Buscamos apontar, nos artigos anteriores, a dificuldade de encontrar o hegemon na América do Sul (ou Sul e Central mais Antilhas) a partir da idéia de que o hegemon será um Estado.

 

     Uma das idéias, mais que hipóteses, aventadas no último texto é de que, convindo à Venezuela, por motivos econômicos, entrar no Mercosul, a manobra que permitiu que esse acesso se desse, excluindo provisoriamente o Paraguai, indicaria ser ela, a Venezuela chavista, o hegemon. Idéia logo descartada, dado o fato de o país não reunir as condições necessárias para ser uma grande potência.

 

     Lembramos, também, Cuba, rememorando o fato de Lula haver sido um dos autores, se não o autor, da idéia de criar-se uma organização interamericana que excluísse Estados Unidos e Canadá para permitir o ingresso de Cuba numa nova organização substituindo a OEA.

 

     Ora, é evidente que Cuba não é o hegemon. Não reúne as condições físicas, econômicas e populacionais para sê-lo, Tem, porém, convém não esquecer, desde a entrada de Castro em Havana, uma condição político-ideológica que nenhum outro governo americano terá: é o país onde se deu a revolução contra o imperialismo e o capitalismo. O apelo romântico à Revolução. Guevara foi até há pouco o símbolo desse romantismo: “Fazer na América Latina dez, cem, mil Vietnãs…”. A Revolução não se fez, mas deixou um embrião de organização política que se tornou eficiente quando os Partidos que subscreveram a constituição do Foro de São Paulo chegaram ao Poder ou viram triunfar algumas de suas idéias fundamentais pela ação de outros Partidos.

 

     Da Revolução de Sierra Maestra ficou a revolução − agora com inicial minúscula − burocrática, isto é, a vontade de os Partidos que alcançaram ser Governo nele permanecer. Essa vontade não se pôde exercer, porém, no vácuo das idéias que alguém disse um dia serem produto do “fanatismo abstrato de pensamento”. Teve de amoldar-se às realidades, às conjunturas econômicas: na Venezuela, a riqueza nacional vindo quase toda ela do petróleo, foi possível avançar em estatizações, em um simulacro de reforma agrária, sob maior autoritarismo político − com os resultados que hoje se fazem sentir. Na Bolívia, triunfou o reconhecimento da importância do Índio na composição étnica e social do país. No Brasil, com Lula, firmou-se tacitamente o compromisso entre o Partido no poder e o Sistema. Dilma, seguindo o mestre, transformou a Diplomacia e o BNDES em intermediários dos grandes empreendimentos privados na América do Sul e na África. Como Lula, cuidou de incorporar grandes massas ao mercado de consumo − e nisso assentou sua “revolução”. No Uruguai, a realidade da Geopolítica se impôs e o governo popular não pretendeu ser modelo. Na Argentina, aquela vontade fundiu-se com o peronismo, agora mais agressivo que o original, dele conservando todos os traços autoritários.

 

     Uma idéia original manteve-se, no entanto, aplicada à realidade conforme as condições objetivas permitiam: a restrição aos Estados Unidos. Não pretendemos dizer que haja uma direção política a traçar rumos e objetivos. Seria fazer teoria conspirativa sem grandes elementos para apoiá-la na realidade. Há, sim, não se há negar, uma idéia-força comum a todos: é necessário reduzir ao mínimo a influência norte-americana no campo diplomático-político, ainda que a realidade imponha atitudes menos ostensivas no campo econômico em virtude das servidões da Balança de Comércio. Resguardada no petróleo, a Venezuela chavista (já órfã ou já viúva de Chávez) busca expandir sua influência na América Central e nas Antilhas, pretendendo substituir os Estados Unidos – e, nas suas relações com Washington o Governo de Caracas, pode dar-se ao luxo de ostentar desprezo pela potência dita hegemônica. A Bolívia serve-se de sua geografia para esnobar o antigo Grande Irmão. Os demais renderam-se à Balança Comercial e o Brasil de Dilma soube lançar os alicerces para a grande divisão geopolítica: o membro do Mercosul e dos BRICS cimenta a divisão da América do Sul em América Transandina e América Cisandina − Mercosul + BRICS versus Aliança do Pacífico.

 

     Há que reconhecer-se que o Acaso − poderíamos invocar o Deus da Guerra? − contribuiu para que o caráter político do Mercosul viesse à tona e colocasse novos problemas. Inicialmente, a restrição ao Paraguai e o ingresso da Venezuela, ambos contrários ao tratado original. Agora, o incidente com o avião de Morales na Europa. A ofensa ao Presidente da Bolívia, contrariando o Direito Internacional, deu azo a que o lema dos Mosqueteiros de Dumas fosse invocado como princípio de ação: “um por todos, todos por um”. A Europa deve pedir desculpas à Bolívia e os Presidentes do Mercosul (menos Paraguai, está claro) chamam seus Embaixadores, devendo saber que este passo, na Diplomacia corrente, é sinal de agravamento nas relações diplomáticas entre os Estados. Exigindo desculpas de Portugal, Espanha, França e Itália, o que, antigamente, seria a undécima hora nas relações entre Estados, precedendo o rompimento, os Presidentes do Mercosul lançaram a luva: que a Europa se curve ao Direito e peça desculpas de Estado ou… ou… ou as relações entre os Estados ficarão a cargo de funcionários de segundo e terceiro escalões… Que desgraça para os europeus!

 

     Mas ainda há os Estados Unidos! O Acaso deu o pretexto para que as posições endurecessem: “abaixo a espionagem virtual!” Sim! Abaixo, porque a violação da privacidade das comunicações entre os cidadãos e entre Presidentes e Ministros não pode ser violada por estrangeiros! É uma questão de soberania. Então? Bom, então, os Embaixadores continuam onde estão, mas há a ONU e sua Comissão dos Direitos Humanos. A ela recorramos, todos! E a soberania estará resguardada e a honra será salva!

 

     Há, porém, uma pedra no caminho, conforme diria o poeta. É o Paraguai. Em Montevidéu, nesta semana, os Presidentes do Mercosul esqueceram-se da Guerra da Tríplice Aliança e trataram o Paraguai como o menino malcriado que foi proibido de participar das festas juninas e, tendo-se vestido a caráter, pode voltar à comunidade festiva. O Paraguai realizou eleições, por todos fiscalizadas e aprovadas. Eleiçoes que eram previstas quando Lugo foi deposto. Que o chanceler Patriota tenha dito, logo depois do pleito, que eleições eram uma coisa e prática da democracia era outra, pouco importa. Houve eleições e o Paraguai pode voltar ao Mercosul − mas perdendo a Presidência, que coube à Venezuela, cujo ingresso na organização foi vetado pelo Senado paraguaio. Nada importa. Alegres e felizes, todos se comprometeram − Dilma dixit − a prestigiar a posse do novo presidente.

 

     Sucede que o menino malcriado não gostou da decisão da “família” e reagiu: o Presidente da República e o Presidente eleito afirmaram que tratados foram violados e que o Mercosul está em causa. Pior: os industriais paraguaios descobriram que o Brasil fez pressão para que a linha de alta voltagem que ligará Itaipu ao sistema nacional fosse construída por brasileiros, sem licitação feita pelo Governo paraguaio, dono, sim, do território por onde a linha vai passar, dono do sistema elétrico nacional e devedor do que custar a linha. Os industriais paraguaios descobriram a Diplomacia das empreiteiras!

 

     Um por todos, todos por um. O problema é que falta um na trupe. Mesmo que os demais formem pares, como levar a quadrilha ao palco? Tocando na flauta a música do socialismo do século XXI? Um Hino da América Bolivariana? Ao ritmo da marcha batida das ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, de todo o Brasil?

 

     O Paraguai, pequeno e geopoliticamente desfavorecido, sabe que, quando nada se tem, tudo se pode e nada se perde. Ademais, há a Aliança do Pacifico e a possibilidade de acordos comerciais com os Estados Unidos e demais Estados. 

 

     Do que se vê que, em matéria de política externa, não sendo a URSS nem a China, país algum, por maior que seja, pode dar-se ao luxo de querer ditar regras àqueles com quem tem fronteiras e de cujo mercado depende, ainda que pouco, para poder viver relativamente bem. Sobretudo quando nenhum deles for um hegemon.

 

 

 

 

 

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