ATO VII {13/6/2004}

 

     Cena I

{Várias mesas com aparelhos telefônicos e algumas máquinas de escrever e de fax estão dispostas em cena. Mapas e o retrato do Presidente na parede sugerem que é uma sala no Palácio do Planalto. Um ventilador oscilante faz que os papéis pareçam querer levantar vôo. Apenas uma pessoa se encontra, sentada a uma mesa, em mangas de camisa, trabalhando sobre alguns documentos. Somente a mesa em que está o personagem chamemos de Amanuense tem um computador. A música de fundo é de Beethoven: A vitória de Wellington em Waterloo. Poucos minutos depois de levantar-se o pano, entra um militar fardado e é preciso que o contra-regras não o faça vestir um uniforme qualquer ele é do Exército e veste uniforme do Exército. No ombro, três estrelas gemadas. É um Coronel. Meio escondido entre as mesas, observando e rindo à socapa de quando em quando, Lusbel}

 

     CORONEL {irônico} — Que é isto? Fazendo serão? Não sabe que o Mantega já proibiu as horas extras para poder alcançar o tal de superávit primário?

 

     AMANUENSE {que continua examinando os papéis e responde com evidente mau humor} — Estou me lixando para este Mantega, que alguém deveria mandar botar chapeuzinho no nome. Ou, então, tirar aquela cara sempre sorridente, de quem acha que tudo vai bem. {Muda de tom e investe} E você, já garantiu seus 10% de aumento, ou o Jobim está mandando de fato nas Forças?

 

     CORONEL {irritado}—Cale-se, que as paredes têm ouvidos! A única coisa que posso dizer é que o meu Comandante não gosta da situação e só não se demite para não criar uma crise militar. Seus companheiros do Alto Comando, pelo que sei, estão uma fera com o Jobim. Os ‘mariscos’ até que entraram na conversa do submarino atômico e da segunda esquadra. Já os ‘voadores’, estes estão uma vara. Ninguém sabe quando saem os aviões, franceses, americanos, suecos, o diabo! Mas, que é que se vai fazer? É preciso manter a disciplina. {Lusbel, para que o público o veja, sorri, quase gargalha de satisfação. O Amanuense fecha o computador}— Salvou, como fez o Jesus Cristo da anedota?

 

     AMANUENSE — Salvei, filho do Cão! {Satanás, no fundo, franze o sobrolho em desagrado}—Salvei, pois, afinal, temos de reconhecer que só Deus é fiel, como os tontos andam espalhando nos automóveis com que vão aos motéis. O Diabo é que deve estar satisfeito com essa dupla violação constante do Segundo Mandamento… {uma pausa} Mas me diga uma coisa, vocês lá da Casa Militar…

 

     CORONEL — Seja um bom menino e se adapte aos novos tempos. Ou então você não sabe que não há mais Casa Militar? Que agora um Gabinete cuida dos problemas institucionais? Temos o Conselho de Defesa Nacional e o Conselho da República e parece que nenhum deles cuida das instituições. Foi preciso um Gabinete. Imagine, um Gabinete — até parece que estamos na Inglaterra — para cuidar delas, pobrezinhas.

 

     AMANUENSE — Era preciso, mesmo. Afinal, que fazem esses Conselhos que deixam os índios tomarem conta do território, amparados pelas ONGs e pelos movimentos internacionais contra a Amazônia?

 

     CORONEL {que põe um dos pés sobre a mesa e puxa um cigarro}— Desculpe, não se pode fumar, mas ninguém é de ferro. Os Conselhos não se reúnem para que a tal da Sociedade Civil e o Congresso {salve Sarney!} não tenham a impressão de que há crise. Se ela existe, ou não, é problema que o Gabinete não sabe e não quer saber. Só vai se pronunciar quando houve uma crise braba.

 

     AMANUENSE {em tom divertido} — Diga lá, colega — com perdão da liberdade, mas estamos numa democracia e vocês, milicos, não mandam coisa alguma – e a ABIN? Que faz? Soube, outro dia, que o Chefe, o Grande, o Barbudo — vocês já o crismaram como “Barbudo, o tocador do berro”, depois da última festa do arraial? — estava uma vara porque a ABIN não o informou do julgamento. Que julgamento é este, afinal? Não deu nos jornais, nem o Jornal Nacional falou nisso. Aconteceu?

 

     CORONEL — Fale baixo, estúpido! {levanta-se, começa a andar pela sala, a olhar pela porta e pelas janelas, bater nas paredes para ver se soam falso}— Este é o grande segredo de Estado. Se o PSDB souber e o Fernando Henrique disser que acredita em Deus para ser informado do que acontece, será uma desgraça nacional…

 

     AMANUENSE — Você quer dizer para o PT…

 

     CORONEL — Que seja! Mas desgraça, com tanta gente perdendo o emprego, e a ABIN, coitada dela, pode até mudar de nome, outra vez, e voltar a ser comandada por milico que entenda do assunto.

 

{Satanás gargalha, mas, para todos os efeitos, é invisível. O Amanuense e o Coronel dão um pulo, olham para todos os cantos. O Coronel, que é mais desinibido, faz o sinal da Cruz}

 

     CORONEL — Cruz credo! Agora um cheiro de enxofre! Quem você escondeu na sala, seu idiota? Foi você que deu essa gargalhada?

 

     AMANUENSE {parece meio amedrontado} — Eu? Eu não. E ninguém está aqui além de nós.

 

     CORONEL {senta-se, puxa um lenço e enxuga o rosto}— Ou são coisas do Demo… {ouve-se uma nova gargalhada} — … ou da ABIN. E que raio de música é esta que não pára? Esta paródia do hino inglês é para encher o saco da gente.

 

{O Amanuense abre uma gaveta e tira uma garrafa de pinga}

 

     AMANUENSE — Olha que é da boa. De Minas Gerais. Comprei num empório aqui em Brasília por 100 paus a garrafa…

 

     CORONEL — Nós sempre dissemos, lá no Exército, que vocês, civis, ganham um absurdo e nós é que pagamos o pato. Um gole para ver se é da boa, mesmo sem dar ao santo.

 

{Bebem, como conhecedores do que bebem. Trocam sinais de que a cachaça é das melhores. Depois, sentado, o Amanuense volta à carga}

 

     AMANUENSE — Mas, e esta história do julgamento? Como é?

 

     CORONEL — Você está bem da cabeça? Então ouça. {em tom didático, começa a falar em voz baixa. Lusbel se adianta para nada perder} —Pois é. A ABIN soube de que havia alguma coisa, quando uma gata lá do hotel X — não dou nome para não entregar minha fonte — veio dizer a um idiota, civil, do Gabinete, que uns tipos estranhos tinham ido uma noite lá, beberam, falaram coisas e ela disse que saiu com um tal de Schmitt. O tipo parece que tinha sido professor de Direito, não se sabe quando nem onde, mas tinha uma boa conversa. Tanto falaram — e creio que tanto fizeram, ou melhor, ela fez — que o gajo acabou dizendo que estava participando de uma Defesa num Tribunal esquisito, presidido por um sujeito estranho que todo mundo ali chamava de Pedro e que não gostava de muita conversa, e que esse Tribunal julgava o Governo do Lula. Pelo que o tal de Schmitt falou, o Pedro parecia um Santo e era venerado por todos os que estavam lá…

 

     LUCIFER — Menos eu! {a voz de Lusbel soou na sala como um vento forte, estremecendo os dois}

 

     OS DOIS — Quem diabos está nos escutando?

 

{Silêncio. Levantam-se num impulso, os dois ao mesmo tempo, põem-se a procurar o dono da voz por todos os cantos, até nas gavetas, debaixo dos tapetes e atrás das cortinas, passam as unhas nas paredes descascando a tinta, deixam a sala toda revirada, de cabeça para baixo em sentido figurado, é óbvio tomam mais um gole da mineira e o Coronel continua}

 

     CORONEL — O idiota do funcionário do Gabinete não entendeu coisa alguma, tanto mais que a gata falou que, na Acusação, havia um outro Santo, um tal de Inácio, e um italiano de nariz adunco, que todo mundo respeitava como se fosse alguém muito conhecedor de tudo aquilo. De que havia um Bispo na Defesa. Mas, aí, ele correu para o Chefe do Gabinete e contou tudo. O General chamou o pessoal da ABIN. Muito a contragosto, eles disseram que tinham gravado as conversas da Acusação, imagine! E estavam agora à procura de um tal de francês e do Santo. Imagine o que descobriram? Que todos são mortos! E que o Santo é aquele que fundou a Companhia de Jesus, o italiano é um tal de Maquiavel de quem me falaram na Escola de Comando — eu até já tinha me esquecido de que me disseram, na AMAN, que ele era importante — e que o tal do alemão era nazista.

 

{O Amanuense bebeu mais um gole, agora da garrafa, e fechou-a}

 

     AMANUENSE — Pô! Não entendo coisa alguma. Mas vou até uma quadra ali embaixo — vou sozinho e não lhe digo onde é para você não me gozar depois, com evidências na mão — ver se Madame me diz o que é isto. Parece coisa do demo…

 

{Outra risada se ouve}

 

     CORONEL — Vamos embora. Sobretudo, não se esqueça de dizer à sua Madame — que espero seja apenas uma vidente, nada mais — que o tal Santo Presidente parece ser São Pedro, ah, ah!

 

{Saem. Ouvem-se os últimos acordes. Lusbel saltita de satisfação. Sai da sala deixando seu cheiro de enxofre no ar. Entram os faxineiros, que recuam diante do mau odor}

    

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     Cena II {5/8/2006}

{A cena passa-se no mesmo gabinete do Planalto. O Amanuense e o Coronel estão conversando, luzes mortiças, portas fechadas. O Coronel faz um rastreamento nas paredes e no lustre, à procura de um microfone que possa estar escondido. E se dirige ao Amanuense com certa desenvoltura, sem disfarçar um tom de desprezo}

 

     CORONEL — Então, voltamos a nos encontrar depois de tanto tempo! Por onde você tem andado? Não responda! Que é que disse sua amiga e conselheira, a quem você ia consultar da última vez em que nos encontramos? Sem mentirinhas, tá bom? Nada de ‘mensalão’, de ‘sanguessugas’ e dessas coisas em que o Congresso está envolvido e, dizem as más línguas, tem ou teve gente do Planalto também metida. Em tudo. Antes e agora. Vamos logo, deixe de lado esta cara de medo. Afinal, o expediente já acabou e o Chefe já se recolheu. E dona Dilma, você sabe, trabalha de portas fechadas. Desembuche, rapaz. Quero saber é desta estória do julgamento.

 

     AMANUENSE{olhando em volta como se temesse fantasmas}—Você está certo de que a varredura foi para valer? Não se esqueça de que o General recebeu ordens do Lula para comprar novos equipamentos em Israel. Ele não confia mais nos americanos…

 

     CORONEL {irônico} — Gozado… Como ele mudou, não? Primeiro fez o povo sofrer como boi que espera a morte, seguiu direitinho o que o Fundo aconselhou… e ainda fazia questão de dizer que tudo era culpa do Fernando Henrique. Depois, não sei por que razão, decidiu pagar adiantado o que o Brasil devia ao Fundo; e agora vem com essa de comprar de Israel e não dos americanos. Não entendo mais nada. E os árabes, como vão ficar?

 

     AMANUENSE —Não entendo de política externa. {Olha para a parede e solta um palavrão} Este diabo de cartaz ‘É proibido fumar’! Minha tia deu-me muitos conselhos…

 

     CORONEL {gozador}—Agora é tua tia? Tia conselheira? Quantos anos tem? E me dê um desses seus cigarros.

 

     AMANUENSE {levanta-se, vai até a porta, abre-a de supetão, certifica-se de que ninguém escuta e volta para a mesa. Dá uma tragada, dá um cigarro ao Coronel, abre uma gaveta, tira uma garrafa e oferece-lhe um drinque que é aceito com prazer. E começa a falar} — Quem você gostaria que fosse? Queria que eu fizesse perguntas às paredes e fosse demitido no dia seguinte? Foi minha tia, sim. Tem 30 anos, é bonita e conhece a vida de muita gente. Somos muito amigos. E daí?

 

     CORONEL — Não leve a mal, é que estou solteiro em Brasília há muitas semanas. O dinheiro não deu para trazer a família lá do Amazonas. E isto apesar dos 10% que deram como esmola para acalmar a turma.

 

     AMANUENSE {levanta-se, fumando, dá uma volta na sala, apaga uma luz e o ambiente fica mais escuro, mas ainda se vêem as silhuetas} — Se eu não acreditasse nessas coisas antes de vê-la, palavra que teria de me penitenciar e proclamar que titia previu tudo o que estava acontecendo…

 

     CORONEL {tira uma baforada do cigarro e pergunta, com ar incrédulo}—Ela falou do Dirceu e do Valério?

 

     AMANUENSE — Gozado digo eu agora! Você não pediu para a gente não tratar desses assuntos velhos? Ela falou, sim. E disse tudo o que iria acontecer. Meses antes. Ela falou do julgamento, sim! {como se quisesse saber alguma coisa, pergunta}— A turma da Agência não descobriu nada? Que lerdos. Se titia sabia, como o General nada soube? Bons eram os tempos do SNI. Garanto que teriam alguém assistindo ao julgamento, ou colocariam um jurado ou mesmo um Juiz ao lado de São Pedro…

 

     CORONEL {esnobando}— Deixe de contar lorotas. Você sabe muito bem que esse julgamento não tem jurados, e que não é possível colocar um Juiz nosso lá dentro. Os que lá poderíamos colocar para ajudar o Governo são por demais conhecidos por sua simpatia ao Lula. Imagine Thomaz Bastos ou Tarso Genro naquele Tribunal! Ou mesmo imagine Nelson Jobim! Qualquer um deles enrolaria São Pedro e, se duvidar, a Defesa e a Acusação, que valem mais que o Santo…

 

     AMANUENSE — Não blasfeme contra o Santo. Mas eles seriam capazes de enganar Satanás?

 

     CORONEL {rindo} — Naquela confraria, ninguém engana os amigos. E lá, você concordará comigo, são fantasmas todos os que estão julgando o Governo…

 

     AMANUENSE {rindo}— Que parece um fantasma…

 

     CORONEL {olha o relógio e dá mostras de irritação}—Deixe de besteira. Quero saber como vai terminar essa coisa toda. Está bem, são fantasmas julgando um fantasma. Só que o fantasma Lula da Silva ainda manda e quero ver se você não vai bater palmas para ele, quando vier anunciar qualquer coisa aqui no Planalto. Desembuche de uma vez. Que foi o que sua tia falou, pô!? {dá uma risada cínica} A tia é bonita? Fale depressa que o pessoal da limpeza vai chegar daqui a pouco.

 

     AMANUENSE — A limpeza está em greve. Mas vamos lá. Ela disse que a situação do Governo não era boa, que os promotores são muito espertos e que um dos advogados de Defesa, um tal francês que serviu deus e o mundo, ficou muito mal perante o Juiz porque é mulherengo.

 

     CORONEL {impaciente} — Bah! Isso a Agência sabe. Que mais? E do fim?

 

{O Amanuense acende uma das luzes. Senta-se à mesa, tira outro cigarro, acende, solta uma baforada e, como se fosse dono de uma grande verdade, depois de arrotar, diz}

 

     AMANUENSE — Que nada se sabe por enquanto. A Defesa está atazanando o pobre do Santo.

 

     CORONEL {não esconde seu desprezo} — Grande previsão. Lá, na Agência, já se sabia. O que interessa é saber o que vem depois. Quando vai terminar o julgamento do Presidente? A titia nada disse ou ela está na folha de pagamento de alguém, que não sabemos ainda quem é. Talvez na daquela senhora que é promotora de programas? Sabe? O chefe tem a ficha dela. Enorme. Toda Brasília parece que lhe deve favores. Não os devem a sua titia, devem?

 

     AMANUENSE {bravo}—Por Deus! Deveria dizer o que ela previu. Mas não digo. Você vai ter de esperar acabar o julgamento, e se acabar mal, não diga, depois, que não avisei!

 

{Ouve-se um barulho. Os dois apagam os cigarros, fecham as luzes dizendo um palavrão contra os funcionários da limpeza que furam a greve, e vão-se embora. Um dos fura-greve entra na sala, apanha uma coisa qualquer em cima da mesa do Amanuense e se retira. Apagam-se as luzes. Desce a cortina}

 

 

 

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