilidade muitos verdadeiros culpados e responsáveis.

 

     O Foro existe, todos sabem e de ninguém ele esconde quais sejam seus objetivos: “fazer o socialismo na América”. Considerar isso é importante. Mas transformar Gramsci − pois é disto que se trata − em inspirador e, mais grave ainda pois que está morto, em ator das tragédias brasileiras e mundiais é, pelo menos, desconhecer as idéias do cavalheiro em questão e atribuir-lhe a paternidade de idéias alheias. Às vezes, pergunto-me por que os que se eximem da culpa por não querer agir, considerando a ação inútil uma vez que Gramsci pode ser apontado como responsável por tudo, não se referem a Lenin no “Que fazer?”, aos escritos de quem de fato escreveu o que Gramsci, depois, veio apenas complementar. Por “síntese” didática? Ou por mera ignorância?

 

     Aqueles, que fazem de Gramsci e do Foro de São Paulo a causa de todos os vícios, seria bom que se detivessem um pouco na história da III República Francesa, da Quinta Coluna nazista (que muitos diziam que era eficiente) e do triste fim da França sob os exércitos de Hitler, por exemplo. O Chanceler do III Reich tinha, aliás, uma curiosa teoria conspirativa: os males do mundo resultavam da aliança do comunismo, do judaísmo internacional e do capitalismo. Com os dois últimos Gramsci concordaria explicitamente, pois fala nos “judeus” como intelectuais de uma “classe internacional”. Assim como fala nos “rotarianos” e na “Igreja Católica”…

 

     A história (deixemos à parte os aspectos propriamente militares da campanha da França em maio de 1940) nos diz que a III República não caiu por causa da Quinta Coluna. A idéia da Quinta Coluna, porém, explicava tudo. E permitia esconder o fato de que a solidariedade social e política na França já tinha sido lentamente destruída, e não por ação do nazismo ou de simpatizantes dele, mas, antes de tudo, pela ação deletéria da “Action Française” (organização que se dizia católica até ser condenada pelo Papa) e de quantos julgavam que a democracia já não podia resolver os problemas sociais e políticos em que a França se debatia.

 

     O fato de o Estado Maior francês ter-se, sempre, recusado a considerar as propostas do Capitão / depois Coronel / depois General Charles de Gaulle não era levado em conta por quem se satisfazia com uma explicação daquele naipe, a da ação deletéria da Quinta Coluna. E a Quinta Coluna pôde ser dada como única responsável pela débâcle.

 

     O leitor, antes de centrar suas inquietações nas ações do Foro de São Paulo, deveria ler com atenção as encíclicas papais, desde Leão XIII (condenando o liberalismo tanto quanto o comunismo ateu, publicada em 1891) até as de João Paulo II e Bento XVI sobre a crise moral provocada pelo individualismo.    

 

     Pergunta“Por que a estratégia de hegemonia cultural de Antonio Gramsci não pode, segundo o Sr. dá a entender, se coadunar com nenhuma estratégia de usura ou de guerra subversiva?” (O leitor vai adiante no que prefiro transformar em outro item.)    

 

     Resposta – Nunca disse “não pode”. Disse, e o reafirmo, que o pensamento militar é mais fecundo que o de Gramsci – e não se queira pretender que o General Giap, que conduziu a guerra contra os franceses na Indochina até 1954, e Mao Tsé-tung eram influenciados por Gramsci — que Stalin proibira ser editado fora da Itália.

 

     A “estratégia da hegemonia cultural” pressupõe um “centro diretivo” (palavras do cavalheiro italiano em questão) que tenha “hegemonia sobre os intelectuais” (idem). Não podemos atribuir à estratégia da guerra subversiva qualquer preocupação com isto – a menos que a idéia de Justiça e eqüidade entre os homens e os povos colonizados e colonizadores seja considerada privilégio exclusivo dos tais “gramscistas” e do Foro de São Paulo. Bastaria ler com atenção e sem preconceito meu último artigo para conhecer as diferenças entre as estratégias.

 

     Ademais, para que o “centro diretivo” (no caso, seria o Foro de São Paulo) tenha a “hegemonia cultural”, é preciso que haja “intelectuais” sobre os quais exerça essa “hegemonia” e, mais importante ainda, que haja um partido de massas que dissemine as idéias.

 

     Ah, direis, mas os meios de comunicação estão na mão de aliados ou agentes do Foro. As escolas, idem! Curioso, isso: a exigência de que só poderiam trabalhar em jornais aqueles que fossem formados por Escolas de Comunicação não é do Foro; foi, antes, decisão do ex-Ministro Jarbas Passarinho que também cuidou da reforma da Educação. Por pouco, eu mesmo não caí nos rigores da lei e não deixei de escrever em jornais por não poder exibir esse diploma.

 

     E a afirmação acima exige uma outra: a de que os proprietários dos meios de comunicação não têm controle algum sobre o que se publica ou se fala na rádio e na TV. Mais ainda, e agora eu pergunto: se a tese fosse correta, que interesse teria o Governo Lula da Silva em controlar os meios de comunicação como é previsto no Programa Nacional de Direitos Humanos-3?

 

     Ninguém poderá negar que há uma minoria ativa que defende o fim do nosso precário Estado de Direito. Mas, por céus, não se diga que o triunfo do sistema financeiro e a expansão das empresas nos estão levando ao socialismo! Quem combate essa minoria? Quem se organiza com palavras de ordem e programas para mobilizar os simples (usei um termo de Gramsci, perdão) e buscar resolver os graves problemas brasileiros, um dos quais é o da quebra da solidariedade que nos está levando ao Estado de Natureza que Hobbes nos descreve? Houve uma campanha contra a Opus Dei, suponho porque se temia que ela conquistasse corações e mentes de intelectuais. Quem saiu em defesa desta organização católica? Ninguém. Gramsci é culpado, ou seria culpado o individualismo, a que se referiam os Papas? Ou culpada seria a crise social e a apatia dos setores que, agindo, poderiam tê-la impedido, e que, não agindo, apenas a agravam, crise e apatia que vêm de longe?

 

     Bem, já houve quem me informasse que eu era trotskista, outros me informaram que era “o mais autorizado porta-voz civil do Estado Maior das Forças Armadas”. Percebo agora uma leve tendência a ser incluído no rol de simpatizantes do Foro de São Paulo. Haverá quem, por ter dito o que disse acima, venha vincular-me ao Opus Dei? Delenda Oliveiros!    

 

     Pergunta (desdobrada da anterior) – “O processo de hegemonia gramsciana no Brasil tal como Olavo de Carvalho o descreve não tem absolutamente nada a ver com o de “crise do Estado” que o Sr. descreve?” .    

 

     Resposta – Não, não tem. “Absolutamente” não tem. Já escrevi o suficiente para demonstrar a quem me lê que a crise do Estado vem da República e da Federação, portanto, de 1889/1891, quando copiamos, sem poder copiar, o modelo norte-americano. A Velha República simplesmente acentuou o processo, que foi interrompido de 1930 a 1945, e recomeçou em 1946, ganhando força em 1988. Se quisermos referências históricas, e histórico-filosóficas, leiamos o capítulo 10 do livro III do “Contrato Social”. Ali, Rousseau nos mostra como os “magistrados” — o Governo — usurpam o Soberano, o Estado, vale dizer.

 

     O processo, no Brasil, é o da usurpação do Estado pelo Governo (as Medidas Provisórias são o exemplo claro e legal). A crise do Estado se evidencia, também, pela falência do Governo, que não cuida do bem estar da população. Esqueçamos Bolsa Família e quejandos e pensemos no que as populações estão sofrendo pela incúria dos Governos em resolver problemas de saneamento e de enchentes. Isso, para não ir mais longe e não falar em falta de segurança. Que é o que a “hegemonia gramsciana” tem a ver com o domínio das favelas e outras áreas pelo tráfico? E com a ausência do Estado? Ou com a corrupção na “classe política” e em forças policiais?

 

     Antes de rotular, pois é fácil encontrar um adversário que nem podemos pôr na cadeia nem perturbará o nosso sono individual, o dos justos, de cada noite, devemos olhar os fatos tais quais são. Quem lesse “Mein Kampf” não precisaria recorrer a Gramsci, muito mais complicado e, diria, de muito difícil compreensão. Na “bíblia” dos nazistas encontraria tudo o que era necessário para conquistar a população com uma idéia, o que se traduziu depois em poder cultural: uma idéia não se combate com uma idéia; combate-se com uma idéia mais a força. Aliás, Gramsci nos fala de “força mais consenso”, não? E nós, falando de Gramsci e de sua estratégia de hegemonia cultural, nem idéia temos para lhe opor. Muito menos temos força, que todos, no discurso, repudiam — comunistas ou não, burgueses ou não, católicos ou não, evangélicos ou não, os políticos ou os que se consideram políticos e os que se consideram “apolíticos”…

 

     Enquanto alguns procuram tudo explicar pela ação nefasta deste satanás de arrabalde em que transformaram Gramsci, porque isso lhes basta, dando força ao inimigo que de fato é o inimigo, deixamos as nossas Forças Armadas marginalizadas e sendo reduzidas à condição de gendarmaria, ou seja, a uma organização em armas a serviço da política dos Governos.    

 

     O Exército é o fundamento do Estado. Sem ele, o mais é silêncio.

 

     Se soubéssemos um pouco de história, saberíamos também que o General de Gaulle, em Argel, em 1943, perguntou a um assessor seu, um intelectual sem dúvida, por onde se deveria começar a reconstrução do Estado francês. Ao assessor, que respondeu “pela educação”, o General retrucou: “Pelo Exército”!

 

     Valham a convicção e a lição de quem combateu a inércia burocrática, os nazistas e os comunistas, e quis fazer — e fez — da França uma grande potência.

 

     Eu apenas conheço as lições da história, o que já é muito, e muito reflito a respeito delas.   

 

    

 

    

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