Qual era o quadro internacional quando Lula da Silva assumiu a Presidência da República em 2003?    

 

     Os Estados Unidos já estavam envolvidos no Afeganistão e as nuvens se fechavam sobre o Iraque. A invasão veio a comprometer as relações do Governo Bush com França, Alemanha e Rússia. As dúvidas que cercavam o Governo Putin obrigavam os Estados Unidos − e em boa medida também a Alemanha − a buscar os meios de impedir que a vontade de Moscou, de voltar a ser considerada grande potência, pudesse comprometer a relativa estabilidade internacional. Digo relativa porque a crise Israel-palestinos significava foco de tensão que só poderia perturbar a paz.    

 

     A transformação do G-7 em G-8, com a inclusão da Rússia, foi um dos recursos de que se lançou mão para acalmar Moscou, ainda que o PIB russo não justificasse incluírem-se os representantes daquele Governo entre os que discutiam e muitas vezes decidiam a sorte da economia mundial. A invasão do Iraque, explicada e justificada com base em informações da CIA — não confirmadas por tipo algum de análise — sobre a existência de armas de destruição em massa no país, abalou o prestígio do Governo Bush e em conseqüência dos próprios Estados Unidos.    

 

     Tentemos ver o mapa-múndi do período pós-2003 da perspectiva de Washington.    

 

     Na Europa Central, a postura agressiva de Putin era motivo de alerta, mas não mais do que isto. A “Velha Europa”, como o secretário de Defesa classificou, com desprezo, Alemanha e França, num acesso de irritação com a posição de Bonn e Paris na crise do Iraque, não era motivo de preocupações do ponto de vista estratégico − que é, afinal de contas, o que conta.    

 

     O Sudeste da Ásia não apresentava grandes problemas para os planejadores no Pentágono e no Departamento de Estado norte-americano. Os compromissos norte-americanos com Taiwan e, depois, com a Índia, obrigavam os planejadores norte-americanos a levar a China em conta como Poder. A China despontava como grande potência econômica, havendo quem projetasse que, em 2030, poderia ultrapassar os Estados Unidos (considerando-se o PIB dos dois países). O acordo nuclear com a Índia − que não restringia seus esforços no campo nuclear-militar − marcou a intenção de Washington de ter, no subcontinente, um eventual aliado contra qualquer tentativa de expansão chinesa. O Paquistão já era na época motivo de preocupação pelas presumidas relações de membros de seu serviço secreto militar com o Talebã. A guerra no Afeganistão continuava a desgastar a imagem norte-americana, embora a OTAN se dispusesse a fornecer algum reforço militar (a rigor, no início, mais policial do que militar). O Oriente Médio continuava a ser motivo de preocupação não pela possibilidade de interrupção do fornecimento de petróleo − a Europa sofreria mais que os Estados Unidos na eventualidade de um boicote como o de 1973 −, mas sim pela crise internacional que, avolumando-se, poderia obrigar o Governo norte-americano, empenhado na luta global contra o terrorismo e tendo em conta a importância geo-estratégica da região, a comprometer-se em mais uma guerra.    

 

     Na América Ibérica, apenas a agressividade verbal de Chávez poderia preocupar, ainda que a “revolução bolivariana” levasse países de menor importância estratégica a não perfilar mais as políticas de Washington, podendo, no máximo, afetar interesses econômicos privados. Apesar da pequena importância estratégica do rompimento da Venezuela − mais retórico do que efetivo − um bom planejamento requereria que os Estados Unidos tivessem um aliado na região, um Estado que fosse capaz de neutralizar politicamente os arroubos “anti-Império” com que Chávez marcava sua pretensão à hegemonia na região. O Chile, por sua posição geográfica e seu pequeno peso específico, não contava como Poder na América Ibérica; a Argentina, mergulhada como sempre em crises maiores ou menores, da mesma forma.    

 

     Restava o Brasil.    

 

     O Governo Fernando Henrique Cardoso abrira o caminho para uma proveitosa colaboração do ponto de vista econômico e também político-estratégico com os Estados Unidos ao assinar o TNP. É preciso que não nos esqueçamos de que, na apreciação de Washington, o fato de o Brasil, no Governo Fernando Henrique Cardoso, ter sido levado a recorrer ao FMI, conseguindo inclusive um empréstimo (a ser usado quando e se necessário) de 40 bilhões de dólares, reduzia a margem de autonomia do país. A eleição de Lula da Silva poderia modificar essa situação, embora o Brasil passasse a ser governado por quem se caracterizara, no passado, por posições em boa medida anti-Estados Unidos, e que, no dizer de muitos, era simpático às políticas traçadas pelo Foro de São Paulo, quando não executor delas. Constituído por lideranças de esquerda da América Ibérica depois da queda da União Soviética, o Foro de São Paulo pretende unir esforços para implantar, nas Américas, um socialismo diferente do “socialismo real” que caracterizou a URSS. Lula da Silva, mesmo antes de assumir a Presidência, era membro desta organização. A aproximação pessoal de Bush, procurando estreitar relações com Lula da Silva, poderia ser vista desta perspectiva.    

 

     O mapa-múndi era analisado em Brasília de perspectiva diferente. Sem dúvida, geopoliticamente, a apreciação era semelhante se não idêntica. A diferença na análise − conduzindo à execução de uma política externa − diferia na apreciação política do momento mundial. A política externa do primeiro Governo Lula foi caracterizada pela vontade de transformar a necessidade em virtude, ao menos para efeito interno.    

 

     A necessidade saltava aos olhos quando se examinava a situação do País do aspecto não apenas econômico, mas financeiro. Qualquer arroubo “anti-Império” sacrificaria imediatamente a execução dos projetos sociais que contavam para a manutenção do prestígio e das pretensões político-eleitorais de Lula da Silva. A indicação de Henrique Meireles para a Presidência do Banco Central e a fixação de um superávit primário em 4,5% foram o sinal inequívoco de que a política econômico-financeira continuaria sem traumas. A virtude ir-se-ia manifestar aos poucos nas relações com os Estados Unidos. O busílis estava na proposta norte-americana de criação da ALCA.    

 

     O Governo Fernando Henrique Cardoso tivera de examinar a proposta e dar opinião sobre ela. Se, inicialmente, a reação fora crítica, mas não excludente, havendo ocasião em que se acenou com uma maior aproximação com a Europa para contrabalançar o peso norte-americano, lentamente foram sendo colocadas restrições que não indicavam rejeição, mas tampouco a aceitação imediata. No Governo Lula da Silva, as restrições se acentuaram e não mais se falou no assunto depois que, em reunião do Mercosul (ao qual ainda não pertencia), Chávez jogou uma pá de cal na ALCA com palavrões que são ou passaram a ser sua marca registrada. Chávez condenava qualquer proposta norte-americana para a América Ibérica. Naquela reunião, porém, Chávez traduziu, sem dúvida alguma, a posição brasileira.    

 

     A virtude continuou se afirmando e a invasão do Iraque permitiu que o “caráter virtuoso” do Governo brasileiro se tornasse evidente.    

 

     Malgrado a atuação do Chanceler Amorim, não devemos perder de vista que Lula da Silva elevou a “diplomacia presidencial” a patamares nem sonhados por Fernando Henrique Cardoso. Não devemos perder de vista, igualmente, que essa “diplomacia presidencial” faz-se apoiada na vontade: a do Presidente ser o condutor do processo (e, alguns diriam, na reedição de um Lula da Silva líder como nos tempos de luta sindical). Esta vontade de liderar transpareceu diversas vezes em discursos presidenciais, nos quais restava clara a tentativa de convencimento de que o Brasil era um líder e esse reconhecimento era reclamado dos vizinhos da América do Sul. Se, com o correr dos dias, esta pretensão à liderança passou a segundo plano no discurso presidencial, permaneceu, no entanto, a caracterizar a ação diplomática do chanceler brasileiro em todos os foros multilaterais, afirmando-se na reunião de Cancun, quando o Brasil liderou (?) a posição do Grupo dos 20, então criado.    

 

     Não se compreenderá o empenho brasileiro para ser reconhecido como interlocutor válido representando a América do Sul ou os países emergentes no plano mundial se não atentarmos para a escolha que o Itamaraty (e, portanto, o Governo como um todo) sempre fez, preferindo os foros multilaterais a qualquer concerto bilateral.    

 

     Nos foros multilaterais, por força da necessidade de afirmar-se a igualdade jurídica dos Estados, a regra da maioria não pode ser respeitada, prevalecendo a do consenso. Ora, a regra do consenso dá a um Estado com peso relativo na comunidade internacional um extraordinário poder. Dele se aproveitou a Diplomacia brasileira, reconhecidamente hábil em negociar e conduzir negociações. A atuação brasileira no Grupo dos 20, no México, projetou o Brasil como Estado cujo “sim” é não só importante, como necessário para a conclusão de qualquer acordo internacional.    

 

     É necessário, porém, atentarmos também para o fato de que essa posição brasileira liderando os 20 Governos que se põem contra os países desenvolvidos − Estados Unidos e União Européia – alterou-se. Em Genebra, no que se esperava fossem as últimas negociações para encerrar a Rodada Doha, o Chanceler Amorim deixou claro que concordava com os Estados Unidos e a Europa, permitindo a conclusão dos entendimentos. Na ocasião, Amorim deu claramente a entender que falava em nome dos 20 e que concluíra o acordo em seu nome. Para surpresa de todos, Argentina e Índia rejeitaram o acordo que os prejudicaria. A partir daí, a Diplomacia brasileira passou a responsabilizar o Governo Obama pela não conclusão da Rodada Doha. Genebra, no entanto, fora um mau passo — inspirado pela vontade de liderar.    

 

     Se Nova Delhi não deu mostras de ressentimento, Buenos Aires deve ter aproveitado o “erro de avaliação” de Amorim para insistir em suas posições que contrariam tudo o que fora assinado em Assunção no tocante ao Mercosul, e coloca o Brasil em posição defensiva.    

 

     Estes são os dados. Resta saber como, apesar de tudo, o prestígio internacional de Lula não está abalado − aparentemente.    

 

    

 

    

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