ATO VIII

 

    

     Cena I

{A ação desenrola-se na sala do Tribunal. A cátedra do Santo Pedro está, desta vez, mais elevada que o restante das tribunas da Defesa e da Acusação. Ouvem-se alguns sons suaves, da Primavera das Quatro Estações de Vivaldi. Lentamente, um após o outro, a ordem de entrada não importa, adentram a cena Satanás e o Arcanjo Miguel. Suas vestes são fulgurantes: Lusbel de negro como convém ou de vermelho, conforme dê na telha do diretor e o Arcanjo de um branco ofuscante. Apoiam-se como amigos à tribuna debaixo do trono de Pedro e começam a conversar no tom de velhos e bons companheiros}

 

     ARCANJO — Não te via há tempos, Lusbel. Que andaste fazendo desde que Javé te permitiu tentar seduzir Jó? Nada conseguiste, verdade?

 

     LUSBEL — Verdade, irmão. Enganei-me com aquele servo de Javé. Mas não me decepcionei, acreditas? Descobri que a humanidade está sedenta de prazer e, sobretudo, de poder. Mais ainda de dinheiro. Afinal, que estamos fazendo aqui? Nada mais nada menos que assistindo a um espetáculo em que o Poder, o Prazer e o Dinheiro estão tão presentes que não sei como o Santo consegue suportar estas cenas brutais de depravação que a Acusação mostra.

 

     ARCANJO — Lusbel, Lusbel… Continuas merecendo o castigo que o Senhor te deu. Teu orgulho leva-te a descrer da essência humana. Há homens a quem o Poder não seduz. Por ventura te esqueces de quantos Santos preferiram a morte a capitular ao Poder, como Joana do Arco e Thomas More, ou fizeram do Poder um meio de buscar salvar os pecadores, como Luís XI de França, ou buscaram nos conventos e na contemplação de Deus a salvação e a glória?

 

     LUSBEL — Bem sei. O problema, meu caro, é que Cristo se sacrificou para redimir toda a humanidade da desobediência de Adão e Eva e não viu que o Homem que Javé havia criado era pior do que imaginava e que Seu sacrifício fora em vão. Olha, Miguel, o que se está passando aqui. É a prova de que os homens não são dignos de Jó, para não falar de Deus. Se fossem dignos de Jó, pelo menos, não estaríamos aqui, neste Tribunal.

 

     ARCANJO — Bem sei, e creio que tens razão em parte. Mas hás de reconhecer que meteste tua mão para complicar as coisas…

 

     LUSBEL — Eu? Quando? Sou um assistente passivo deste julgamento. Pedro está aí para provar.

 

     ARCANJO — Ora, ora! Então não sei que foste tu que inventaste aquela estória de que um tal de Eme de Assis tinha deixado um texto inédito, simulando o final do julgamento, em que a Acusação acusava o Governo disto e daquilo?

 

     LUSBEL — Ah! Então foste tu que atrapalhaste tudo e a consulta com o Dr. Segismundo acabou daquela maneira. Não devias ter interrompido a Defesa do Governo Lula. Trabalhastes para a Acusação, o que não condiz com tua essência. Mas olha! Do jeito como armaste as coisas, ficou parecendo para mim que o Mundo da Luz queria a condenação do Governo e o Mundo das Trevas — perdão da oposição energética… — sua absolvição. Afinal, quem leu aquele manuscrito só ficou conhecendo as coisas que a Acusação disse. Arcanjo, meu amigo, desta vez, tua intervenção veio em favor do Governo e deixaste a impressão de que apenas a Acusação tinha falado. Erraste, confessa!

 

     ARCANJO — Pode ser. Mas, caluda! Pedro está entrando.

 

{Entra São Pedro e ocupa seu lugar no trono. A música agora é outra. Ao final da Primavera, ouve-se o Réquiem de Brahms}

 

     LUSBEL — Miguel, que canto é este? Quem morreu aqui?

 

     ARCANJO — Caluda, já te disse. Pedro deve ter apertado o botão errado. Mas já está providenciando a mudança para que não pensem que os Céus estão contra o Governo.

 

{A mÚsica pára de repente e entra outra: o canto dos peregrinos do Tannhäuser, voltando de Roma. Lusbel ensaia uma gargalhada, que Miguel corta, tampando-lhe a boca. Pedro faz um gesto ao meirinho, que anuncia a entrada da Acusação e da Defesa. Chegam, primeiro, Maquiavel, Santo Inácio, Saint Just e Richelieu. Em seguida, precedidos por um pequeno número de alegres foliões, os da Defesa: Vichinsky, Talleyrand, Carl Schmitt. Sentam-se e Talleyrand pede a palavra}

 

     TALLEYRAND — Uma questão de ordem, Santo Pedro! Para que não se arguam erros processuais, solicito que a Defesa tenha o direito de ter o mesmo número de membros que a Acusação. Falta-nos um.

 

     PEDRO — Convoque-se Sire Jean Bodin para incorporar-se à Defesa! Mas lembro ao Bispo Talleyrand que o Cardeal Richelieu aí está para aconselhar e também dar sua opinião que tanto pode favorecer a Defesa quanto a Acusação. No Tribunal do Senhor todos são iguais até que o julgamento defina quem é culpado e quem é inocente — e digo isto para os respeitáveis membros da Defesa e da Acusação. O Senhor não esquece os crimes que haveis cometido. Lembro, inda, á Defesa e à Acusação, que este processo já dura meses e não conseguimos chegar a uma conclusão. As eleições se aproximam e é necessário que o Senhor comunique ao povo qual é Seu juízo. Pediria, pois, aos nobres causídicos da Defesa e da Acusação que fossem breves em suas intervenções. Não pretendo com estas palavras cercear direitos de qualquer um, mas apenas penso que devemos dar ao Senhor contas de nosso trabalho. Ele, em Sua misericórdia, aguarda pacientemente vossas conclusões. Mas me permito lembrar-vos que há momentos em que Ele é capaz de empunhar a vara e dar, a todos nós, Suas lições. O Tempo do Senhor não se mede pelos calendários dos homens, mas Sua paciência, às vezes, tem limites, como Seu Filho Dileto mostrou ao castigar os vendilhões do templo…

 

     TAYLLERAND: O Santo não pretende, para que apressemos nossas considerações, comparar-nos aos vendilhões…

 

     PEDRO: O nobre Bispo, como sempre, usa de sua dialética para deturpar as palavras. Que a sessão tenha prosseguimento. Tem a palavra Monsieur Saint Just.

 

     MAQUIAVEL — Uma questão de ordem. Richelieu não está na condição de Acusador. A incorporação de Sire Bodin à Defesa desequilibra o procedimento. Peço reconsideração.

 

     PEDRO—O nobre Secretário Florentino tem razão e por este engano peço-vos desculpa. Chamarei padre Vieira para fazer-vos companhia como Acusador. Convoque-se o padre Antônio Vieira.

 

{Silêncio de alguns minutos, enquanto se buscam Bodin e Vieira. Finalmente, eles entram, Bodin sobrepesando seus “Seis Livros da República”. Junta-se aos Defensores. Vieira adentra a cena em passos lentos, trazendo um livro com seus discursos. Junta-se à Acusação. A música chega ao fim. Nenhuma outra a sucede. O Anjo do Terror ergue-se lentamente, olha para Santo Inácio e dirige-se, então, para Pedro, mas em voz alta para que a Defesa não alegue ignorância}

 

     SAINT JUST — Ao cidadão Pedro, solicito autorização para que, em meu lugar, fale o cidadão Ínigo de Ricalde. Chamo-o assim, pois a Grande Revolução aboliu toda estória de santos pra cá e santos pra lá. Se não invoquei, antes, o privilégio de tratar meu ilustre cidadão colega da Defesa por seu nome de registro civil foi não sei por que razão, ou porque me deixei levar por memórias dos tempos do Antigo Regime e do predomínio da Igreja e imaginei que a figura de negro que aí está a vosso lado, e que se diz passar por Satanás, fosse de fato real e pudesse interferir no processo racional de acusação. Agora, vejo que é mero fantasma. Solicito que o cidadão Ínigo fale em meu nome.

 

     VIEIRA — Com a licença de Santo Inácio. Tendo chegado tarde a este julgamento, reservo-me o direito de falar apenas na conclusão dos trabalhos.

 

{Santo Inácio agita-se na cadeira. Por fim, a um sinal de Pedro, levanta-se, apontando o dedo em riste na direção de Lusbel}

 

     INÁCIO – Senhores da Defesa! Soube com pesar que houve uma satânica intenção de desvirtuar este julgamento inventando-se um texto apócrifo, de um infeliz Eme de Assis {volta-se para a platéia} que a essas hora estará ardendo nas chamas que consomem aqueles que falseiam os fatos para o Senhor, esquecendo-se de que Ele tudo vê e a tudo provê.

 

{Lusbel ergue-se e avança para Inácio. Cai o pano}

 

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     Cena II

{Ao levantar-se a cortina, a confusão é total no palco. O Arcanjo procura segurar Lusbel, que se atraca com Inácio. Pedro, aturdido, chama os soldados que entram, alabardas em riste, prontos a furar quem quer que seja. Na tribuna da Defesa, ouve-se uma voz alta, alegre, diferente, gargalhando}

 

     UMA VOZ — Acabou-se! Acabou-se! A Acusação não sabe com quem está lidando!

 

{Por muito pouco, Saint Just, que retira uma espada não se sabe de onde, não atinge um soldado. Finalmente, Pedro é obrigado a apelar para seus poderes. Luzes se apagam e brilham com intensidade e uma labareda aparece no fundo. O Santo toca um sininho para chamar todos à ordem. A música, agora, são os trechos galopantes da “Cavaleria Rusticana”. Pedro grita}

 

     PEDRO — Ordem! Ordem! Lusbel! Não queirais descer agora e já aos Infernos. Tenho poderes do Senhor para obrigá-lo e assim proceder. Inácio! Calma ou perdereis vossa santidade e sereis expulso do lugar que ocupai no Céu…

 

     VICHINSKY — E no Inferno! Satanás, Inácio e Maquiavel são todos inimigos do progresso na ordem e na liberdade.

 

     SAINT JUST — Mentiroso! Vosso regime nunca teve liberdade. Nunca respeitou a opinião dos que pensavam de modo diferente!

 

     VICHINSKY — Farsante! E quantos vosso amigo mandou para a guilhotina? Nós éramos mais caridosos: era só um tiro na nuca!

 

{Todos gritam impropérios. A confusão é geral. Pedro aperta um botão e uma legião de Arcanjos entra em cena, segurando os membros da Acusação e da Defesa e os sentando a força em seus lugares. Bodin, que mal entrara, olha para seus livros e murmura}

 

     BODIN – Tinha razão eu, ao dizer que devia haver sempre um poder soberano, obedecendo às leis de Deus!

 

{Os Anjos e os Soldados restabelecem a ordem. Pedro volta a seu lugar, que abandonara para falar com Lusbel e o Arcanjo. A música muda. Ouvem-se os primeiros acordes da 5a. Sinfonia de Tchaikovsky, a “Do Destino”}

 

     PEDRO — Inácio foi o causador do tumulto. Seria melhor que ouvíssemos Richelieu.

 

{Inácio faz um sinal de submissão. Richelieu levanta-se, buscando arranjar as vestes em desordem}

 

     RICHELIEU — Minha preocupação foi, sempre, com o Estado. Por isso, aceitei com o prazer o convite do Senhor para auxiliar nesse julgamento. Na verdade, o Governo de Luis Inácio Lula da Silva está dando enorme contribuição para que o Estado desapareça.

 

     VICHINSKY — Se é uma enorme contribuição, então houve outros…

 

     PEDRO — Silêncio na Defesa que verá chegar sua vez.

 

     RICHELIEU — O nobre promotor público soviético tem razão. Houve outros Governos que deram sua contribuição para que o Estado brasileiro desaparecesse. Uns, o fizeram por ignorância; outros, por receio de parecerem autoritários; terceiros, finalmente, agiram com o fito deliberado de enfraquecer as estruturas estatais. Mas o que nos interessa é o Governo Lula da Silva, pois ele é que está sendo julgado. Os outros, ignorantes, frouxos ou subversivos, já estão sendo, tal como este, julgados em lugar por certo mais calmo. Começarei meu requisitório pelo momento em que este senhor, Lula da Silva, surge no cenário político brasileiro.

 

     SCHMITT — Protesto. Está em julgamento o Governo e não a pessoa de Lula da Silva.

 

     RICHELIEU — O nobre jurista alemão não pretende dizer que no julgamento do III Reich não foi importante conhecer os atos de Hitler antes que fosse escolhido chanceler pelo Parlamento e em seguida Führer.

 

     PEDRO — Rejeito o protesto. Continuai, eminente Cardeal.

 

     RICHELIEU — Desde o início de suas atividades como líder sindical, Lula da Silva teve em mira desafiar o Estado com a intenção de colocá-lo na defensiva e nenhuma iniciativa mais poder tomar.

 

     TALLEYRAND — Protesto. O Cardeal está julgando intenções. Lembro à Corte que ‘de intentiones non judicat pretor’.

 

     PEDRO — Dispensamos a erudição do nobre Arcebispo. Protesto rejeitado.

 

     RICHELIEU — Continuo, se a Defesa me permitir articular os pensamentos. Mas, antes, chamo a atenção de Santo Pedro para fato grave. É que, na continuação de suas ações, especialmente depois que estava no Governo, Lula da Silva acabou criando as condições para desmoralizar e dividir as Forças Armadas e transformar a Oposição em coisa inteiramente sem sentido. Isto é grave: Estado com Forças Armadas desmoralizadas e divididas, tal como se previa no início de 1964, tende a desaparecer. E uma Oposição sem coragem de ir a fundo nos deslizes do Governo condena o país à ditadura. É por isto que preciso examinar o passado.

 

     TALLEYRAND — O nobre Cardeal passou os limites do razoável! Salta de atividades sindicais para desmoralização das Forças Armadas e da Oposição.

 

     RICHELIEU — O venerando Arcebispo, que traiu o Segundo Estado na Grande Revolução, não perde por esperar. Continuo. Como líder sindical, Lula da Silva desafiou um Tribunal Regional do Trabalho e continuou em greve apesar do Tribunal haver decidido que ela deveria terminar. Foi uma clara demonstração de que os atos do Poder Judiciário nada significavam para ele.

 

     SCHMITT — Protesto! O Cardeal deve saber que o Governo de Figueiredo apoiou a atitude de Lula da Silva e negociou o fim da greve, passando por cima da decisão do Tribunal.

 

     RICHELIEU — Por isso me referi aos que agiram ou não agiram por diferentes razões, mesmo não subversivas.

 

     PEDRO — Protesto rejeitado. Lembro à Defesa que esse tipo de protesto tem toda a característica de uma ação diria quase de chicana. A Defesa parece querer impedir o reverendo Cardeal, que tem a espinhosa missão de repor os fatos, de expor seus argumentos. Ele, lembro a todos, não é parte da Acusação. É apenas um conselheiro.

 

     TALLEYRAND {sotto voce} — Instruído por Maquiavel…

 

     RICHELIEU — Na sociedade, nesse período, os bem pensantes louvaram o Novo Sindicalismo de Lula da Silva e só se espantaram quando a CUT, que Lula da Silva ajudara a formar, começou a cometer não só estripulias como atos declaradamente criminosos. Que ele, Lula da Silva, nunca condenou. Depois, fundou com o auxílio da Igreja Católica — {em outro tom de voz, levando o olhar para o alto} o Senhor seguramente perdoará estes católicos insensatos que não viram que estavam ajudando a cultivar um ninho de cobras — {voltando o olhar e o tom ao estado anterior}um partido político que existe até hoje, cujo programa era a própria indefinição. Todos sabiam que era socialista, mas ninguém, no partido, dizia que tipo de socialismo pretendia realizar. Ora, Santo Pedro, quando um partido diz que deseja alguma coisa que seduz os que julgavam o regime militar autoritário, mas dela sabe apenas que tem nome, não sabe o que é nem como chegar a dar-lhe corpo, esse partido apenas contribui para enfraquecer a idéia do Estado.

 

     VICHINSKY — Agora o nobre Cardeal usa argumentos que fariam babar de inveja seu colega Inácio.

 

     PEDRO — Exijo respeito!

 

     RICHELIEU — Não importa o juízo do nobre procurador soviético. Deve fundá-lo no que Lênin e Stalin fizeram na URSS: prometeram terra aos camponeses, liberdade, pão… Depois, deram coletivização, terror e fome. Não lembro Trotsky para não constranger o nobre procurador. Mas continuo.

 

     SCHMITT — Falta lógica à sua resposta, prezado Cardeal.

 

     PEDRO — Silêncio! A Defesa está se excedendo.

 

     LUSBEL {murmurando para o Arcanjo} — Por que o Santo não dá cartão amarelo à Defesa?

 

     ARCANJO — Caluda! Vamos ouvir Richelieu.

 

     RICHELIEU — Lógico ou não meu argumento, o fato é que o partido que Lula da Silva fundou e no qual se fez eleger Presidente de honra nunca quis reforçar o Estado. E o próprio Lula da Silva, eleito deputado — e, diga-se de passagem, nada fez naqueles quatro anos — só soube dizer que no Congresso havia 300 bandidos. Deu sua contribuição para a desmoralização do Congresso e, portanto, para o enfraquecimento do Estado. Contribuiu de maneira clara e ostensiva para que um Poder do Estado passasse por uma sociedade criminosa. E o pior, Santo Pedro, é que não foi processado por insultar o Congresso. Todos ficaram com receio de afrontar esse homem que parecia ter um halo sobre a cabeça, como se tudo o que fizesse fosse santo.

 

     PEDRO — A sessão está suspensa para o lanche da tarde. Ao regressarmos, o eminente Cardeal continuará com a palavra.

 

{todos saem e as cortinas do palco mantêm-se abertas}

 

    

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