Vejamos agora a Oposição.  

 

     Com que a Oposição contou nesses últimos quatro anos? Não teve, em momento algum, um Estado Maior capaz de avaliar corretamente a doutrina e a força do adversário. Possuía “generais”, cada um conduzindo a batalha em sua frente como bem lhes apetecesse. Não tinha, porém, um Dom Rodrigo — um Cid, um Campeador — com quem se apresentar à opinião pública em oposição ao Saladino das hostes inimigas. Porque, queiramos ou não, por servidões herdadas do passado ou pelo que for, a luta política sempre se travou no Brasil entre dois Campeões, dois defensores de causas, boas ou más.  

 

     Antes de ver as frentes em que a Oposição poderia ter travado a batalha (as mesmas de Lula, aliás), é preciso deixar claro que ela nunca teve Objetivo — e com isso contrariou todas as leis da guerra. A Guerra, como sabemos todos, é a continuação da Política por outros meios; sucede que os bolchevistas e os nacional-socialistas inverteram a relação, fazendo da Política a continuação da Guerra por outros ou iguais meios. Comandante que busca o combate sem ter Objetivo ou muda esse Objetivo sem que a realidade estratégica lhe imponha tal, condenou desde o início sua operação ao fracasso.  

 

     De 2003 até a crise do mensalão, o objetivo da Oposição foi criar condições para que Lula não encontrasse facilidades políticas para reeleger-se; durante a crise, deixou claro que poderia chegar ao impeachment, mudando de objetivo depois que o Sr. Roberto Jefferson recompôs-se com o Secretário-geral e afirmou e reafirmou que o Presidente nada sabia do que estava acontecendo, e que toda a culpa era de José Dirceu. Desistindo do impeachment, a Oposição voltou ao campo eleitoral. Travou, então, a batalha no campo da moralidade pública, julgando que apesar do depoimento absolutório de Jefferson e da falta de provas concretas do envolvimento do Presidente em todos os escândalos, os indícios seriam suficientes para convencer o eleitorado de que Lula não era bom para o Brasil.  

 

     Para a Oposição não faltaram apenas um Estado Maior, um Paladino e um Objetivo: não tinha um programa com que se distinguir de Lula. Apesar de contar em seus quadros com muitos intelectuais que freqüentaram (a seu modo, pelo visto) Antonio Gramsci, nenhum deles parece ter aprendido o elementar: que numa batalha de extermínio do tipo que imaginavam estar travando, é necessário primeiro distinguir-se, depois se separar e, finalmente, cindir, isto é, partir para o choque final como aconselhava Sorel. A distinção que a Oposição dizia existir entre ela e Lula (é dele que sempre se tratou, não daqueles que, no PT, dependem da boa vontade de Lula para isto ou aquilo, política, econômica ou socialmente) é a que se pode estabelecer entre o Poeta que freqüenta os salões da aristocracia e o Jornalista que se limita a fazer seu pasquim a cada quinze dias. O que distingue um de outro, além do conteúdo, é o estilo. O Poeta, freqüentador dos salões aristocráticos, nada mais faz com seus versos que abrir as portas que estão escancaradas à espera de quem celebre as virtudes de uma nobreza em decadência; o Jornalista/Pasquim não freqüenta os salões da aristocracia, pois é suposto ter visões do mundo diferentes, além de seu estilo não soar bem a ouvidos educados aos sons mais afinados. O problema, no caso brasileiro, é que Poeta e Jornalista/Pasquim falam a mesma coisa com estilos diferentes. O Jornalista/Pasquim faz uma poesia canhestra para celebrar as virtudes da aristocracia, enquanto o Poeta a eleva aos céus com versos ditirâmbicos às vezes de pé-quebrado.  

 

     Para o grande número, os despossuídos, os não-integrados, não chegou a haver, nesses quatro anos, grande diferença de conteúdo entre um e outro a não ser esta: o grande número compreende melhor a fala do Jornalista/Pasquim, especialmente quando Lula prefere o discurso panfletário que parece lutar pela integração e pela melhora das condições de vida dos pobres camuflando a defesa da oligarquia brasileira.  

 

     E o importante a deixar claro é que, para o grande número — os 80% do eleitorado que, segundo o TSE, são compostos de analfabetos ou semi-alfabetizados — não foi Lula quem copiou o programa de Fernando Henrique Cardoso; foi a Oposição que, nada mais podendo oferecer em contraposição ao que Lula dizia e fazia, só tinha como mote de propaganda o programa de Fernando Henrique Cardoso, isto é, reforçar para os 80% o acerto do programa de Lula

 

      Vejamos, agora, as frentes em que a Oposição travou sua luta, que eram as mesmas frentes em que Lula combatia:

 

          1. — O sistema financeiro. Ele se deu bem no Governo Fernando Henrique Cardoso e, talvez, melhor no Governo Lula. A Oposição não tinha quem chefiasse esta frente a não ser o próprio Fernando Henrique Cardoso, que, contudo, nada oferecia que fosse melhor do que o que Lula já vinha dando aos banqueiros e correspondentes no sistema. Ademais, os “príncipes do sistema” (ver abaixo o item 3) sabiam que a probabilidade de a Oposição não marchar unida na hipótese de substituir Lula era muito grande, porque os “desenvolvimentistas” que pululavam em seu meio poderiam impor-se sobre os outros, forçar a diminuição do superávit primário, comprometendo o pagamento da dívida interna ou, até mesmo, encontrar maneiras de reduzi-la com medidas parecidas com o calote… Entre o certo e o incerto, o sistema financeiro ficou com Lula, pois sabia o que ele havia feito e seria capaz de fazer de novo para defender seus próprios interesses — o maior deles sendo permanecer no poder. Talvez os “príncipes do sistema” tenham, neste momento crucial, apostado na carta errada, da mesma maneira que fizeram Von Papen e os conservadores, os industriais e banqueiros de Weimar quando apoiaram (talvez mais do que isso) a indicação de Hitler para a Chancelaria, supondo que poderiam controlar o “cabo austríaco”… Essa análise, porém, fica para as projeções.  

 

          2. — O Congresso. Esse era o campo em que a Oposição podia travar sua batalha com alguma probabilidade de êxito. Pensando numa das formas de defesa usadas nas guerras do século XIX, diria que o Congresso era o campo entrincheirado, o quadrado em que a Oposição poderia derrotar o adversário numa batalha de usura. Por não ter objetivo, essa Oposição também não tinha doutrina e fez do Congresso, ao invés de seu quadrado fortificado, um campo qualquer de batalha — no qual esperou derrotar o adversário numa guerra de movimento, possivelmente Blitzkrieg, em que, por difícil que possa ser de entender, o adversário não era Lula, mas sim aqueles todos que o Presidente ia jogando ao mar à medida que parecessem estar prejudicando seus planos. Os trabalhos da CPMI dos Correios, durante os quais os mecanismos do mensalão e seus beneficiários foram expostos, teriam permitido que, da mesma forma como na CPI dos “anões do Orçamento”, o Congresso cortasse em sua própria carne, como disse, ao encerrar os trabalhos dela, o senador Jarbas Passarinho. Na falta de uma doutrina e de um Estado Maior, a Oposição deixou-se envolver pelo adversário. Pôde derrotar algumas patrulhas que, figuradamente, haviam conseguido romper a primeira linha do quadrado, enviando deputados do PT e aliados para a cassação em plenário. Quando, porém, o nome de um senador do PSDB mineiro surgiu como um dos que se beneficiaram dos serviços de Valério, não soube contra-atacar.  

 

     O “deslize” ou “crime” do mineiro nada teve a ver com o mensalão; na falta de quem chefiasse de fato o combate e orientasse suas forças, a Oposição deixou que tudo se confundisse e que o plenário da Câmara votasse a anistia de muitos dos envolvidos no mensalão e no chamado valerioduto. Fernando Henrique Cardoso, depois, apontou o erro cometido. Tarde demais, porém. O pior nisso tudo é que ninguém foi capaz de perceber que, ao denunciar o esquema de cooptação dos deputados pelo Planalto e ao não conseguir associar direta e irrefutavelmente a ele o nome de Lula, a Oposição apenas contribuiu para desmoralizar o Congresso. Em outras palavras, ela própria minou seu campo fortificado, permitindo que o Congresso fosse visto como uma “terra de ninguém”, não no sentido que se dá à expressão na guerra, mas no sentido próprio: é de ninguém, portanto é de quem chegar primeiro — como muitos chegaram nas eleições de 2006, desmoralizando ainda mais a Casa Legislativa em proveito de Lula, que a tudo escapou ileso…

 

          3. — A Indústria. A Indústria, o grande comércio e os bancos fazem parte do “sistema”. Seus representantes e especialmente aqueles que preferem o anonimato são seus “príncipes”. A Oposição não tinha quem destacar para chefiar essa frente, que era e é muito ampla. Ademais, nada tinha a oferecer aos “príncipes”: a defesa da “indústria nacional” não podia ser feita com esperança de êxito, pois os “príncipes” internacionalizaram-se, embora não pertençam ao jet set internacional. Executora da privatização nos Governos Fernando Henrique Cardoso, a Oposição não tinha como levantar a bandeira da re-estatização; adepta do livre comércio praticado desde o Governo Collor, a Oposição só tinha que bater palmas para as ações do Governo Lula na OMC contra os Estados Unidos e quantos criassem obstáculos tarifários a produtos brasileiros. Nada distinguia, no plano prático, a Oposição do Governo. Até mesmo a tese do desenvolvimento que muitos “generais” da Oposição passaram a sustentar, fragilizando as hostes oposicionistas, encontrava resistências entre os “príncipes” e os “intelectuais do sistema” (que os há), que não viam como seria possível realizar o desenvolvimento sem tocar nas políticas cambial e de juros, elementos fundamentais para a tranqüilidade dos bancos e entidades financeiras, parte maior do “sistema”. Uma observação atenta das contribuições das empresas dos “príncipes” para as campanhas de Lula e Alckmin permitirá verificar que os “príncipes do sistema” jogaram no Ponto e na Banca, mas secretamente preferiram a Banca, pois o Ponto lhes parecia, pela experiência com os Governos Fernando Henrique Cardoso, sobranceiro, orgulhoso demais para o gosto tradicional brasileiro de entendimento entre o Governo e o Sistema.  

 

          4. — A Agricultura. O bom desempenho do Agronegócio trabalhou contra qualquer ação da Oposição nessa frente. Mesmo porque quem poderia dirigir a luta estava no governo, como Ministro da Agricultura. A batalha contra o MST não teve quem a comandasse e limitou-se a uma série de ações de guerrilha de proprietários de fazendas invadidas e de protestos contra a “inação do Governo Lula”. Poucos se lembraram de que a manutenção da ordem pública e as ações para fazer respeitar os Códigos incumbem aos Governos estaduais e não ao federal. A “guerrilha blindada” do MST continuou em que houvesse quem a ela se opusesse. Até mesmo a reação às invasões do laboratório e das terras da Aracruz não teve a repercussão política que deveria ter tido se a Oposição quisesse de fato travar a batalha napoleônica contra Lula. Não quis, ao que tudo indicou. As vanguardas da “guerrilha blindada” prometem, agora, chegar às cidades e convocar uma greve geral…  

 

          5. — A Universidade. Os setores que formaram com a Oposição não tinham e não têm propostas para reformar a Universidade ou a Educação de maneira geral.
Limitam-se às propostas e ações do Governo Fernando Henrique Cardoso, que não impediram que se chegasse a essa situação que, segundo todos, reclama reformas profundas e urgentes se é que se pretende fazer do Brasil um país que tenha voz e voto no sistema internacional de poder.  

 

          6. — A grande massa. Da mesma maneira que nas outras frentes, essa não teve um General em comando nem diretrizes operacionais nem doutrina de emprego. Ainda que se tivesse contentado em ser um grande partido da classe média, a Oposição não cultivou aqueles que formavam sua base de sustentação política e eleitoral, nem lhes ofereceu a segurança, que todos merecem, ou o emprego, que muitos na classe média reclamam com maior urgência psicológica que o restante da população desempregada. A Oposição, dessa perspectiva, foi um partido de classe média, mas sem programa, sem direção e sem quadros organizados.  

  

     No campo da Política Externa, a Oposição não soube apresentar seu programa, se é que o tinha. Uma Política Externa que se sustente prática e teoricamente deve partir da idéia de Estado; o ponto de fuga a orientar as ações dos agentes estatais na condução da política externa deve ser essa idéia de Estado, aquela do interesse nacional e a outra, igualmente relevante, de como deverá dar-se a inserção soberana do Estado na ordem internacional. Uma política externa que pretenda essa inserção, antes de tudo, necessita, além de contar com a vontade de uma população esclarecida, dispor de um instrumento do Estado que a apóie: Forças Armadas ou Poder Militar, se quisermos resumir razões.  

 

     As Forças Armadas são não apenas um instrumento da política externa; sobretudo são um instrumento do Estado — desde que, insistimos, como dizia o General de Gaulle, exista um Estado. De 1964 para cá, sem atentar para a progressiva crise do Estado, os Governos têm tido o cuidado de colocar as Forças Armadas — portanto o Poder Militar brasileiro — em segundo plano. Depois de 1985, cuidaram de fazer uma política externa sem apoio militar. Esse apoio, diga-se desde já, não é destinado a que as Forças Armadas atravessem fronteiras, conquistem território ou façam que diabo de imperial-colonialismo se queira ou se imagine possível. As Forças Armadas existem para defender as fronteiras, sim, e como se dizia na Constituição de 1824, serem empregadas onde o exigir o bem do Estado. São instrumento do Estado, especialmente na atual conjuntura, para garantir a integridade do território e, em última instância, sendo as forças auxiliares incapazes de deter agressões à Ordem constituída, irem em socorro das instituições onde se fizer necessário. Mas, antes de tudo, desde que em estado de pronto, as Forças Armadas servem para auxiliar o Diplomata nas suas negociações tendo em vista a defesa do interesse do Estado.  

 

     Esse tema deve ser motivo de outras considerações. O que interessa, agora, é que a política externa do Governo Lula apresentava brechas pelas quais seria possível introduzir as vanguardas blindadas da Oposição se ela estivesse disposta a tanto. Não o fez, em primeiro lugar porque não tinha política externa alternativa nem pretendia — pois pensava, pelos quadros dirigentes do PSDB, como se vivêssemos em 1968 — dar ao Poder Militar a atenção que a conjuntura está a exigir; em segundo lugar, porque sempre temeu que ao fim da grande batalha contra Lula, ela, Oposição, fosse a derrotada dada a capacidade (não provada em circunstância alguma) de mobilização dos movimentos sociais atribuída ao Presidente. E porque não tinha qualquer proposta alternativa para a administração do País como um todo.  

 

     Em outras palavras, a Oposição temeu avançar para ocupar o lugar de Lula, Presidente, embora muitos de seus “generais” deixassem entender que o impeachment — promovido por outros, bem entendido — seria bem vindo. Bem vindo, desde que atendida outra condição, além da propositura da ação por terceiros: a de que José Alencar pudesse desempenhar o papel que Café Filho desempenhou em 1954/55.  

 

     É preciso ver, antes de concluir esse tópico, que a Oposição se dividiu quando se tratou de considerar o impeachment ou o golpe de Estado. Os que defendiam a guerra de extermínio ficaram em minoria; os que temiam uma crise formaram a maioria.  

 

     Vamos, agora, às projeções.

 

 

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