OESP  

 

 

    Eram seis mulheres, com certeza de diferentes estratos da classe média, que não se envergonhavam de sua condição de mães de família. Pelo contrário, orgulhavam-se de saber conduzir e orientar seus filhos adolescentes. De uma delas, eu não gostaria de ser adversário numa situação em que se discutissem direitos constitucionais ou meramente “direitos cidadãos”. É nordestina e sua fala não esconde o sotaque nem desmente aquilo que Euclides havia dito do nordestino: sobretudo um forte. Ela é forte nas palavras e forte na consciência de seus direitos.  

 

    Todas elas não apenas se orgulhavam da condição de mães, mas também do fato de que discutiam com consciência de que tinham direitos e estavam dispostas a defendê-los. O importante a assinalar neste momento de apatia quase geral, é que não vieram a título pessoal nem defender direitos pessoais. Vieram cumprindo mandato de uma assembléia e vieram na defesa do direito de seus filhos terem uma boa educação.

 

    Há anos, eu já tinha tido a experiência de ter contato com mulheres que sabem o terreno em que estão pisando, em que texto legal se apóiam para fazer sua reivindicação. O direito que sustentavam, então, e as que agora defendem não é complicado, desses que juristas perdem horas para encontrar a fundamentação num livro de doutrina. Conhecem o essencial – e me pergunto, no fundo da consciência, quantos são os brasileiros em melhor situação que a delas, que sabem que existe a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que esses dois textos podem apoiá-las em sua luta? Mas o que surpreende, por revelar que ainda há quem tenha a mentalidade produzida pela diferenciação funcional de poder, é que se ressentem, magoadas – dessa mágoa que vem da consciência ultrajada – porque as autoridades a que recorreram na defesa do que consideram ser seu direito as trataram como se fossem “bobas” e “ignorantes” – reproduzo suas palavras – , pessoas que não sabem que as decisões do Governo são sempre corretas. É o que me dizia há anos outra mãe de família que lutava pela mesma causa: pensam que porque sou mãe de família, dona de casa, não sei os direitos que tenho.  

 

    As seis deixaram-me um dossiê e, na página que o abre está traduzido seu sentimento diante do tratamento que lhes foi dispensado – não apenas a elas, mas a toda a comunidade que representam: “Uma escola não pode ser tratada com desrespeito e arrogância.” Nem, muito menos, as pessoas que defendem uma educação melhor para seus filhos podem ser tidas como massa de manobra de políticos – ora PT, ora Maluf – nem advertidas de que não devem procurar a imprensa para expor sua causa, porque essa está conluiada com as escolas particulares, que estão perdendo alunos para o ensino público, que as autoridades dizem ser excelente. O que a nordestina, que tem filha em outra escola pública, contesta, porque os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem.E sua frase final mereceria meditação profunda: “E minha filha não terá emprego porque a educação é ruim.”  

 

    Defendem, em nome da assembléia geral realizada pelos pais de alunos, a manutenção da autonomia da Escola Experimental da Lapa. Por decisão do Conselho Estadual de Educação, a Escola Experimental, como todas as outras do mesmo tipo, foi extinta para que pudesse haver adaptação à Lei de Diretrizes e Bases. O que temem é que aquilo que constitui a especificidade da escola – que foi muito bem avaliada, há não muitos anos, pela Secretaria da Educação – desapareça e ela seja mergulhada no caldeirão indiferenciado da chamada Rede Pública. Que desapareça isso que se está consolidando na consciência coletiva de muitos grupos, que é a participação, o poder decidir seu destino.  

 

    A sorte da Escola Experimental da Lapa está no Judiciário. Que a decisão final seja baseada naquilo que a lei define como o “bem comum”, que neste caso é uma boa educação para todos.

 

  

 

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