ATO V

    

     Cena I

{A sala do Tribunal está arrumada de maneira diferente. A tribuna de Pedro continua no mesmo lugar, assim como as da Defesa e da Acusação. Mas há um trono no meio da sala, sobre o qual há uma forte luz que, por estranhos efeitos, cria uma reverberação de tal ordem que se torna possível saber que nele há alguém que não pode ser visto. Os efeitos da luz compõem um quadro fantástico. À frente do trono, um genuflexório. Ao fundo, cantos gregorianos, logo substituídos pela Paixão Segundo São Mateus tão logo entra, sozinho, Lusbel.

A cena toda é tomada pela luz e por Lusbel. Do trono sai uma voz, bela e profunda. Ao ouvi-la, Satanás se ajoelha no genuflexório}

 

     A VOZ — Lusbel! Abusaste das permissões que te dei. Julguei que irias apenas tentar Jó e verificar se o Governo de Lula da Silva estava na modernidade. Foste mais longe. Fizeste que os homens perdessem a noção do que é Meu e do que é teu.

 

     LUSBEL {com altivez}—Protegestes os fiéis do Livro até agora, sem Vos preocupardes com seus pecados. Fiz apenas o que era necessário para que viessem a mim.

 

     A VOZ — Mentes! Lamento o dia em que te expulsei da Minha Casa e te dei poderes de tentar os homens. Foste longe demais. Colocaste os fiéis do Livro uns contra os outros, lançando ameaças à Humanidade antes que Eu tenha decidido que assim fosse, com o encontro final no Armagedon. E não posso te castigar mais do que já fiz ao privar-te da bem-aventurança eterna, tu, que estavas destinado a sentar-te ao lado dos justos.

 

     LUSBEL {petulante} — Que queríeis? Quando nos encontramos para decidir sobre Jó, dissestes-me que tudo o que ele tinha estava em meu poder. Pedistes apenas que contra ele não estendesse minhas mãos. Não o fiz. Mas os outros, os que blasonam de serem Vossos eleitos, sobre eles nada dissestes. Agi para que Vos mostrassem o que na verdade são. De que Vos queixais? De haverdes criado estes seres que Vos renegam a todo instante?

 

     A VOZ {uma oitava abaixo} — Basta! Voltaremos a discutir quando a hora do Armagedon estiver perto. Saberás, então, quem permaneceu fiel ao Livro e quem o desrespeitou. Pedro falará por mim agora, antes do julgamento se iniciar.

 

{As luzes todas se apagam e Lusbel se retira}

   

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     Cena II

{Quando as luzes voltam a se acender, a sala está vazia. Aos poucos, entram os personagens: Vichinsky, Talleyrand, Schmitt, Saint Just, Inácio, Maquiavel. Em fila indiana. Contritos. Richelieu composto, de roxo como Pedro. Lúcifer, saltitante, toma seu lugar. Pedro adentra o recinto por último, soturno. O meirinho anuncia a abertura da sessão. A música ao fundo é, então, um trecho do Parsifal, de Wagner. Pedro faz sinal para que todos se sentem. Quando fala, sua voz está embargada pela emoção. A Lusbel, que parece querer levantar uma questão de ordem, ordena com as mãos que se cale e se sente}

 

     PEDRO — O Senhor queria suspender a sessão, tamanha é sua dor. Fiz-Lhe ver que não seria correto, porque o mundo espera com ansiedade que o julgamento termine. Disse-me, então, que avisasse a todos, urbi et orbi como me incumbe, o quanto Ele está triste…

 

     INÁCIO {ansioso} — Que aflige o Senhor? Está chegando a hora de comparecermos todos perante Ele?

 

     PEDRO {sereno, mas triste} — Não, Inácio. Não tenhais medo. Ele está triste porque Lusbel, que aqui se vê tão alegre, avança pelo mundo, disfarçado em verdadeiro defensor da Fé, mascarado como aqueles a quem os homens chamam de fundamentalistas. Está triste porque o Livro está sendo mal interpretado por todos os que dizem nele acreditar e juram pautar suas vidas pelo que nele está escrito. Na verdade, os que seguem as religiões do Livro, dizendo-se Seus filhos, deixaram-se enganar por Lúcifer, que lhes disse que, matando-se uns aos outros, em nome da Fé ou do que fosse, não apenas ganhariam o reino do Céu, mas governariam a Terra. Vejo {a voz se põe embargada}que pareceis espantados e que fazeis ar de quem não entende o que digo. Ímpios sois! Pois não foram os filhos de Judá os que cercaram, anos atrás, um templo em Belém e tentaram dele extrair aqueles que nele haviam buscado o Santuário, o refúgio, que a Igreja sempre concedeu a quem A procura e n’Ela se asila? O mundo, que fez? Resignou-se. E agora, como que tomados pelo satânico desejo do poder…

 

     LUSBEL — Protesto! O Senhor nos ensinou que d’Ele são o Poder e a Glória! Os homens apenas n’Ele se inspiram.

 

     PEDRO {irado} — Pensando serem Deus! Ninguém pode se deixar levar por este sentimento que pretendeis estar de acordo com a Vontade do Senhor. Muito menos bombardear um templo sagrado, como se fez agora no Iraque contra uma mesquita. Perdeu-se a noção do Divino que há na natureza humana, e todos se deixam levar pelas palavras de Satanás. Todos se esquecem de que Cristo, Profeta de Israel, Deus feito homem dos cristãos ou Profeta do Islã, resistiu às tentações do Demo no deserto. Poderia ter-se poupado todos os sacrifícios da Paixão e ter todo o Poder sobre os homens na Terra. Não quis. Preferiu, até, que um russo o fizesse sofrer de novo nas mãos do Grande Inquisidor, séculos depois. E que fazem, agora, todos? Desconhecem os símbolos que construíram a humanidade. Misereor super turbam e choro ao ver que o poeta tinha razão ao dizer que não se constroem mais catedrais como aquelas que marcaram civilizações que souberam, um dia, vencido o ódio e a ambição de poder, conviver e ilustrar o Ocidente. Qual o espírito que os anima? Vade retro Satanas! Que prossiga o julgamento. E que fale a Defesa.

 

{Vichinsky levanta-se. Lusbel, que, enquanto Pedro falava, tinha se acercado de Inácio e com ele confabulado, chega-se perto do procurador soviético. Põe-lhe a mão esquerda sobre o ombro direito. Vichinsky faz um gesto de quem está irritado e tenta retirar aquela mão, que lhe parece pesada. Inútil. Lúcifer é mais forte ou mais avisado. O soviético começa com a mão do Demo sobre o ombro}

 

     VICHINSKY — Pensei em alertar os ilustres membros da Acusação de como estão enganados ao pretender que Mantega mude sua política econômica. Prefiro, porém, dizer alguma coisa a respeito de como os camaradas Lênin e Stalin, o guia genial de todos os povos, fizeram para vencer a crise que se instalou na União Soviética depois da guerra civil…

 

     RICHELIEU — O camarada Vichinsky está pretendendo defender ou acusar? Quer sustentar que o exemplo de Lênin e Stalin serve de defesa para o Governo Lula da Silva? A mão de Lúcifer deve ter-lhe toldado o juízo.

 

     PEDRO {para Vichinsky}—Camarada! Contra a vontade, devo cassar-vos a palavra. Deveria expulsar Lusbel do Tribunal, mas não tenho poderes para tanto. Ele está aqui por determinação do Senhor. Fale alguém da Defesa em vosso lugar.

 

{Lúcifer ganha seu lugar ao lado de Pedro, sorridente. Enquanto Vichinsky senta-se, humilhado, Talleyrand levanta-se}

 

     TALLEYRAND — Teria pouco a dizer depois do que vimos. Lusbel conferencia com Inácio e depois perverte a mente de meu colega de Defesa. E Pedro diz não ter poderes para expulsar quem está criando óbices para que o julgamento transcorra normalmente. Não fora eu acreditar na justiça do Senhor e saber que Ele não se deixará levar por estes incidentes processuais, diria que tudo isto é uma farsa, montada pelo Império das Trevas, com a cumplicidade de Pedro, para condenar meu constituído…

 

     PEDRO {levanta-se e esmurra a tribuna}—Como vos atreveis a pôr em dúvida minha imparcialidade? Não sou eu quem abre ou fecha as portas do Céu? Insultais toda a Corte celeste. Exijo que retireis o que haveis dito.

 

     TALLEYRAND {sorrindo} — Não haveis renegado Cristo três vezes? Por que não podeis praticar um pecadilho? Ou pensais que a expulsão de Lusbel deste julgamento será um pecadaço? Não retirarei o que disse porque os fatos estão a meu favor: a conferência de Lúcifer com seu amado auxiliar e, depois, a confusão na mente de Vichinsky. Reclamo o direito de continuar; se não me for concedido, recorrei ao Senhor.

 

{Pedro e Richelieu trocam palavras}

 

     PEDRO — O venerável Cardeal me aconselhou e julgo seu juízo sereno mais correto que o meu, provocado pela ira. Continuai.

 

     TALLEYRAND — Os nobres membros da Acusação condenam — sim, condenam mais do que acusam — o Governo Lula da Silva de continuar a política econômica do Governo anterior. Acusam-no, portanto, de manter os privilégios na sociedade brasileira. Ora, não estaria nesta tribuna para defendê-lo se a acusação fosse verdadeira. Afinal, quem combateu os privilégios de seu próprio estamento, no início da Grande Revolução, a que trouxe os miseráveis para o palco em todo o mundo, fui eu. Aqui estou porque vejo, neste Governo, a firme intenção de combater os privilégios, especialmente os do funcionalismo. Chamo a atenção de Pedro para este fato: o infeliz Luis XVI morreu não apenas por ter pescoço…

 

     SAINT JUST — Protesto! O nobre Bispo não está em uma roda de samba! Não reduza a grandeza da Revolução. Morreu porque a Revolução deveria prosseguir, como disse meu pranteado amigo Robespierre.

 

     INÁCIO {aconselhando Saint Just}— Cuidado! Ele usará a lógica tomista contra nós. Cuidado!

 

     TALLEYRAND — A observação do nobre Anjo do Terror é absolutamente impertinente. Se aquele desafortunado Luís e sua digníssima consorte não tivessem pescoço não poderiam ser guilhotinados. É um fato. Da mesma maneira que Robespierre… {Saint Just apalpa o pescoço, como a se certificar de que está inteiro e a cabeça está no lugar. O Bispo gargalha e continua}—morreu Luis XVI, porque se recusou a combater os privilégios, mas, sobretudo porque não quis afrontar a burocracia que havia tomado conta do aparelho de Estado, juntamente com os nobres, Bispos e Arcebispos que se recusavam a pagar impostos. Não é esta, senhores da Acusação, a situação brasileira, ainda não corrigida por este Governo que defendo? A burocracia esgota o Tesouro, os Bispos e Arcebispos de hoje, os capitalistas e latifundiários, não pagam impostos. Ninguém deseja que se acabem os privilégios dessas categorias sociais. Não são classes, nem estamentos. Nós, na França, pelo menos, tínhamos idéias em comum. No Brasil, a única idéia comum que os dominantes têm é sonegar impostos e colocar dinheiro no Exterior…

 

     MAQUIAVEL — Espero que o nobre Bispo não tenha sido possuído pelo espírito do cavalheiro José Dirceu, que a cada instante parecia mudar de pessoa. Ora era um ilustre desconhecido, até de sua mulher, ora é um revolucionário, ora é primeiro-ministro, ora é uma sombra…

 

     TALLEYRAND — Ironia desnecessária, Messer Nicolau. Todos conhecem vossas idéias de como gerir o Poder, que não são, graças ao Todo Poderoso, as de José Dirceu. Estas que exponho são do senso comum das pessoas. A concentração de renda aumenta no Brasil — não é isto um privilégio? A fome é uma realidade, enquanto no lixo dos ricos se vê como se esbanja tudo, de comida a perfume francês. É contra isso que o Governo Lula luta. Contra os funcionários que estão fazendo o Estado tornar-se inviável, propôs a reforma da Previdência. A esquerda, felizmente expulsa do Partido, votou contra, defendendo privilégios. Estais, vós da Defesa, aliados ao que há de mais inimigo do Estado! Espanta-me que Maquiavel aí esteja sentado. Deveria estar aqui, conosco, lutando esta luta inglória contra uma Imprensa que só quer saber de criar escândalos para vender jornais e conseguir anúncios para a televisão…

 

     INÁCIO {irritadíssimo}—Isto é pura demagogia. Falais em televisão contra o Governo quando o BNDES pode emprestar dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador para que os canais abertos e fechados, alguns, paguem dívidas e os seus proprietários continuem vivendo bem?

 

     TALLEYRAND — Não vos irriteis, digníssimo sacerdote. Nada entendeis de negócios ou de Governo. Sabeis apenas intrigar. Reafirmo tudo o que disse. Quando se diz qualquer coisa para combater os privilégios, todos gritam: ‘o custo Brasil vai subir! Não haverá mais investimentos!’ Apesar dessa chantagem — este é o termo correto — o Governo prossegue em seu caminho, ajudando a matar a fome dos miseráveis e educando os analfabetos. Se o Governo não pode, diante da barragem cerrada da imprensa escrita e falada e da televisão, atacar mais ferozmente o privilégio, o Partido pode. Chamo vossa atenção, vós da Acusação e do Tribunal, para o projeto de lei complementar que foi apresentado por um deputado do PT do Piauí, criando a Poupança Solidária e estabelecendo que todos os brasileiros deverão viver, durante sete anos…

 

     {ALGUÉM} — Ah! Sete anos de pastor Jacó servia Labão…

 

     PEDRO {irritado} — Quem foi o impertinente?

 

     TALLEYRAND {impávido, erguendo-se na ponta dos pés como se estivesse diante da Convenção revolucionária} — Todos os brasileiros deverão viver, durante sete anos, utilizando, mensalmente, apenas o Limite Máximo de Consumo (LMC). Leio parte do artigo 1º: ‘valor máximo que cada pessoa física residente no País poderá utilizar, mensalmente, para custear sua vida e as de seus dependentes. O LMC fica definido como dez vezes o valor da renda per capita nacional mensal, calculada pelo IBGE em relação ao ano anterior’. E aquilo que for recebido acima do LMC será depositado, mensalmente, a título de empréstimo compulsório em Caderneta de Poupança. Será, vejam senhores da Acusação que nos acusam de nada fazer pelos pobres, a Poupança Fraterna. Combate-se o privilégio. Todos comerão o mesmo…

 

     INÁCIO {horrorizado} — Viva Pol Pot, que tornou todos iguais no Camboja e matou três milhões nos campos do silêncio. Felizmente, o Congresso não deu seguimento a tamanho despautério!

 

     TALLEYRAND {esbravejando}— É isto que eu chamo de defesa do Privilégio. Pedro, por hoje, creio que nada tenho mais a dizer.

 

{Pedro suspende a sessão. Vichinsky sai amparado em Schmitt. Lusbel é o último a sair, depois de dizer três palavras a Maquiavel. No aceso da discussão, ninguém notou que o Parsifal, enquanto Talleyrand terminava de falar, havia sido substituído pela Marcha Fúnebre do Crepúsculo dos Deuses. Cai o pano}

 

 

 

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