Em um de seus livros — “Quando é meia-noite no século” —, Victor Serge descreve reunião do Politburo do PCUS, presidida pelo Secretário-geral. A certa altura, Stalin dá a ler a seus camaradas um projeto de reforma agrária, e observa silenciosamente sua reação. Todos têm um estremecimento, que mal conseguem disfarçar: é que aquelas medidas preconizadas pelo Secretário-geral eram as que a Direita defendia. Rindo interiormente da reação dos camaradas, que advinha, Stalin pensa consigo: “Se a Esquerda tivesse condições de reagir, ela diria que essas teses são da Direita. A Direita nada pode fazer (pois está morta). A Esquerda nada pode fazer, (pois foi ou fuzilada ou está no Gulag). Assim, dê-se caça à Esquerda” .

 

     Já no início do Governo Lula, publiquei em “O Estado de S. Paulo” que o Presidente e não José Dirceu era o secretário-geral. Os fatos vieram a comprovar que razão me assistia, permitindo penetrar fundo no caráter e nos métodos do Chefe de Governo. Houvesse eleições na URSS a seu tempo e, hoje, Stalin talvez tivesse alguma coisa a aprender com Lula na arte de liquidar os companheiros e joga-los à execração popular quando atrapalham, e recebê-los de volta à grei, em posição inferior sem dúvida, quando as eleições os consagram como deputados — se não todos, pelo menos os mais importantes, como Palocci, por exemplo. Recebê-los não como réus, confessos ou não, mas como vítimas: a Imprensa, esta a voz oficial, deve fazer sua autocrítica e dizer que não houve mensalão! Ao fazer do mensalão um mito criado pela Imprensa (dos ricos, bem entendido) com o objetivo de abatê-lo, o Presidente da República diz que os camaradas foram inocentados pelas urnas, vale dizer, podem voltar a ser membros de pleno direito do PT. Quanto tempo passará para que voltem a gozar (para a público externo) da simpatia do Secretário-geral (que nunca os enviou de fato para o Gulag), vai depender da evolução dos acontecimentos e da necessidade que ele tiver dos serviços de um ou de outro. Sabiamente, o Secretário-geral tem sempre sua equipe de substituição ; os camaradas que a Imprensa (maldita e burguesa) aponta como culpados, esses podem esperar que não fazem falta. São úteis, nada mais.

   

     Quais eram as forças que se defrontavam no início do Governo Lula? Imagino que Stalin, logo após a morte de Lênin e antes que tivesse liquidado Trotsky, também não estivesse seguro de que o Poder seria seu e apenas seu pelo tempo que desejasse. O Presidente eleito tinha os olhos postos no Mercado (Moloch, deus da cobiça, a que também prestava e presta reverência, ainda que revestida de uma grande dose de hipocrisia). Por isso, tinha os olhos postos na reação dele, Mercado, à sua posse. A incerteza sobre quanto duraria seu mandato se por ventura o Mercado não o aceitasse perseguiu-o durante alguns meses. O indício dessa insegurança (indício no sentido em que se lê no Código do Processo Penal, de algum fato que permite induzir outros) está no fato, hoje público, de a primeira dama, além de preocupar-se em aparecer nas cerimônias oficiais, ter conseguido o passaporte italiano para ela e seus filhos e, perguntada quanto aos costumes, ter dito: “Para garantir o futuro deles”.  

 

     Lula sabia que seu principal adversário era o sistema financeiro internacional, na medida em que uma crise cambial poderia frustrar seus planos de ser Presidente e, depois, Presidente de novo. Assim como Lênin, premido pela realidade do comunismo de guerra foi obrigado a fazer a Nova Política Econômica, permitindo que capitais estrangeiros se instilassem na União Soviética e que o Mercado começasse a funcionar em favor, antes de tudo, da Agricultura; e assim como Stalin esperou até o fim de Trotsky para fazer sua grande guinada para o “socialismo num país só” e coletivizar a Agricultura, Lula jogou todas as suas cartas na estabilidade da economia, custasse o que custasse aos que acreditavam na realização do “socialismo petista”. Acalmados o sistema internacional e seus pseudópodos nacionais, foi fácil lançar-se à eliminação dos que a ele poderiam fazer oposição no Congresso não por motivos políticos ou ideológicos, mas viscerais. O mensalão, produto da imaginação doentia de quem fosse, prestou-se a essa manobra. A estabilidade no Poder seguiu-se naturalmente.  

 

     Propositadamente falei em “manobra”, porque a consolidação do Governo Lula nesta sua primeira fase deu-se seguindo princípios dir-se-iam militares. A manutenção do superávit primário ao nível recomendado antes da posse pelo Sr. Delfim Neto (4,5% do PIB) foi uma típica manobra de aproximação indireta que rompeu o flanco do adversário presumido, permitindo que outro ataque, suposto principal, fosse desfechado tranqüilamente contra as forças que poderiam fazer oposição no Congresso. Abalado o flanco, o mensalão permitiu que o Centro do adversário cedesse, pois não tinha mais maioria certa para o que quisesse fazer contra o Presidente. Quando a Oposição se deu conta (antes mesmo que o mensalão tivesse vindo a público, embora fosse do conhecimento de todos como ficou evidenciado na CPMI dos Correios) de que o flanco em que depositava suas esperanças havia cedido e o Centro não podia ser mobilizado, percebeu que não poderia dizer como aquele General francês da Primeira Grande Guerra: “O Centro vacila; a ala esquerda cedeu; a ala direita não pode resistir. Ataco!”

 

     Levou algum tempo para que a Oposição tomasse consciência do que consistia a Reserva Estratégica de Lula e onde se situava ela. Foi seu erro estratégico e, portanto, fatal para a condução de toda sua operação nesses quatro anos. Ao imaginar que a Reserva Estratégica de Lula eram os movimentos sociais, especialmente o MST, a Oposição confiou em que a ação da Justiça, conjugada à obediência das PMs estaduais às ordens judiciais de reintegração de posse seria suficiente para quebrar os dentes do Movimento dos Sem-Terra e colocar o Presidente contra o muro, fazendo dele o que pretendesse fazer. Engano fatal, pois a Reserva Estratégica do Presidente da República era ele próprio, Luis Inácio Lula da Silva, em sua relação simpática com a massa dos despossuídos, os socialmente não-integrados — como o vencedor do segundo turno deixou claro em sua primeira fala.  

 

     Não apenas esse erro de apreciação marcou as análises que a Oposição fez do Governo Lula desde seu início. A esse a de acrescentar aquele de seus líderes haverem julgado que o “secretário-geral” era o Sr. José Dirceu e concentrado nele todo o seu fogo. Mais grave, porém, foi o erro de apreciação sobre que tipo de guerra Lula pretendia travar e que armas usaria. Modernos que são (ou seriam apenas “modernosos?”), todos os líderes da Oposição julgaram que o MST era a vanguarda blindada destinada a romper o centro da Sociedade e que Lula faria, em seguida, a política que fosse melhor à luz dos resultados. Lula, a meu ver, tinha aprendido um pouco mais do que eles: o MST não foi e não é a vanguarda blindada a romper a frente e permitir que a infantaria, também blindada, avance, mas sempre foi a “guerrilha blindada” que se lançava (e se lançará) aqui e ali contra o adversário. A doutrina militar de Lula, no entanto, não assentava na guerra blindada e relâmpago (Blitzkrieg) prevista pelo adversário; as ações do MST foram sempre ações de diversão para distrair a atenção do General inimigo. O cerne da doutrina de Lula — e que não seja colocado em dúvida que haja uma doutrina — era e é uma guerra de atrito, travada em diferentes frentes — e sempre com êxito, como se viu depois nas eleições de 2006.  

 

     Tentemos esquematizar as diferentes frentes de batalha:  

 

          1. — o sistema financeiro internacional — o melhor seria dizer mundial para nele englobar, sem necessidade de maiores esclarecimentos, o sistema financeiro brasileiro. O comando dessa frente foi entregue a Palocci, que seguiu desde o início de sua administração os conselhos dados publicamente por Delfim Neto;  

 

          2. — o Congresso, cuja fidelidade era mister conquistar para que pudessem ser votados Orçamentos prevendo os 4,5% de superávit primário, e algumas leis cuja aprovação imediata era reputada importante para vencer em outras frentes. O comando dessa foi entregue a José Dirceu que, por isto ou aquilo, deu-se mal e pagou pelo fato de haver colocado em risco a posição do Secretário-geral;  

 

          3. — a indústria, cujo apoio era necessário, considerada a importância que os grandes capitães de indústria ainda exercem na formação de mentalidades políticas, e na distribuição de verbas (limpas ou “sujas”) para a campanha eleitoral etc, etc. O comando dessa frente foi entregue a Furlan que, com o auxílio da política cambial, pôde contentar os grandes, que podiam buscar compensar no exterior eventuais prejuízos no Brasil. Os pequenos e médios empresários (os grandes também…) foram beneficiados pelo Refis e incentivados a modernizar seus processos produtivos e a conquistar mercados externos para compensar o desemprego e, em conseqüência, o eventual fechamento do mercado interno. É preciso não esquecer, quando se vêem as coisas da perspectiva da Política, isto é, da Grande Estratégia, o papel de sedução exercido pelo Grande Conselho em que se sentavam lado a lado Governo, industriais, banqueiros, líderes sindicais da cidade e do campo, intelectuais e tutti quanti necessários para o êxito da grande peça “Participação”.  

 

          4. — a agricultura, cujo apoio era necessário através da adesão seja dos proprietários que produziam as commodities exportáveis, seja dos pequenos agricultores e das populações do Interior que dependem do Agronegócio e/ou da agricultura familiar. O Ministro Roberto Rodrigues conduziu bem a batalha até o momento em que a política cambial e econômico-financeira o levou a demitir-se;

 

          5. — a Universidade e os estudantes. Cristóvão Buarque, demitido por telefone, e Tarso Genro não puderam levar a batalha à vitória, assumindo o cargo Fernando Haddad, que apenas no fim pôde obter a adesão eleitoral, portanto plena, dos reitores das universidades federais (pelo menos isso). As direções estudantis (nas mãos do PC do B e do PT) lutaram por conseguir o apoio de parte dos estudantes, contando para isso com Aldo Rebelo;

 

          6. — a grande massa. O comandante dessa frente, a principal, foi o próprio Presidente. Sua experiência de agitador e líder sindical, especialmente no seu aspecto de orador de comícios, não se perdeu apesar dos longos anos passados longe da fábrica. Lula sabe como falar aos que não têm curso superior e pouco ligam para o fato de ele não saber falar corretamente o português e suas propostas ficarem a meias. É considerado, sob todos os aspectos, um igual. Como tal conquistou corações e mentes, enquanto a Oposição, uma vez demitido Dirceu, na ânsia já tardia de encontrar algo que comprometesse direta e inquestionavelmente o Presidente, contribuiu para desmoralizar o Congresso, que era onde podia travar a sua batalha! 

  

      Em todas essas frentes, a batalha foi ganha por Lula. A Oposição poderia ter se comportado tal como aquele General francês que citei mais acima. Não o fez por vários motivos, todos menores, exceto um: não tinha General com prestígio popular para afirmar-se perante parte da opinião pública como El Cid, e por isso tinha receio de que a batalha de extermínio que pudesse vir a travar arruinasse todos os seus apoios materiais na sociedade brasileira. Com o que podemos, no próximo escrito, analisar a Oposição.

 

 

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