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    Os mais velhos se recordarão de que, no Estado Novo, a “Voz do Brasil” tinha um tempo dedicado ao “Aviso aos navegantes”. Às vezes, comunicava que o farol tal estava aceso ou apagado; às vezes, o locutor dizia simplesmente: “Não há aviso aos navegantes.” Era extremamente divertido ouvir essa última frase: “Não há aviso aos navegantes.” Mais velho, vim a compreender o por que de dizer que não havia avisos a dar. Hoje, embora haja exagero em lembrar a “Voz do Brasil” daqueles tempos idos e vividos, talvez seja conveniente dizer: “Há avisos aos navegantes.”  

 

    O almirante Mário César Flores, em artigo publicado recentemente no Estado, fez uma análise de situação, procurando saber o que iria acontecer depois do dia 1º de janeiro, quando o novo Presidente da República tomará posse. Por dever de ofício, a análise obedecia ao princípio da extremidade lógica: dadas certas premissas tidas como válidas, o raciocínio lógico levado às últimas conseqüências aponta o que pode acontecer. Note-se: o que pode, não o que deve acontecer. Sociólogos e cientistas políticos não gostam desse tipo de raciocínio, que tem, afora todos os defeitos lógicos que lhe podem ser apontados, o inconveniente de deixar incomodado quem lê os resultados da operação intelectual: afinal, se o raciocínio estiver certo e no futuro vier a confirmar-se, que providências deverão ser tomadas, a partir de agora, para evitar que o pior aconteça?  

 

    O raciocínio de Flores era simples: se Fernando Henrique Cardoso for eleito Presidente, o MST- nem que seja por sua ala radical – tenderá a criar situações de confronto que exigirão um tipo de reação do Governo, necessariamente diferente da que vem tendo até agora. Se Lula for eleito, deverá, no início de seu governo, contemporizar em algumas coisas e avançar em alguns terrenos. O MST, enquanto organização, poderá dar-lhe trégua. A ala radical do movimento, porém, forçará o Governo petista a avançar, criando o confronto. Nas duas hipóteses, há a possibilidade de a ordem ser conturbada. A pergunta que Flores se fazia é o primeiro aviso aos navegantes: que posição adotariam, em qualquer circunstâncias, as Forças Armadas?  

 

    Há outros avisos aos navegantes, que estão sendo dados praticamente todos os dias, discretamente, quase como se não houvesse aviso aos navegantes.

 

    Já não me refiro às declarações do General Cardoso, Chefe do Gabinete Militar da Presidência – e que responde pelo serviço de informações do Governo -, sobre a presença de especialistas em armamento ou simplesmente de homens armados – há as duas versões – no MST. Atenho-me especialmente às notícias que vêm de Pernambuco, onde os saques a carretas de alimentos continuam, onde se programam invasões, ou àquelas procedentes de outros Estados do Nordeste, onde se treinam futuros invasores. Julião, na época das Ligas Camponesas, não chegou a tanto. Muito menos teve a audácia de declarar, como fez o principal líder do MST em Pernambuco, Jaime Amorim, que o movimento iria ao confronto armado se as circunstâncias a tanto o levassem. Entre parênteses, alguém só diz que irá ao confronto armado se tiver condições para tanto. O que nos remete ao General Cardoso. Fecha parênteses. Amorim disse mais: a tarefa do movimento não é aliviar conflitos, mas “criar mais, dentro das reais necessidades do povo”. Segundo ele, o MST não passará à ofensiva; sua preocupação será a “defesa armada” – o que, na linguagem militar, é uma forma de ofensiva.  

 

    O último aviso aos navegantes são as explosões nas torres de transmissão de energia elétrica no Sul. Ontem, ouvi pelo rádio que havia sido desativada uma carga de dinamite debaixo de uma torre no Norte do País.  

 

    Por tudo isso, tenho razões para mudar a frase que ouvia antigamente: “Aviso aos navegantes. Há aviso aos navegantes.”

 

 

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