Em 1945, o movimento “Constituinte com Getúlio” conduziu ao 29 de outubro… Impasses políticos, ideológicos ou administrativos muitas vezes resolvem-se com um golpe de Estado – para o Bem ou para o Mal.

 

      Aos que se debruçam sobre as manifestações populares − membros da classe política, cientistas políticos e analistas de várias origens intelectuais − está escapando o que talvez seja seu sentido mais dramático − para a democracia como a entendemos. Os reclamos por melhores serviços públicos e até mesmo contra a FIFA atraem as atenções − e são muitos os que não hesitam, indo contra a maré, em apontar os custos do atendimento das reivindicações e seu peso sobre os Tesouros federal, estadual e municipal numa época em que a própria Presidente da República diz ser necessário fazer cortes no Orçamento para que o Governo possa apresentar um superávit primário que iluda os investidores.

 

      Que sentido dramático vejo nas reivindicações? Já o declarei em artigo anterior: elas apontam para o caminho da violência como capaz de resolver problemas administrativos, de Governo. Digo violência, na medida em que as manifestações, pacíficas que tenham sido em sua intenção primeira, violentam o dia-a-dia dos que delas não participam – isso, para não falar dos confrontos com a Polícia Militar, as depredações, os incêndios e os saques. Se as depredações, com um pouco de generosidade, podem ser atribuídas a grupos que se identificam como anarquistas, os saques são obra de meliantes. O que permite pensar, como fez Delegado de cidade do Interior de São Paulo, se não seriam ações de grupos criminosos organizados. 

 

      O fato de as manifestações já não reunirem tanta gente trouxe certa tranqüilidade para os que temiam que continuassem sendo multitudinárias. E este é o erro em que incorrem as análises que vêm sendo feitas até agora.

 

      Foi a violência, no sentido em que uso a expressão, o que conseguiu a redução do preço das passagens de ônibus, metrôs e barcas – e também o recuo no aumento dos pedágios em São Paulo. Foi a violência o que tirou Dilma de seu sossego e a fez palmilhar, com seu Estado Maior, a Estrada de Damasco do bonapartismo tupiniquim. Na verdade, ao convocar as primeiras manifestações daquilo que passará à História como as “jornadas de junho”, o Movimento Passe Livre abriu a caixa de Pandora. Dela saíram dois gênios do Mal: um, a convicção de que a violência é arma política capaz de implantar a democracia direta. Outro, a idéia de que o plebiscito (primeiro, a Constituinte) fará que a vontade popular volte a dar apoio ao Governo Dilma.

 

      Pouco importa que já não se reúnam multidões nas ruas. Tanto faz que sejam milhares, centenas ou apenas dezenas de manifestantes. Para queimar praças de pedágio no Interior de São Paulo ou no Espírito Santo, não é preciso reunir multidões; para fechar o acesso a Cumbica ou Congonhas e impedir que voem os que precisam voar, poucos são necessários; para protestar contra futuras desapropriações destinadas a ampliar Viracopos, bastam algumas dezenas queimando pneus e fechando a estrada de acesso ao aeroporto; para queixar-se do Governador do Rio de Janeiro, basta que dezenas impeçam o trânsito e incomodem ex-eleitores de Sérgio Cabral, levando-os a pedir que a autoridade mude de residência; para atear fogo no Mercado Público de Porto Alegre, bastariam uns dois ou três que tivessem essa intenção. Não é preciso que uma organização qualquer, usando as redes sociais, convoque a população toda inteira. Qualquer grupo, contra o que seja, já se sente no direito de fazer aquilo que bem entenda. É a democracia direta em marcha. Quem poderá protestar em nome da Lei e da Ordem ou dos direitos do Outro sem ser acoimado de reacionário?

 

      Não se sabe de onde nem por que Dilma e seu Estado Maior decidiram que a convocação da Constituinte para decidir sobre a reforma política atenderia a todas as reivindicações administrativas das multidões. Saíram-se mal da intentona. Lembraram-se, então, de insistir em um Plebiscito. O Congresso resistiu: “tire este fardo de mim, ó Senhora!” E a Presidente viu-se em palpos de aranha.

 

      Ou deveria ter-se visto. Mas, não! Fez-se de desentendida e continuou e continuará a insistir no plebiscito. A razão dessa atitude que, a rigor, contraria a lógica constitucional está no que disse à coordenação da bancada federal do PT: “Não pensem que estou acuada! Vou para cima e vou disputar nosso legado!

 

      Acuada estaria a Presidente por quem? Que legado, herdado de quem, disputaria? A resistência do Congresso, que não quer nem pode ser colocado como inimigo do povo pelo Executivo, significaria que a Presidente da Republica está acuada? Os dicionários registram diferentes sentidos para o verbo “acuar”. No Aurélio, encontramos estas, entre outras: “Deter-se de medo ou de espanto (próprio do Nordeste ou de Minas Gerais)”; “Perseguir (o inimigo, o adversário) em posição de que ele não possa fugir”; “Perseguir a (caça), especialmente para forçá-la a refugiar-se na toca; entocar, enformar”; “Cercar (a caça) com os cães, obrigando-a a defender-se”. A Presidente da República, a acreditarmos em suas palavras, sentir-se-ia perseguida por “inimigos”, que a forçam a “refugiar-se na toca”, a “defender-se”.    

 

      Mas Dilma não está acuada, embora diga que está! A política de incorporação de vastas camadas da população ao mercado de consumo não está em causa nem nos jornais de oposição, nem na tribuna do Congresso, nem nas ruas. Que legado vai defender? Muitos dos próprios correligionários não sabem o que seja ele e, por isso mesmo, não sabem se o desconhecido merece defesa − e os oposicionistas em seu Partido acreditam que o melhor que a Presidente poderia fazer seria não reclamar a defesa de seja lá o que for e concentrar-se de fato na administração das coisas, dada a situação das finanças públicas e da economia.  Mas Dilma, que não está acuada, vai à luta: vai “para cima”! Das oposições? Ou da democracia?

 

      O Congresso como instituição, os cientistas políticos, os analistas atentem para o que os jornais noticiaram sábado: “Integrantes do Movimento dos Sem Terra (MST) disseram a ela [Dilma] que vão levantar a bandeira do ‘Plebiscito Já!’ para reforma política no Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações”. Isso relata “O Estado”. A “Folha” noticia as adesões ao dia já determinado para “ir para cima”: “Ao menos 27 categorias profissionais ligadas a oito centrais sindicais já informaram que vão participar das manifestações, greves e paralisações marcadas para a próxima quinta-feira, dia 11”.  E enumera algumas dessas categorias: motoristas de ônibus, motoboys, metalúrgicos, químicos, trabalhadores na alimentação, têxteis, costureiras, operários da construção civil “entre outros”… A CUT convoca para o grande ato: “A CUT vai parar o Brasil, com grandes mobilizações nas ruas, atos em praças públicas, paralisações nos locais de trabalho, em fábricas, escolas, hospitais, comércio, portos e aeroportos, terminais de ônibus, refinarias e plataformas de petróleo, rodovias, agências bancárias e ruas de comércio e shopping centers, entre outros, envolvendo nossos trabalhadores e trabalhadoras de base”.

 

 

      Sorel, que preconizou a greve geral para a derrubada do sistema, estará rindo de satisfação. O defunto Chávez, lá onde estiver, também. É o triunfo da personalidade sobre as instituições com o apoio de setores da população, o bonapartismo, que se delineia, prestes a governar a vida nacional.

 

     Dizia eu, em outro artigo, que faltava às manifestações um “Partido” que lhes fixasse um objetivo. Ele surge, agora, das cinzas: é o PT capitaneado por Dilma, que vai “para cima” a fim de defender “seu legado” e castrar (este o termo) qualquer movimento que ainda pretenda que Lula volte ao poder.

    

     Que a presença do Papa Francisco nos garanta a vinda de alguns anjos bons, aflitos por protegê-lo dos respingos das manifestações; que eles possam nos inspirar e nos livrar de todo o Mal, amém!

      

 

 

 

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