Ato VI

    

 

     Cena I

{O cenário é num bar. Luz mortiça. Apenas três ou quatro mesas. A música, quase inaudível, é um bolero tristonho. Numa das mesas, ao fundo, duas mulheres tomam cerveja e conversam em surdina. O garçom é de estatura mediana, tem bigodes e um farto cavanhaque. No balcão, um rapaz de óculos e cabelos desgrenhados. Quando o bolero termina, faz-se o silêncio. Alguém protesta}

 

     UMA VOZ FEMININA — Põe de novo, pô! A noite é uma criança.

 

{Mal a música recomeça, entram três homens: Maquiavel, Santo Inácio de Loyola, Saint-Just que se dirigem a uma das mesas e a ocupam. Maquiavel lança um gracejo a uma das moças. Saint Just o repreende

 

     SAINT JUST —Cuidado! Respeite Inácio!

 

{Maquiavel dá uma gargalhada. Os três se sentam. Maquiavel pede uma garrafa de vinho, Saint Just um conhaque e Inácio, água, para espanto dos outros dois.

Entre um gole e outro, Maquiavel, Santo Inácio de Loyola e Saint-Just conversam}

 

     MAQUIAVEL — Será preciso ajustar nossas intervenções. Tenho a impressão de que Pedro foi orientado para absolver o Governo Lula da Silva, ou, na impossibilidade de fazê-lo, criar tais dificuldades para a Acusação que, num dado momento, nós nos irritaremos e sairemos do Tribunal. Então, tudo será interrompido e a propaganda do Governo poderá dizer que ele foi absolvido.

 

     INÁCIO — Estais certo, Messer Nicoló. Mas não acredito que Pedro saia de sua posição para absolver o Governo ou nos criar dificuldades. Afinal, como vistes, as coisas estão ficando difíceis para o Governo e seus animadores. A CNBB já não morre de amores pelo Presidente, ainda que lhe dedique certa simpatia. Lula da Silva já foi aconselhado a não ir a Santo André no 1¢ª de Maio, pois haveria vaias. Vamos ver que vai acontecer daí para frente.

 

     SAINT JUST — Sim! Mas não podemos deixar passar qualquer oportunidade. Devemos insistir na tese de que ele está aviltando as instituições. Como sabeis, o importante para mim é que as instituições sejam respeitadas. Os cidadãos só poderão ser virtuosos se as instituições forem sólidas e as autoridades tudo fizerem para que sejam sólidas….

 

     INÁCIO — Tendes razão. Devemos insistir nesse aspecto, agora que Richelieu está assessorando Pedro.

 

     SAINT JUST — Obrigado. Vede, porém, que o que de menos sólido existe, hoje, no Brasil, são as instituições. E não apenas por culpa do Governo. Todos colaboram para que o povo descreia delas. A Justiça não é respeitada por ninguém…

 

     MAQUIAVEL {escarnece enquanto beberica} — Nem por ela mesma. Creio que aquele poeta que viveu — ou será que foi inventado? — na Inglaterra e escreveu muitas peças, algumas até em que colocava em má posição o nosso caro amigo Lusbel, diria: ‘Os atrasos da Justiça e os erros dos opressores’, repetindo aquele triste senhor, que se julgava Príncipe da Dinamarca.

 

     SAINT JUST — Deixai de ironias, Messer Secretário. O assunto é sério. Nossa carreira e nosso prestígio estão em jogo. Que pode a Justiça fazer, quando até o Congresso deseja manter os privilégios de vereadores, sem contar os próprios? Insisto na tese: temos que insistir em que o Governo, com seu exemplo, está levando o povo a desacreditar das instituições. Garçom, outro conhaque.

 

     INÁCIO — Bebeis demais, cidadão.

 

     SAINT JUST — Ora, padre. Se porventura estivéssemos num Convento, o Prior seria generoso com a bebida. Não estamos…

 

     INÁCIO — Em minha Companhia, jamais esses abusos! Somos homens do mundo, dedicados à causa de Pedro e da salvação dos infiéis, especialmente dos índios…

 

     MAQUIVEL {irritado}—Deixai de hipocrisias! Estais, agora, pretendendo defender estes índios que matam garimpeiros, depois de deles se servirem para comprar armas e constituírem seus exércitos para enfrentar a Polícia e depois o Exército e proclamarem sua Nação e em seguida seu Estado dentro do Brasil? Haveis, por ventura, renegado vossos votos e voltastes a ser o Cavaleiro da Fortuna, Senhor de Ricaldi?

 

     INÁCIO {manso} — Protestai sem razão. Como vós, creio que a Justiça deve ser feita nestes casos, lamentáveis. Mas minha Companhia continua dedicada a salvar a alma dos infiéis…

 

     MAQUIAVEL — E a conquistar suas riquezas…

 

     SAINT JUST {dá um murro na mesa e exclama} — Deixai vossas velhas rixas! Ou quereis, Messer Nicoló, que todos voltem a vos colocar no Inferno ao lado do Senhor da Mentira? E vós, ilustre sacerdote feito Santo, pretendeis que Pombal converse com o Senhor e ordene a Pedro que, de novo, vos expulse da comunidade da Igreja? Temos de cuidar de condenar o Governo Lula da Silva, não de discutir sobre coisas das quais ninguém mais se lembra…

 

     INÁCIO — Culpa de um ensino medíocre. Garçom, outra água.

 

     O GARÇOM {que se aproxima} — Haveis chamado, excelência?

 

     MAQUIAVEL {em voz baixa, a Saint Just}—Conheceis este cretino? Tem cara de labrego. Não confio neste tipo de gente.

 

     INÁCIO — Sim, outra água. E depressa.

 

{O garçom afasta-se, lentamente, como que a prestar atenção à conversa. Maquiavel diz um impropério e manda que se apresse, e volte com outra garrafa de vinho. Inácio assume ares de quem vai comandar a reunião}

 

     INÁCIO — Muito bem. As instituições estão em frangalho, como se dizia antes do Ato 5. Só que agora não há Exército que exija do Presidente que aja com mais rigor. Mesmo porque, se me permitis, cidadão Saint Just, a defesa das instituições obriga a que façamos a defesa do Governo Lula da Silva…

 

     SAINT JUST — Como? Haveis enlouquecido? A freqüência com que bebeis água vos perturbou o raciocínio? Confesso que nem Hegel, se aparecesse aqui, seria capaz de sustentar semelhante disparate em nome da dialética.

 

     MAQUIAVEL — Acalmai-vos, cidadão. {O garçom volta com a água e o vinho. Depois que ele se afasta, o Florentino retoma a palavra}— Inácio tem razão. Vede o caso dos Sem Terra, que tudo invadem, desafiam Leis, costumes e o Governo.

 

     SAINT JUST — E daí? Este é o ponto fraco do Governo Lula. Ele não impõe autoridade e enseja que as instituições se esfrangalhem ainda mais.

 

     INÁCIO — Meus amigos nesta grande aventura que será narrada mais tarde como maior do que a de Marco Pólo… Haveis conhecido o explorador, Messer Nicoló? Não? Uma pena. Alargou os horizontes do vosso pequeno mundo mediterrâneo…

 

     MAQUIAVEL — E pedis calma, espanhol? Éramos um pequeno mundo, mas alargamos o horizonte de todos, inclusive o vosso!

 

     INÁCIO — Perdoai-me. Quero dizer que a Justiça manda que reconheçamos que, no caso das invasões dos Sem Terra, o Presidente e o Governo têm menos culpa do que todos dizem, inclusive o Presidente do Supremo Tribunal Federal. Quem deve fazer que a lei seja respeitada, e que a ordem pública seja mantida, são os Governadores dos Estados. Só depois que eles não puderem mais enfrentar a desordem é que podem apelar para o Governo federal. E quem apelará? Vede o caso do Rio de Janeiro. Apelam, mas impondo condições, como se as Forças Armadas fossem uma gendarmaria carioca. É preciso que os Governadores façam cumprir a lei. Caso contrário, quando os Sem Teto ganharem força, vão pedir ao Governo federal que faça alguma coisa. Temos que dar a César o que é de César…

 

     MAQUIAVEL — Mas será que eles dão a Deus o que é de Deus? {sorve um longo trago}

 

     INÁCIO — É um problema de consciência do Presidente, Messer Secretário.

 

     MAQUIAVEL — Ou seria de um psicanalista, já que ele se recusa a assumir suas responsabilidades?

 

     INÁCIO — Calai-vos, impertinente italiano.

 

     MAQUIAVEL — Florentino, se quereis ser justo.

 

     SAINT JUST — Bah! Sois intragáveis. Concordo com Inácio. Mas não devemos esquecer que os Ministros do Presidente dizem tantas tolices a respeito dos direitos dos invasores, que só desmoralizam as instituições. Deveriam chamar os Governadores às falas e afirmar claramente que as leis devem ser obedecidas e que, quando chegar o momento, serão baixados atos — como o que cria o Estado de Defesa — para colocar essa gente no lugar. Já que impediram que a Velha Guilhotina continuasse sua tarefa de limpeza dos costumes, que pelo menos as leis dos ditos liberais reponham a ordem. Não foi um de vossos defendidos, Inácio, um Papa, quem disse que onde há ordem há inteligência? Pois vos digo: do jeito que as coisas estão, o que está faltando no Brasil é inteligência. Do Governo e da oposição. Mas, amigos, não nos adiantamos um milímetro em nossa tática. Culpa de todos vós, que trazeis velhas desavenças à discussão. Garçom, fecha a conta, que tenho de dormir.

 

     INÁCIO {que olha pela janela} — A estrela d’alva no céu desponta…

 

     MAQUIAVEL — E a lua anda tonta com tamanho esplendor… A água vos perturbou, Espanhol?

 

     INÁCIO — Calai-vos, Italiano. O Inferno um dia vos receberá…

 

     MAQUIAVEL — Estarei lá, com prazer, em vossa companhia, espanhol.

 

{O garçom interrompe. Apresenta a conta. Inácio, como ecônomo, faz a divisão. Cada um põe o equivalente a um terço dela sobre a mesa}

 

     O GARÇOM — Quereis nota fiscal?

 

{Saint Just faz um gesto negativo}

 

     MAQUIAVEL {provocador}— E as instituições, nobre cidadão?

 

{Retiram-se, enquanto por outra porta entram outros três fregueses. Procuram uma mesa afastada daquela em que a Acusação esteve sentada. Tiram os chapéus. São Vichinsky, Talleyrand e Schmitt.

Apagam-se as luzes}

 

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     Cena II — breve —

{O mesmo bar da cena anterior. Em uma das mesas, os três membros da Defesa. O garçom traz bebidas que não encomendaram. As duas moças dançam o bolero, sensualmente abraçadas. Quando chegam perto da mesa em que estão sentados, uma delas se dirige a Talleyrand, que a acaricia com volúpia}

 

     VICHINSKY {reclama do garçom} — Como sempre, trazes-me vodca russa. Quero sueca. É mais pura.

 

     TALLEYRAND — E este champagne? De onde veio? Nunca serás capaz de chegar à posição de gerente. És um incapaz!

 

     SCHMITT — A cerveja está tragável. Não nos queixemos do pobre garçom. Não tem inteligência para nos servir como merecemos. Garçom! Onde está a encomenda?

 

{O garçom substitui as bebidas de Vichinsky e de Talleyrand e entrega a Schmitt uma pequena caixa}

 

     SCHMITT {sorrindo} — A ABIN até que serve para alguma coisa. Não é capaz de dizer ao Presidente quando vão invadir terras e praticar outras ilegalidades, mas faz um bom serviço de escuta.

 

     VICHINSKY — Calai-vos. A madrugada vai alta e temos que saber o que a Acusação andou conversando para podermos ajustar nossas posições. Vamos escutar logo a gravação.

 

     TALLEYRAND — Agora, não. Cada um leve sua cópia e nos encontraremos amanhã no local de sempre. Preciso descansar.

 

{Há uma gargalhada geral. Pagam a conta. Talleyrand fica, chamando a moça para a mesa. Os outros dois se retiram. Apagam-se as luzes. Cai o pano}

 

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     Cena III

{O bar de um hotel de luxo. Acarpetado. Poltronas em couro vermelho. Pesadas cortinas em veludo com franjas e borlas douradas. Luminárias em cristal. O balcão tem atrás uma prateleira em espelho repleta de garrafas importadas. Funcionários vestidos a rigor. As mulheres, refinadas, algumas delas ostentando certo luxo. Em várias mesas, os fregueses, todos executivos, têm companhia feminina. A conversa é um sussurro. Os três representantes da Defesa de Lula da Silva adentram e são recebidos com deferência pelo maître, que se assemelha impressionantemente, apesar do rosto escanhoado, ao garçom da primeira cena. Ele os leva a uma mesa separada das demais}

 

     TALLEYRAND {bocejando} — E então, Herr Schmitt. Há alguma coisa que preste nessa gravação?

 

{Fumando um charuto, o alemão lança uma baforada na direção de Talleyrand e retruca}

 

     SCHMITT — Pelo menos, a Acusação não se perde em milongar pela madrugada. Talvez em virtude da presença de Inácio. O nobre Bispo deveria recordar os votos que prestou quando jovem….

 

     TALLEYRAND — Esquecei-vos, mein Herr, de que aboli os privilégios. Um deles, era a castidade que me levaria aos Céus e, aos Infernos, quem não a observasse. Preferi a Razão do cidadão Robespierre.

 

     SCHMITT — Bah! Aristocratas e sacerdotes são todos iguais. Pena o finado Führer não os ter liquidado todos. Vamos trabalhar.

 

     TALLEYRAND — Mas foi o que propus, mein Herr. Que ouvistes na gravação?

 

     SCHMITT — Pouca coisa. Passaram a maior parte do tempo brigando como adolescentes. Teremos, se assim continuarem, grandes possibilidades de ganhar a causa. Imaginai, nobre Bispo, que suspeitam de Pedro, julgando que está a nos proteger…

 

{Vichinsky toma um grande trago}

 

     TALLEYRAND — Admira-me que possais beber tanto de uma só vez, sem engasgar.

 

     VICHINSKY {olhando-o com desprezo} — Estais a beber coisas de mulher. Nós, na Pátria do Socialismo, éramos mais viris.

 

     TALLEYRAND — Oh! Pretendeis me insultar? Envio-vos meus padrinhos ao anoitecer!

 

     SCHMITT {em voz alta}—Basta de estupidez! {As outras mesas observam} Estamos aqui para trabalhar. Exijo ordem, ou me retiro da Defesa.

 

     VICHINSKY — Que a gravação fale por si, que eu a escuto. {O maître se aproxima, curioso. Schmitt manda-o embora com um gesto. Ele se afasta, mas se esconde atrás de uma cortina perto da mesa}— Bem. Ouvindo atentamente a gravação, Herr Schmitt terá razão: eles se enfrentaram durante quase todo o tempo. Mas forneceram à Defesa um ótimo argumento. Inácio lembrou que o Governo Lula da Silva não é responsável pelas invasões do MST. Um tento a nosso favor e contra esses Governadores do PSDB que querem cobrar coisas de nosso cliente. No mais, nada disseram de interessante. Exceto esse imbecil do Saint Just, que insiste na tese da pureza das instituições. O Camarada Stalin, vivo e reinante fosse, ensinar-lhe-ia o que valem as instituições, que se confundia com sua legalidade socialista.

 

     TALLEYRAND {que molha os lábios com a língua} — Não insulteis o pobre Anjo do Terror. Foi um homem de bem, e fez lindos discursos. Pena que não se adaptasse aos novos tempos e não tivesse percebido que Paris — ah! Que saudade de tout Paris! — não suportava mais ver aquelas mulheres tricotando enquanto a lâmina da Velha cortava cabeças, inclusive a dele, coitado.

 

     VICHINSKY {dando mostras de que começa a irritar-se} — Estais pensando no que aconteceu à noite. Basta de lembranças menos dignas que não ficam bem a um defensor do Governo de Lula da Silva que não está preocupado com mulheres, nem seu Governo com os velhos. Ouvistes, por acaso, dizer alguma coisa a este respeito?

 

     TALLEYRAND — Em verdade vos digo, ouvir não ouvi. Mas, que se murmura se murmura. Por isso temo Saint Just. Se ele tiver uma ponta de suspeita, levantará um novelo de acusações que nos será difícil desmentir.

 

     SCHMITT — Não tenho medo de assuntos de comadres. Afinal, os brasileiros gostam de saber que seus Presidentes têm casos amorosos. Não foi assim com Juscelino, não era assim com Jânio? E não descobriram até um caso de Vargas? E não é José Alencar, tantas vezes, a cada passeio do Presidente pelo mundo, o Presidente interino? O que me preocupa é outra coisa. É a morte do Prefeito de Santo André.

 

     VICHINSKY {toma outro gole, grande, e tosse} — Tenho experiência dessas coisas. O caso pode tornar-se sério, mas, se ficar restrito a Santo André, não haverá perigo. O inquérito policial concluiu, sabiamente, que foi um crime comum. Será difícil provarem o contrário. Se, porém, aparecer outro caso, ou se recordarem os casos já denunciados pela Imprensa, então será difícil a nossa posição.

 

     SCHMITT — Nossa linha de defesa será sempre a de negar, negar, negar. Nesse tipo de assunto, não há provas capazes de convencer júri algum. Muito menos Pedro, cuja sabedoria e ciência dos fatos são enormes. Honestamente, não imagino como a Acusação nos possa encantoar. Tanto mais que os Acusadores não se entendem entre si. De que poderão acusar, então, o Governo? De apreciar a inércia? Este não será caso para os Tribunais.

 

{Vichinsky pede outra bebida. E enquanto o maître o serve, lança olhares para cada um dos demais e começa a falar. Schmitt corta-lhe a palavra com um gesto brusco. O maître se retira. O Defensor Público explica sua atitude}

 

     SCHMITT — Não gosto da cara desse homem. Parece-me que já o vi noutro lugar.

 

     TALLEYRAND — Calma. Nada temos a esconder. Depois, o porta-voz dará um desmentido e todos concordarão com que é melhor esquecer…

 

     VICHINSKY — Não tenho a confiança de Herr Schmitt. Como procurador da União Soviética, pude montar lindas peças de acusação sem prova alguma, exceto a confissão dos réus, que todos sabiam arrancadas pelos camaradas da Tcheka ou que nome tenha vindo a ter. Sei que não podem torturar o Presidente e seus assessores — mesmo porque as ONGs não deixariam passar em branco tal ousadia contra quem as serve de coração aberto — mas, ainda assim, é possível montar uma boa peça de acusação a partir dos dados que Saint Just vier a acumular. A crise das instituições é séria, não esqueçamos, e se juntarmos a ela a da economia, estaremos mal servidos. Será preciso encontrar uma maneira de desmoralizar a Acusação.

 

     TALLEYRAND {quase sufocando numa gargalhada} — Ora, camarada! É só aproximarmos Maquiavel do antigo Presidente. Está certo, ele é considerado na Academia como “o príncipe dos sociólogos”, mas, afinal, foi aposentado ensinando Política, e deve ter comentado o “Príncipe” com seus alunos. Não será preciso entrar nesses pormenores no Tribunal, mas apenas fazer a pergunta clássica: Cui bono? É evidente que esse julgamento só interessa à oposição, não ao País. Basta bater nesta tecla, mostrar o que o antigo Governo fez de errado e deixou de fazer de certo e a Acusação terá pouco a dizer contra nós. As provas que puder reunir, mesmo quando se tratar de falências das instituições, não se dirigirão apenas a nós — vão atingir todas as elites do País. Está bem, concordo com todos vós em que Saint Just não hesitará em fazer de novo o Terror para ressuscitar a tese da pureza das instituições e das virtudes republicanas. Mas Inácio e Maquiavel são homens lúcidos, preocupados com a Ordem. Não aceitarão uma provocação desse tipo. É preciso ter calma. Foi assim que vencemos a triste combinação de Robespierre e Saint Just e os mandamos para a guilhotina. Mandaremos todos os da Acusação e os da Oposição para serem comidos pelos Cintas-Largas. {Gargalha longamente}

 

{uma mulher se aproxima da mesa. O alemão se levanta, dizendo em voz alta}

 

     SCHMITT —Wunderschöne! Eine Walkiria! Bitte!{e puxa uma cadeira}

 

     VICHINSKY — Em nome da virtude revolucionária…

 

     TALLEYRAND — Quieto! Vamos embora e deixemos nosso ilustre Professor divertir-se com as coisas do mundo. Não falará de teologia política nem de Constituição. Mas, seguramente, tentará provar a esta senhora que, na vida, mesmo sentimental, há amigos e inimigos. Maître, a conta!

 

{ostensivamente, tira a carteira e paga tudo. Vão-se, enquanto Schmitt beija as mãos da mulher. Apagam-se as luzes. Cai o pano}

 

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     Cena IV

{O mesmo bar da Cena I. Deserto. Apenas o rapaz do balcão e o garçom. Entra Saint Just, apressado. Dirige-se ao garçom}

 

     SAINT JUST—Deixei aqui um livro meu. É precioso. Viste-o por acaso?

 

     O GARÇOM — Cidadão Saint Just…

 

     SAINT JUST — Me conheces? {o garçom tira a barba e o bigode postiços. Saint Just recua com horror}— Como? Sois vós? Depois de trair Robespierre e a mim, a quem servis, agora, Fouché? Napoleão já não é mais, nem Josefina está viva para dar-vos informações.

 

     FOUCHÉ, o Garçom — Cidadão Saint Just, com toda a humildade, digo-vos: quem traiu duas vezes, trairá sempre. Neste momento, estou a serviço da Causa do Mundo. Aqui tendes vosso livro. E uma informação: a Defesa tem todas as vossas conversas. A ABIN gravou tudo…

 

     SAINT JUST — Maldição!

 

     FOUCHÉ — Mas tenho algo para vós. Aqui está a conversa dos três no hotel — não vos digo o nome porque trabalho lá como maître {estende-lhe a mão com uma pequena caixa}—e digo-vos com sinceridade: Talleyrand prefere as moças daqui, mas Schmitt é mais refinado.

 

     SAINT JUST — Basta de intrigas. Grato pelo livro e pela informação. Servistes a Robespierre como terrorista e a Napoleão como Chefe de Polícia — de qualquer forma, não mereceis fé! {retira-se às pressas}

 

     FOUCHÉ {apagando as luzes} — Seria impossível seguir este jovem nesta cidade em que não há calçadas ou esquinas. {vai embora com o rapaz que o esperava no balcão do bar}

 

{Apagam-se todas as luzes. Cai o pano}

 

 

 

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