Eis que, de repente, assistíamos às “jornadas de junho”.

 

      Para muitos, as manifestações apontadas como as “jornadas de junho” passaram a ser um novo marco na análise da crise brasileira. Sem carregar símbolos e desencadeadas sem outros objetivos além da redução de centavos no preço das passagens de transporte urbano, apontou-se, com certa razão, que essas manifestações evidenciaram o descompasso entre a sociedade e o sistema político. Foi assim que toda a classe política as interpretou, inclusive o Planalto. 

 

      Foi preciso que multidões saíssem às ruas aqui e ali, mas especialmente no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, para que se tomasse consciência de que alguma coisa está errada. Não se discutiu o que errado estaria, e nada se fez.

 

      Sendo as manifestações transformadas em “jornadas”, perdeu-se a perspectiva histórica e deixou-se de lado o fato de que, há muito tempo, em algumas eleições, desde a República Risonha e Franca de 1946, o eleitorado tem manifestado sua larga distância do sistema político. Porcentagens de 20% ou bem mais de votos brancos e nulos para as Casas Legislativas, somadas ao fato de a grande maioria dos eleitores não saber, no dia seguinte, em que nomes votou para Senador, Deputado ou Vereador, sempre foram a evidência, se não a prova de que alguma coisa funcionava mal no sistema.

 

      Preocupados apenas com a crise da atual República corporativo-sindical e com a política rastaqüera que é sua marca registrada e nos governa, esquecemo-nos de que há outros fatos que deveriam merecer nossa atenção. Não os situo no plano daquilo que começa a ser chamado de “guerra cultural”. Os fatos a que me refiro, como se repetem aqui e ali, desordenadamente (?), podem indicar a ruptura da solidariedade social e, portanto, até indicar que a Ordem está ameaçada. Por quem?

 

         A ação dos “Black Blocs” chama atenção porque acontece para ser registrada pelas câmaras da reportagem. Ou porque reclama ação repressiva da Polícia. Poucos repórteres fotográficos conseguem fixar o momento em que um ônibus é incendiado ─ mas o fato estará entre as muitas notícias policiais, para retratar o clima de violência em que nos precipitamos aos poucos.

 

      Mais do que os “Black Blocs”, a repetição dos incêndios nos deveria chamar a atenção ─ é ela o que indica que toda a sociedade está em crise, e não apenas a máquina política. E está em uma crise que pode ser terminal, porque os padrões de comportamento e os valores que a conformam já não têm mais validade para muitos grupos sociais em qualquer parte do País. Rompeu-se a solidariedade que, em teoria, deveria manter coesa a sociedade.

 

      Os incêndios costumam acontecer nas periferias das grandes cidades. A causa? Qualquer uma. Uma desapropriação judicial, a repressão de uma manifestação de rua, uma ação contra o narcotráfico, se um jovem morreu ou foi ferido, ao que se diga, por um policial militar ou se foi preso. Para vingar o ocorrido, não se agride apenas um ou mais PMs, mas também um ônibus com passageiros, um caminhão, um carro estacionado ou que passe pelo local da revolta. Em certa ocasião, a PM deteve o acusado de haver assaltado um Policial militar em Campinas. A mãe do detido reuniu um grupo de amigos e pneus foram incendiados, impedindo durante horas o acesso a Viracopos e ao sistema Anhanguera/Bandeirantes. Em uma favela do Rio, uma menina foi ferida, dentro de casa, por uma bala perdida durante um tiroteio entre traficantes. Era preciso reagir! Incendiaram-se a Unidade de Polícia Pacificadora e um ou dois ônibus.

 

      Esses fatos não acontecem apenas em grandes cidades, convocados pelas redes sociais. Registram-se aqui e ali, sem coordenação aparente, se e quando há uma oportunidade para protestar, para que alguém exerça uma vendeta – não para exigir justiça ou lavar a honra (?) do clã.

 

      Curiosamente, não desperta a atenção dos que supõem estar desvendando o sentido das coisas que, apesar de repetirem-se praticamente todos os dias, o alvo preferencial das ações são ônibus que servem à população das periferias e o trânsito em vias que a elas dão acesso. O que, mais curiosamente ainda, faz que a vendeta atinja apenas as populações carentes de transporte, deixando-as mais carentes de transporte! Ou não? Do que se poderia concluir que os que sofrem com a falta de “mobilidade”─ termo que começa a ganhar foros de problema político-urbanístico porque a Copa está aí ─ decidiram prejudicar-se para manifestar sua raiva! Holmes diria ao Dr. Watson que essa conclusão não faz sentido.

 

      Atentemos ao que ocorreu no estado de São Paulo, ônibus e carros sendo incendiados em diferentes cidades praticamente ao mesmo tempo. As autoridades trabalham com a hipótese de que essa ação tenha sido represália do crime organizado em protesto contra bem sucedida operação policial contra o tráfico de drogas. Que tenha sido. E as demais, as ações aparentemente isoladas, “individuais”?

 

      Se a lógica de Holmes corresponde à dos fatos, será possível enquadrar todos os incêndios na hipótese policial? Se for possível, o desafio ao Estado é maior do que pensamos e o Governo parece não ter meios de impedir que os incêndios continuem quando e onde o crime organizado quiser. Contudo, se Holmes estiver errado, a crise é bem maior do que um grande enfrentamento Polícia X Crime. Maior, porque ela é da Sociedade, porque os incêndios indicam, como assinalado de início, que os valores em torno dos quais, como se núcleos fossem, articula-se a solidariedade social já não têm mais o caráter “coercitivo” (Durkheim) que permite a unidade do todo.

 

      Haverá quem imagine que, qual raio em um dia de sol, possa ocorrer um “incêndio geral” que nem todos os governos poderão controlar. E haverá quem aposte nisso.        

 

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 (publicado nesta data em “O Estado de S.Paulo”)

 

 

 

 

  

 

 

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