O prestígio internacional do Presidente Lula da Silva deve ser visto como o resultado de um processo complexo em que se distinguem duas partes: ele e os Chefes de Estado e Governo que o aceitam como um deles. A rigor, as partes são três, como a Gália de César, sendo esta última o mundo mediático em que conexões político-ideológicas, apenas perceptíveis, desempenharam importante papel, construindo para o mundo atlântico-europeu a imagem sem retoques do líder que não hesita em chamar os “grandes” à sua responsabilidade na solução dos graves problemas do mundo pobre − quando não em apontar-lhes a culpa pelo que sucede hoje em dia. Nada melhor para caracterizar esta parte sem contornos definidos do que a idéia de coterie, palavra encontrada no Francês, no Inglês e no Alemão para indicar, como nesse caso, pessoas que, sem ligações formais ou orgânicas, coincidem a respeito de quais líderes políticos são capazes de realizar um ideal difuso que se traduz em organizar o mundo de acordo com o que pensam dele, e procuram conferir a esses líderes uma oportunidade.    

 

     Os chamados líderes mundiais (os que se reúnem no G-8) fizeram sua “escolha” pelos rígidos padrões que guiam a política de poder. Reconheceram que o Brasil, embora não tenha meios militares de projetar poder, é um País importante no jogo diplomático global graças ao seu peso específico (território, população e agora PIB) e à reconhecida habilidade de seus Diplomatas para negociar. A esta qualidade positiva, incontestável, mas que não havia sido bastante no passado para transformar o país em membro do “grupo dos que decidem” − como reclamou certa feita, em Nova York, o então Presidente Fernando Collor de Mello − há que acrescentarem-se outros motivos para a escolha. Fixemo-nos nas razões de alguns Estados , que reputamos válidas até o “incidente Irã”.   

 

     Os Estados Unidos têm necessidade de que um país ao Sul do continente, ainda que retoricamente colocando-se contra algumas de suas políticas, não execute uma política externa que contrarie os interesses do Estado norte-americano. O Brasil pode impedir, assim esperam os planejadores do Departamento de Estado, que o Coronel Chávez faça uma das suas, abalando a segurança interamericana. As razões da França são também de segurança: ela deve garantir a segurança de seu território nacional, que se estende à América do Sul com a Guiana Francesa, “territoire d’outre mèr”. O Brasil, seu vizinho, é quem, para o Palácio do Eliseu, poderá desempenhar o papel de estabilizador no Norte da América do Sul; além de ser um bom mercado e poder vir a ser uma peça importante no jogo francês para reconquistar posições econômicas na América Ibérica que alicercem o poder internacional da França. Para o Governo francês, uma aliança estratégica − que sabe muito a interesses comerciais e econômicos − pode ser a base desta política, mesmo que o Brasil firme acordo para troca de informações militares e de defesa com os Estados Unidos e tenha também se comprometido com uma aliança estratégica com a Espanha. A Rússia conta com o Brasil para incomodar os Estados Unidos. Malogrando em seus avanços, escolheu a Venezuela como parceira, embora não tenha renunciado a fazer do Brasil, pelo peso específico deste, um ponto de apoio para sua pretendida projeção atlântica. Todos os membros do G-8 agem como Henrique IV de França: se Paris valia uma missa, o mercado brasileiro (e, por extensão, o do Mercosul) vale aceitar sem protestos formais as farpas que o Presidente brasileiro mais seu assessor especial para relações internacionais e seu Chanceler (nesta ordem) lançam contra os “grandes”, em especial os Estados Unidos.    

 

     Praticar a política de poder não é o forte do Presidente Lula da Silva. O mundo político é, para ele, um grande espetáculo que não pode parar. Ele é um ser mediático, no sentido de saber a importância que têm os meios de comunicação, brasileiros e estrangeiros, no processo de cooptação dos intelectuais adversários e dos “simples” (como diria Antônio Gramsci). Ele se sabe um grande ator, talvez o mais perfeito e acabado que a política brasileira produziu − e não deseja que o mundo dele se esqueça.   

 

     Trilhou ele um longo e tortuoso caminho para chegar ao reconhecimento (sincero ou hipócrita) dos que dirigem o mundo. Surgiu na cena política brasileira como líder sindical. Dizemos “política” porque sua atividade na liderança do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André foi sempre um ato de hostilidade ao Governo dos Presidentes militares que continuavam buscando o mesmo objetivo da política do Estado Novo (1937-1945), a subordinação dos sindicatos patronais e operários ao Estado. Surgiu como o líder de um novo sindicalismo desvinculado do Governo e, por extensão, dos patrões. A grande imprensa o saudou nesta condição.    

 

     A coterie celebrou a formação do Partido dos Trabalhadores, e Lula da Silva, como seu Presidente, pretendia romper o domínio da política exercido pelas figuras que vinham de antes de 1964 ou se formaram neste período. Os primeiros anos de existência do PT foram assinalados pelo apoio indireto (às vezes direto) que a Igreja Católica, especialmente o Arcebispado de São Paulo, prestou a esse partido, ajudando a criar Comunidades Eclesiais de Base abertamente colocadas contra os Governos militares e indiretamente, mas com muita clareza, contra o sistema capitalista.    

 

     Em seus inícios, o Partido dos Trabalhadores reuniu em seus quadros, além de lideranças sindicais e trabalhadores urbanos, um conjunto heterogêneo composto por professores universitários marxistas ou simplesmente socialistas, antigos militantes socialistas, líderes católicos à esquerda, estudantes universitários que militavam em pequenas organizações de orientação leninista ou trotskista e elementos de uma classe média ideologicamente desorientada. Era um partido que se opunha aos Governos militares, mas insistia em não definir para onde de fato se orientava e onde pretendia chegar. Dizia-se socialista, mas insistia em que o tipo de socialismo que pretendia implantar no Brasil seria definido na práxis cotidiana da política. E deixava que as várias frações que nele existiam se digladiassem para que fosse definido se era um partido de quadros, uma vanguarda leninista-gramscista, ou um partido de massas, social-democrata.    

 

     Em 1982, o ex-líder sindical e Presidente do PT iniciou sua carreira político-eleitoral, sendo candidato ao governo do Estado de São Paulo. Depois, candidatou-se e foi eleito deputado federal para o Congresso-Constituinte convocado pelo Presidente José Sarney. Como constituinte, Lula distinguiu-se por uma definição que fez de seus colegas na Câmara de Deputados que ficou famosa: “Um bando de 300 ladrões”. Elaborada a Constituição de 1988, os deputados do PT, ele inclusive, recusaram-se a assiná-la. A partir de 1989, lançou-se à corrida presidencial. Candidatou-se novamente à Presidência em 1994, 1998 e 2002, quando, então, conseguiu ser eleito, sendo reeleito em 2006.   

 

     Foi uma longa carreira com grande exposição pública. Em 2002, a mídia internacional saudou-o como o operário que vencera todos os preconceitos e prenunciava um Governo voltado para o povo e disposto a resolver o problema do pauperismo em que viviam milhões de brasileiros. É já a partir de 2003, quando assume a Presidência, que ele e seu partido irão trabalhar para construir a imagem internacional de Luis Inácio Lula da Silva, aquele que venceu as classes dominantes.    

 

     Antes de tomar posse em 2002, Lula da Silva anunciou seu programa: fazer que todos os brasileiros pudessem ter três refeições por dia. Na Presidência, lançou o programa Fome Zero, que depois derivou para a Bolsa Família, pelo qual toda família cuja renda seja insuficiente tem direito a uma cesta básica de alimentos e uma pequena quantia em dinheiro para filhos menores desde que estes freqüentem a escola.    

 

     Assegurada a popularidade nacional, vencidas as resistências das classes produtoras e do sistema financeiro nacional e internacional graças à fixação do superávit primário nas contas do Tesouro em 4,5%, garantindo, assim, o resgate dos títulos da dívida interna, sempre renovada, lançou-se pessoalmente à conquista do mundo. É a imagem de Rastignac — o personagem de Balzac que, depois de enterrar o Pai Goriot, olha para a cidade e diz: “E agora, nós, Paris” — a que melhor caracteriza este político. Ele não é o personagem à procura de um autor; é o próprio autor de sua personagem, mutante em muitos aspectos, mas sempre coerente com essa outra, a de Rastignac.        

 

     A Paris de Lula da Silva é o Fórum Econômico Mundial. Em 2003, adentra no teatro do Capital, em Davos. Nada o intimida naquele cenário que o Capital aquece. Enumera seus programas sociais e propõe que se constitua um fundo mundial para erradicar a pobreza e combater a fome. Em 2005, no mesmo local, volta à carga e propõe que o fundo seja constituído por uma porcentagem sobre venda de armas. Não o preocupa que, a escutá-lo, estejam Presidentes de países fornecedores de armas. É em Davos, quebrando o protocolo informal dos representantes e intelectuais ligados ao Capital, que a coterie o projeta como uma liderança internacional: o metalúrgico-Presidente que enfrenta os grandes do mundo e os chama à responsabilidade no combate à fome e à miséria.   

 

     Depois da porcentagem sobre as armas, passa a reivindicar uma porcentagem sobre as passagens aéreas internacionais. Pouco importa o que venham a pensar de suas propostas; o importante é fazê-las, para afirmar-se “diferente” e, na seqüência das “diferenças”, consolidar sua posição de líder internacional. E não apenas de líder internacional — também a de um Presidente de país em desenvolvimento que é capaz de cobrar atitudes dos grandes que se reúnem no G-8, grupo restrito ao qual é convidado a dar opinião e contribuição no estudo dos problemas mundiais. Em 2010, o Fórum Econômico Mundial lhe entrega um prêmio: “Estadista Global”. Não irá recebê-lo, por motivo de saúde. Seu chanceler o representará na cerimônia…  

  

     Quando se observam os caminhos trilhados por Luis Inácio Lula da Silva, caberia perguntar se não o move uma paixão que os gregos chamariam de húbris, que os dicionários definem como “arrogância, orgulho e autoconfiança excessivos”, definição a que se poderia acrescentar o desprezo (melhor que o desconhecimento) pelas formas socialmente consagradas e um insopitável desejo de ser sempre o primeiro, alvo do reconhecimento daqueles que estão em outra classe social e outro nível de poder e até então o desconheciam, quando não desprezavam.   

 

     Na tragédia grega, a húbris cega a razão e o entendimento da realidade. A coterie e os amigos indicam que o objetivo do “Estadista global” é ser Secretário-geral da ONU – ou, conforme notícia chegada de Washington, está pretendendo o prêmio Nobel da Paz. A menos que pretenda ambos.   

 

     É neste ponto que os deuses podem decidir em contrário.    

 

     Se a posição do Brasil na crise de Honduras deixou o Presidente, mas sobretudo seu Chanceler, em má posição que até poderia ser superada, é o “incidente Irã” que começa a embaçar seu brilho. Desde a controvertida eleição no Irã, ele tomou partido de defender o Governo iraniano das críticas dos que apontavam irregularidades no pleito, comparando-os a perdedores em uma partida de futebol. A partir deste episódio, seja movido por húbris ou pelo desejo de fazer negócios que aumentem o prestígio do País e o seu próprio, pessoal, o Presidente Lula da Silva deu alguns passos em falso, pisando a linha vermelha dos interesses do Estado norte-americano. O mais desastrado destes passos foi a oposição a que o Conselho de Segurança vote novas sanções contra a política nuclear do Irã. Nisto ele está acompanhado pela Turquia, sem atentar para o fato de que o Brasil não tem a mesma importância geoestratégica que tem este país.   

 

     O Presidente Obama, pretendendo desfazer a impressão de que os Estados Unidos agem unilateralmente (à moda de Bush), prefere que a votação no Conselho de Segurança seja unânime. O voto contrário do Brasil e da Turquia não impedirá que novas sanções sejam aplicadas contra o Irã, desde que a China não use seu poder de veto. A persistir em sua posição, o Brasil arrisca-se a passar a ser um país que preocupa os estrategistas do Departamento de Estado (para não dizer do Departamento de Defesa) e, mais importante ainda, a ser visto com reservas por todos os países árabes que têm por que temer o regime iraniano.    

 

     Isto por um lado. Por outro, a insistência em defender a política de Cuba no tocante aos direitos humanos contribuirá para abalar o prestígio pessoal do “estadista global” junto a uma boa parte da intelligentsia atlântico-européia − integrante da coterie que o sustentou desde sempre − que ajudou a fazer do metalúrgico-Presidente um líder internacional. Rastignac lançado à conquista da “sua Paris”, talvez Lula da Silva não empreste importância aos ventos que começam a soprar em sentido contrário à marcha encetada pela Diplomacia brasileira há algum tempo para que o Brasil fosse acolhido entre “os que decidem” independentemente ou apesar de quem o governe. O mais grave é que o Presidente brasileiro não atenta a que os Chefes de Estado e de Governo dos “grandes” têm poder de veto na ONU e também o de decidir quais são as amizades e alianças informais que melhor atendem aos interesses nacionais de seus Estados. E que as restrições e as críticas que já começam a aparecer em jornais e revistas especializadas atingem o prestígio internacional não apenas do Presidente Lula da Silva, mas o do Brasil.    

 

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     Post scriptum

     Na cerimônia de formatura dos novos Diplomatas do Itamaraty, havida hoje, dia 20 de abril, o Chanceler da República Federativa do Brasil repetiu-se em declarações visando a atingir diretamente a potência do Norte. Momentos antes, durante a comemoração do Dia do Diplomata, a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco foi entregue à consorte do Presidente, à do Vice-Presidente e à do mesmo Chanceler. Ninguém ali presente se deu conta do quanto a gratuita outorga, a essas senhoras, de tão importante condecoração — a mais elevada comenda com que o Estado brasileiro agracia aqueles que contribuíram com a formulação e a execução da sua Política Externa — destoa dos usos e costumes protocolares e tradicionais da comunidade internacional.   

 

     Não apenas a feira de vaidades em que transita o Governo brasileiro se confirma como confirma-se o ridículo em que ele coloca a Nação brasileira perante as demais Nações, demonstrando um comportamento semelhante ao de uma reles ditadura de um muito atrasado país de terceiro-mundo.

  

    

 

    

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