ATO II {20/2/2004}

 

     Cena I

{O cenário é igual ao anterior. Um detalhe, no entanto, chama a atenção: na tribuna reservada à Acusação há mais uma cadeira. Nada indica quem a ocupará. A iluminação é profusa, mas tão logo entram os auxiliares do Tribunal, algumas luzes se apagam e o Tribunal mergulha na penumbra. Ouve-se uma música, mas em surdina, o que impede de distingui-la de imediato. Alguns acordes indicam que se trata da Terceira Sinfonia de Beethoven. Um dos auxiliares de Pedro traz uma bandeirola vermelha na qual se pode ler, escrita em branco, a frase “Em memória de um herói”.

Entram Pedro e os escribas. Seguem-no Maquiavel e Santo Inácio. A sinfonia morre no Segundo Movimento, a “Marcha Fúnebre”. Quando Vichinsky e Talleyrand adentram, saúdam Pedro, e mal trocam olhares com os senhores da Acusação}

 

     O MEIRINHO—Silêncio na corte. Está aberta a terceira sessão do julgamento do Governo do Sr. Luis Inácio Lula da Silva. Por permissão especial de Pedro, pedra sobre a qual se edificou a civilização, foi permitida a presença de um observador estranho ao julgamento. Silêncio na corte.

 

{Entra um indivíduo alto, esguio, trajes escuros de monge medieval que contrastam com a veste alva de Pedro. Senta-se em trono abaixo do de Pedro. Nova música toma conta do ambiente. Os entendidos sabem que é o “Dies Irae”. Pedro faz um gesto com a cabeça e interrompe-se a música. Ele dirige algumas palavras em voz baixa ao recém-chegado, que assente com a cabeça. Ouve-se a “Dança Macabra” de Liszt. Maquiavel sorri. Santo Inácio mantém a fisionomia serena. Os advogados da Defesa parecem não entender que significa aquela música toda}

 

     PEDRO{apresentando o recém-chegado}—Deveis conhecê-lo, pois o invocastes sempre. Eis o Príncipe da Luz, que pediu autorização ao Pai para assistir ao julgamento e ter elementos para, depois, conversar com Ele sobre a semelhança que se poderá estabelecer com Jó, o Sofredor. Inácio tem a palavra.

 

     INÁCIO {sua voz, como sempre, é suave}—O secretário Florentino e eu nos detivemos longamente sobre o processo e, por mais que nossa intenção fosse a de solicitar a clemência do Pai para o réu, não nos foi possível chegar a tanto. Decidimos, então, esperar pelo Primeiro de Maio para ver se ele cumpre sua palavra e vai a Santo André prestar contas na Igreja que o abrigou em outros tempos. Não posso, no entanto, esconder minha profunda decepção com o fato de seu governo não ter mantido os compromissos que assumiu durante a campanha. O pecado que cometeu é daqueles que, permita-me Pedro fazer a comparação, ofendem o Santo Espírito: tirou a esperança do povo. Mais do que isso, fez que a desesperança se instalasse no Brasil, terra abençoada pelo Senhor. Pior, violou, abusando, o Segundo Mandamento, invocando em vão o Santo Nome de Deus.

 

     VICHINSKY — Protesto! A nobre Acusação não pode esquecer que embora o Tribunal seja presidido por Pedro, a Corte não pode aceitar que questões religiosas interfiram no julgamento. Protesto pela exclusão das falas de Inácio dos autos.

 

     PEDRO — Aceito. Lembro ao nobre promotor que, no Brasil, a Igreja está separada do Estado.

 

     INÁCIO — Vossa Santidade me perdoará. Mas as lições de Cristo vão no sentido de que o Estado deve submeter-se às Leis do Reino. Ademais, o Presidente prometeu à CNBB que governaria olhando para ela e considerando seus julgamentos sobre ele. Nada mais faço do que argumentar com as idéias do réu — a menos que ele se esqueça daquilo que prometeu aos homens do Senhor.

 

     MAQUIAVEL {tomando a palavra} — Inácio, não vos assiste razão. Pedro já decidiu a questão e deveis submeter-vos à sua decisão. Além do mais, se quiserdes levar a acusação por este caminho, serei obrigado a desligar-me do caso, muito embora saiba que a luta entre evangélicos e católicos por influência junto ao Governo é muito dura e o Governo, às vezes, se esquece de que o Estado é laico. {ia continuar, quando teve sua atenção voltada para a Defesa, os dois advogados trocando palavras em voz baixa. Aguçou os ouvidos e, depois, disse}— Não esperais que Inácio e eu venhamos a nos desentender. Se chamei sua atenção foi para que a Defesa não tivesse, ao final, elementos para um recurso. Se me for lícito continuar, direi que não posso perdoar aquilo que o Governo que defendeis fez com o povo. Não na linha daquilo que meu ilustre colega pretendia dizer, mas n’outra: aquele que defendeis está levando o povo, um dia depois do outro, a pensar que a política é uma profissão baixa, tão baixa que já há jornalistas que escrevem que os políticos são — Pedro, perdoai-me as palavras — os gigolôs da Viúva, querendo dizer que eles vivem à custa do Tesouro. Escrevi em outra ocasião que, se alguém pretende manter o Estado e a República vivos na mente popular, é preciso entregar ao Povo a guarda da liberdade. Ora, no momento em que o senhor Lula da Silva permite que se pense que a política é arte própria de exploradores de órfãos e viúvas, ou de heteras, está preparando o caminho para que a guarda da liberdade seja entregue a um príncipe qualquer. Isto significa que não haverá mais liberdade para o povo.

 

     VICHINSKY — Protesto! O nobre procurador está se servindo de frases de um jornalista que é inimigo do Presidente. Maquiavel acusa sem provas, sem, sequer, evidências. Suas palavras não devem constar dos autos.

 

     PEDRO — Protesto negado. As palavras de que se serviu o nobre Secretário Florentino podem ser consideradas como uma noticia que importa crime. Como senhor da causa, o nobre procurador pode continuar, embora lhe peça que acrescente elementos que facilitem a tarefa da Defesa.

 

     MAQUIAVEL — Será preciso trazer a este Tribunal os balanços dos Bancos para demonstrar que o povo sabe que o Governo não está cuidando dele, e prefere entregar a República àqueles que vivem de explorar o Tesouro? É preciso ter presente que quem controla as finanças de num país controla sua política. Provas? Basta a nobre Defesa solicitar que lhe tragam os jornais para ver como os Bancos lucraram sem que tivessem feito o menor gesto para emprestar dinheiro para quem deseja produzir…

 

     TALLEYRAND — Protesto! Há os que estão nas favelas, buscando construir o Banco do Povo.

 

     INÁCIO — Não sabia que o nobre cavalheiro, que comandou a derrubada dos privilégios do clero e da nobreza durante a Revolução Francesa, é, agora, defensor dos Bancos. O tempora… o mores!

 

     TALLEYRAND {Talleyrand leva a mão à cintura como se a espada ainda lá estivesse. Depois, calmo, retruca}— Mais do que vós, defendo a verdade e a ordem. Por acaso pensais que não sei que, nos redutos abissais, estais sentado à esquerda do Príncipe da Luz? E que sois, em parte, responsável por este estado de coisas, pois ajudastes, se não vós, vossos seguidores, a construir, no povo, a idéia de que meu constituído traria a salvação apenas fosse eleito? Lembrai-vos do que vossos companheiros sofreram na China pela intriga dos mandarins e daqueles que, como cães, pretendem guardar o vosso Deus. Estais acostumados a trabalhos políticos que, disfarçados de obras religiosas, querem tudo mudar. Se há um tempo para viver e um tempo para morrer, há também um tempo para consertar os erros de terceiros e um tempo para oferecer a paz e a tranqüilidade ao povo.

 

     MAQUIAVEL — Das dificuldades enfrentadas pelo Governo Lula da Silva, estamos cientes. Do que o acusamos — e já fizemos isso na última sessão — é de ter-se rendido ao capital financeiro em sua forma mais pura e desumana. Para mim, que cultuo a política e até mesmo, como dizem meus adversários, a Realpolitik, isto soa como invenção dos Infernos… {Lusbel se mexe na cadeira e lança um olhar furioso para Maquiavel}— … e dizer que só há uma saída para uma crise é negar a lógica e, negando a lógica, negar a vida. Este o crime maior do senhor Lula da Silva: buscar convencer o povo de que, na vida, quando nos defrontamos com uma dificuldade, só há uma saída, aquela que foi aberta pelos inimigos do povo.

 

     VICHINSKY {que acode sereno e frio} — A Acusação perde-se em coisas miúdas. Na sessão anterior, já ouvimos esta mesma melopéia de que esquerda, a pretexto de combater o cosmopolitismo, na verdade quer levar o povo a um grande sofrimento, maior do que as imposições do capital financeiro internacional ao Brasil. Recuso-me responder a esta provocação com sabor trotskista…

 

     MAQUIAVEL {esbravejando sentado} — Trotskista é o Ministro da Fazenda de seu constituído!

 

     VICHINSKY {tranqüilo}—Messer Palocci fez sua autocrítica e abandonou toda e qualquer pretensão esquerdista e infantil de levar o Brasil a enfrentar o capital financeiro internacional. Para combater o imperialismo financeiro, próprio disto que se chama globalização, é preciso construir um país forte e ter o povo ao lado do Governo, como está.

 

     INÁCIO {rindo} — Mas o imperialismo tradicional e o financeiro estão muito satisfeitos, pois sabem que o Governo não poderá suportar uma mudança de rumo sem grandes sacrifícios. E grandes sacrifícios, mesmo com as Forças Armadas fragilizadas…

 

     MAQUIAVEL — Propositadamente!

 

     INÁCIO — … podem indicar como saída o caminho da revolução. O Governo do Sr. Luis Inácio Lula da Silva não poderá jamais abandonar os laços que o ligam ao capital financeiro, nacional ou internacional. Aliás, são todos a mesma coisa, do ponto de vista do Estado Nacional.

 

     TALLEYRAND — Não sabia que o ilustre capitão fundador da Companhia de Jesus fosse um defensor do Estado Nacional. Esta seria a posição de Messer Nicolau Maquiavel, não de quem sustentou uma luta inglória para estabelecer a soberania indireta do Papado. Ademais, quero lembrar ao nobre Pedro que Messer Inácio, já na primeira sessão, disse que pouco falaria, pois que há um religioso, dominicano, inimigo de sua Ordem, na assessoria direta do senhor Lula da Silva. Os tempos passaram e frei Beto deixou o Governo. Mas não seria ele um daqueles cujos superiores, no passado, intrigaram a Companhia com o Papa e foram vitoriosos por algum tempo? Muito embora os serviços prestados pelos sucessores de Inácio às ambições papais tivessem permitido a reconciliação, sendo o nobre Acusador levado à santidade, tudo o que Messer Inácio diz, acusando, deve ser retirado dos autos.

 

 {Lusbel dá uma gargalhada. Pedro se ergue. Maquiavel ensaia algumas palavras e, de repente, todos falam, desencontradamente, ao mesmo tempo. Destaca-se apenas a voz de Maquiavel, aos gritos}

 

     MAQUIAVEL — Corrupção! Corrupção! É por isso que deve ser condenado!

 

     LUCIFER{levanta-se, aproxima-se de Talleyrand, que treme à sua aproximação, e lhe diz} — Parabéns! Este padreco merecia esta advertência. Mas devo dizer-te que esta história de que ele está à minha esquerda é invenção dos puritanos ingleses. Inácio trabalha em íntima associação com Pedro. Tem cuidado com ele. {e, tendo dito, retira-se imediatamente de cena}.

 

     PEDRO — A sessão está suspensa e será recomeçada à tarde.

 

{Cai o pano}

 

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     Cena II {2/3/2004}

{A música de fundo é o Till Eulenspiege, de Richard Strauss ‘Till, o travesso’, que de travessuras tem muito desde o início, mas que termina com a ida do ilustre cavaleiro da fortuna ao cadafalso. Ao contrário das sessões anteriores, Pedro e o Príncipe entram antes dos demais. Ninguém mais em cena, apenas os dois, que conversam. Pode-se perceber, apesar de falarem em voz baixa, que Pedro não está satisfeito}

 

     PEDRO {irritado} — Lusbel, complicastes o julgamento sem necessidade. Não havia precisão de dizer a Talleyrand que Inácio trabalhava comigo. Agora, a Acusação deverá mudar de tática, o que talvez complique a situação da Defesa.

 

     LUSBEL {também irritado} — Por acaso imaginais que não os conheço, todos eles? {faz um gesto abarcando a tribuna da Defesa}Quem é este cavalheiro Talleyrand, que não sei quem colocou na Defesa? Homem sem princípios, que traiu a Igreja, defendendo o fim dos privilégios, passou incólume pelo Terror de Robespierre, foi Ministro de Napoleão, a quem também traiu, foi Ministro de Luis XVIII, representou a França no Congresso de Viena e até certo ponto traiu todos os vencedores, fazendo da França um dos países que decidiria na Europa. E este Vichinsky? Mandou para minha companhia, o que agradeço, todos os velhos bolchevistas e acabou sobrevivendo a todos os expurgos que conduziu. Ora, por suas histórias, eles saberão enfrentar qualquer Acusador que seja colocado no lugar de Inácio.

 

     PEDRO — Fizestes tanta intriga, então, por receio da sabedoria e da habilidade de Inácio…

 

{O Príncipe da Luz sorri e se afasta para sentar-se}

 

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     Cena III

{Entram, então, os funcionários. Na tribuna da Acusação, vê-se uma terceira cadeira. O trono do Príncipe da Luz foi removido para um canto que lhe permite melhor visão do processo. Entram, em seguida, Maquiavel, Inácio e um jovem, cabelo no estilo da França revolucionária de 1789, pálido, ar de poeta. Talleyrand ergue-se para dizer alguma coisa, mas Pedro manda que se sente. O meirinho diz as palavras de praxe. Começa a sessão da tarde}

 

     PEDRO — Tenho de pedir desculpas aos nobres promotores pela intervenção desastrada de Lusbel. O Senhor o conhece melhor que todos nós e saberá levar na devida conta aquilo que considero satânica intriga destinada a abrir caminho para que possa acolher mais almas desgarradas em seu turvo reino. Talleyrand com a palavra.

 

     TALLEYRAND {avançando alguns passos, a mão no quadril como se acariciasse a espada}—Senhor Presidente: quero protestar contra a presença de Inácio de Loiola nesta corte. Ele trabalha em íntima associação com a Presidência. Sua presença na Acusação torna o julgamento suspeito de parcialidade, pois estais, vós que o presidis, comprometido com a Acusação. Não desejo que o Príncipe da Luz, ao final do julgamento, recorra, pedindo sua anulação. Protesto pela retirada de Inácio de Loyola da Acusação.

 

     INÁCIO {adiantando-se a Pedro}—Monsieur Talleyrand, não é necessário tanto alarido. Sei, muito bem, que foi o Príncipe da Luz quem fez esta intriga. Embora tenha muito orgulho de estar ao lado de Pedro, neste caso não o represento, mas apenas a consciência de quem deseja que se faça justiça na Terra. Entretanto, não quero que o julgamento sofra qualquer contestação formal. Retiro-me para segundo plano, mas me reservo o direito de intervir se minha Ordem for colocada em causa, se perceber que faltam argumentos válidos a meus companheiros ou se a Defesa produzir fatos mentirosos em sustentação de seu trabalho. {senta-se atrás de Maquiavel e do jovem}

 

     TALLEYRAND {voz embargada pela emoção} — Quem indicou este fedelho para participar da Acusação? Quem deixou de informar o Senhor sobre quem ele é? Um terrorista, um assassino, um regicida. Observai, Pedro, que ele foi dos que desejaram destruir o Altar e o Trono. Como pode estar aqui, neste julgamento?

 

     PEDRO {irritado} — Vossos pecados, Monsieur Talleyrand, são tão negros ou mais do que os de Saint Just, a quem se pode tudo perdoar pela juventude e pela fé que depositou em sua causa, pela qual morreu na guilhotina. Quanto a vós, renegastes a Igreja e os compromissos que com Deus assumistes ao receber os santos óleos que vos fizeram Bispo. Ainda tendes, assim determina a Santa Madre, o carisma episcopal, mas nem por isso podeis interferir nas decisões do Senhor. Saint Just substituirá Inácio e poderá participar da Acusação a título próprio se assim o Senhor resolver. Tenho decidido. Com a palavra Messer Nicolau Maquiavel.

 

     VICHINSKY — Protesto pela inclusão de um terrorista, não se sabe a soldo de quem, neste julgamento. Protesto, para que conste dos autos, embora respeite a decisão de Pedro.

 

     MAQUIAVEL {calmo}—Não quero entrar agora, pois me faltam elementos para tanto, no problema da corrupção que começa a perturbar o Governo Lula da Silva. Mas a isso serei obrigado a voltar. Desejo concentrar-me no dilema que o Governo enfrenta e que parece ter resolvido contrariamente ao povo. Entre quê e quê deve decidir o Governo? Entre entregar a guarda da Liberdade ao Povo ou a um Príncipe — não este, Soberano, que aqui está, pronto a nos dizer a que veio e o que fará de nós — mas o outro, que ainda não apareceu, que pode ser {e separa as palavras, para causar mais efeito} o Presidente Lula da Silva… ou o General de turno… ou o Capitão de mais coragem… ou um banqueiro mais ousado.

 

     PEDRO — Messer Nicolau, o Príncipe que aqui está só poderá dizer o que fará de vós todos com a anuência do Senhor.

 

     MAQUIAVEL {sorrindo}—Mas então não sei, Messer Pedro, que Javé estava em repouso quando o Príncipe dele se aproximou e pediu autorização para tentar Jó, o que não pecaria? Quem nos garante que, nos desígnios do Senhor, não está também nos submeter, a todos nós, às tentações em que o Príncipe é mestre? {faz uma pausa, olha sorridente para Lúcifer, cumprimenta a Defesa e prossegue}E quem nos garante que, a exemplo do que fez com o Filho do Senhor no deserto, o Príncipe da Luz não tenha levado o Presidente Lula ao ponto mais alto que escolheu em Brasília, não lhe tenha mostrado o Brasil — Brasília não é o centro geográfico do país? — e lhe oferecido ouro, incenso e mirra e, mais do que isso, o Poder se aceitasse tê-lo como soberano?

 

     TALLEYRAND {levantando-se irado} — Protesto! Protesto! Três vezes protesto. Pedro, não podeis permitir que este homem, ateu e mais do que isso, inimigo da Igreja, venha blasfemar neste Tribunal, insultando os Livros Sagrados e abusando da fé dos simples.

 

     PEDRO {calmo}—Conheço, Monsieur Talleyrand, as artimanhas de que é capaz o Príncipe da Luz. Como conheço, também, as fraquezas de que são vítimas os homens. Por acaso Napoleão não conhecia as vossas? E não vos teve a seu serviço o quanto pôde suportar? Protesto negado.

 

{Maquiavel faz uma mesura}

 

     VICHINSKY {irritado}—Messer Nicolau não precisa procurar agradar o Presidente. Este Tribunal não é uma casa florentina em que os poderosos têm de ser lisonjeados para que os simples sobrevivam.

 

     MAQUIAVEL — Muito menos é o Kremlin sob Stalin, todos temendo deixar seus miolos nas masmorras da Lubianka. {Vichinsky faz um gesto de quem vai deixar a tribuna e partir para o desforço pessoal. O meirinho o contém. O Florentino sorri e continua} —É o problema da Liberdade o que me preocupa e dele farei um dos pilares de minha acusação… por enquanto! Mais vale um cavaleiro andante que um Arcebispo que renegou as ordens — ele sabe que a Liberdade só se mantém se as instituições são sólidas. Não que algum arquiteto famoso as tenha cimentado no solo; não! Sólidas no coração de todos, como as queria Rousseau, o inspirador de Saint Just e de quantos o seguirem, e que foi um dos poucos que reconheceu meu empenho em ensinar o Povo a se defender dos Tiranos. O Governo do Presidente Lula da Silva continua os esforços de seu antecessor para fazer que as instituições nunca venham a estar arraigadas no coração dos simples. Ele aparenta falar pelos simples, diz que salvará os operários, mas, no fundo, continua uma obra satânica — perdoe-me o Príncipe se atribuo mau sentido à palavra — que é agir como se o povo fosse tolo e se os simples não soubessem distinguir entre a verdade e o erro. Assim o faz porque crê na ignorância do povo. E assim agia Fernando, o Segundo, cuja soberba irritava todos. O Governo Lula da Silva finge ter uma atitude de respeito aos membros do Grande Conselho que nomeou para assessorá-lo, mas, na prática, trata todos como se fossem alunos mal comportados e incapazes de acompanhar as lições. Quero que a Defesa me explique este fato simples: o Governo Lula da Silva diz, na propaganda com que inunda a televisão e o rádio, que há 25 mil trabalhadores escravos no Brasil. Vinte e cinco mil, número redondo! Contou-os, então! Se os contou, por que não os libertou? Ou existem 25 mil e ele nada faz, ou pretende, com este número, assustar não se sabe quem, talvez obter apoios no Congresso para suas políticas que apenas atendem ao capital financeiro internacional. Repito: este é um Governo que despreza o povo que o elegeu; fará do Brasil o mais perfeito redil do capital financeiro internacional. {Senta-se}.

 

     VICHINSKY {resmunga qualquer coisa ininteligível em russo, depois, muda, e sua voz soa suave, mesmo quando o tom sobe e deixa transparecer irritação}—Quero, inicialmente, saudar o nobre Acusador, cidadão Saint Just, embora não possa deixar de registrar que foi um terrorista e que está aqui não sei por que razões. Só o Senhor poderá dizer-nos. Reconheço seu esforço para defender as instituições e fazer que elas traduzam a vontade que brota do coração dos simples, como queria seu mestre Rousseau. Mas sou obrigado a responder às aleivosias que Messer Nicolau assacou contra meu constituído. Vamos aos fatos. A Acusação volta sempre ao estribilho da sessão anterior, o de que a política de Lula da Silva está a soldo do capital financeiro internacional. Nada mais falso e nada mais favorável aos desígnios dos que desejam uma crise institucional para que um General… ou um Capitão… {separou as palavras, como Maquiavel o fizera} assuma o poder e oprima o povo. Ou por acaso imagina que, se os juros forem levados a zero, ou a 12% ao ano, o Brasil conseguirá equilibrar sua balança de pagamentos? Ou joga com a moratória da dívida interna? Apenas um louco pensaria nisso. Toda a classe média tem aplicadas suas reservas nos diferentes fundos que os Bancos colocam à sua disposição. Se houver essa moratória, que quer dizer calote, quem pagará será a classe média…

 

     SAINT JUST{rindo} — Ela é tão rica, assim, tovarich Vichinsky?

 

     VICHINSKY — Sem ironias, meu caro terrorista. Ide em um dia de domingo e tentai entrar num restaurante — estará repleto. As revistas especializadas mostram estabelecimentos no interior do Sudeste em que a espera para o almoço é de duas horas. Isto será miséria? Mas, direis que são apenas episódios. Vamos aos fatos de estrutura. Os capitais estão chegando ao Brasil e ajudando a vencer a dependência deles. Vejo que Messer Nicolau sorri — mas sorri porque em seu tempo não havia este sistema financeiro desenvolvido como hoje. Parece contraditório, mas não é. É apenas um paradoxo do sistema capitalista que — asseguro em nome de meu constituído — o Governo Lula da Silva está disposto a vencer, ao menos em suas mazelas mais gritantes…

 

     MAQUIAVEL {sorrindo}—Mas o camarada Vichinsky não quer dizer que esta história do Grupo São Paulo, ou que nome tenha, é verdadeira? Que estão dispostos, Lula, frei Beto, Chávez da Venezuela e Castro de Cuba, a fazer da América Latina o último baluarte do socialismo?

 

     VICHINSKY {calmo}—Messer Nicolau vive de fantasias, das conspirações com que construiu uma parte de sua obra. Não se trata de qualquer conjura. O paradoxo existe: o Brasil é dependente do capital internacional para afirmar sua própria política externa, e é este capital, que vem chegando, que o ajudará a livrar-se da dependência. A Bolsa de São Paulo explodiu por quê? Pela política de Messer Palocci…

 

     MAQUIAVEL {escarnecendo} — Ribeirão Preto falando para o Mundo.

 

     PEDRO {irritado} — Suspenderei a sessão se Messer Maquiavel não permitir que a Defesa conclua suas razões. E pedirei ao Senhor que designe outro Acusador em seu lugar.

 

{Maquiavel faz um sinal para que Saint Just o substitua se necessário, e se retira por alguns minutos}

 

     VICHINSKY — Dizia que a Bolsa paulista explodiu porque a política de Messer Palocci trouxe — e, agora, a de Mantega traz — confiança ao Mercado e aos capitais internacionais. E, além disso, a política do Banco Central, malgrado todas as críticas da oposição de esquerda, conseguiu um milagre nas exportações. O povo? Desde quando algum governo pôde atingir mais de dois milhões de brasileiros nos programas de assistência à família? O povo está satisfeito com o Governo. Agora que a dependência do exterior é menor, será possível, mês a mês, ou de três em três meses, abaixar os juros até um patamar compatível com as necessidades do país. Que país não passou por problemas? Quantos desempregados há nos Estados Unidos? Na Alemanha? Na França? Este é um Governo que se inspira no que Lênin teve de mais sábio, que foi a Nova Política Econômica, a NEP…

 

     SAINT JUST {agita-se na cadeira e murmura}—Maldita hora em que me deram esse apelido: Anjo do Terror!

 

     VICHINSKY — Sim! A NEP, regime em que era possível ao capital privado conviver com o estatal, socialista. Essa política clarividente permitiu que se vencesse a fase, triste, do comunismo de guerra. Que é a Parceria Público-Privado — a PPP — senão a oportunidade que se abre ao capital privado para cumprir sua função social — com algumas garantias do Estado — e ajudar a resolver os problemas da infra-estrutura? É pena que a Acusação não veja o que se está fazendo e o que já se fez: o milagre das comunicações, da telefonia…

 

     SAINT JUST {levantando-se}—Protesto! O nobre procurador da União Soviética está tentando convencer o Tribunal de que o progresso das comunicações se deve ao Governo Lula da Silva. Escamoteia fatos, como de seu hábito. Protesto! Esquece-se de que foi o até hoje amaldiçoado regime militar que permitiu esse salto qualitativo — embora com o uso de uma prática semibolchevista, a da poupança forçada — e que foi o Governo anterior, o do segundo Fernando, que criou, com a privatização, esse clima para investimentos, embora as queixas do povo se acumulem. Protesto!

 

     VICHINSKY — Desculpe-me, a nobre Acusação, ter-me esquecido do regime militar, que parece tão do agrado de Messer Nicolau Maquiavel, tanto assim que prevê que retorne. Creio que Pedro se agita, cansado em sua cadeira. Com a permissão de meu colega, paro por aqui, mas tenho mais argumentos a acrescentar.

 

{Pedro agradece e suspende a sessão, sem marcar data para outra. Inácio cumprimenta Saint Just, diz três palavras ao Príncipe da Luz, que parece não recebê-las bem. Todos se retiram. As luzes se apagam. ‘Till, o travesso’ chegava ao fim, quando o cavaleiro da fortuna que a obra contempla sobe os degraus que o levariam à forca. Cai o pano}

 

 

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