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      A entrevista que Maria Emília Marchi Badilla, chilena e italiana, membro da quadrilha que seqüestrou Abílio Diniz em 1989, concedeu ao Estado é uma obra-prima de mistificação. Condenada pela prática de crime depois considerado “hediondo”, tendo tido assegurado – como seus cúmplices – direito à defesa sem nenhum constrangimento, declara esperar “que o governo brasileiro repare as injustiças cometidas em nosso caso e atenda aos apelos dos outros países, expulsando-nos”. Essa é a posição que ela e seus cúmplices assumiram desde que decidiram recorrer à chantagem da greve de fome: o Governo brasileiro deve reconhecer que não respeitou os limites da lei, que a condenação por crime de seqüestro foi um erro judicial, que devem ser expulsos e que o seqüestrador brasileiro que se incorporou ao grupo deve ser indultado! Nove anos decorridos desde que o seqüestro foi noticiado, muita gente não se lembra do drama de Abílio Diniz, das circunstâncias em que os seqüestradores o mantiveram em cativeiro à espera do resgate, numa cova cavada no quintal da casa alugada para esse fim, na qual, deitado, mal podia mover-se, sob constante ameaça de morte. Isso, para eles, era “justiça”. Como foi, para as Brigadas Vermelhas, na Itália – e, agora, a sra. Badilla apela a um deputado italiano, na esperança de que o Conselho da Europa faça pressão sobre o Governo brasileiro -, “justiça” seqüestrar e assassinar Aldo Moro. Mas, por incrível que pareça, a chantagem da greve de fome começa a produzir os efeitos visados pelos criminosos.  

 

    O Governo brasileiro ouve, calado, insinuações que em outros tempos repeliria com veemência por serem um claro juízo negativo, de autoridades chilenas, sobre o Judiciário brasileiro. Além disso, os seqüestradores do empresário Abílio Diniz conseguiram aquilo que milhares de presos brasileiros nunca conseguiram: que o Ministro da Justiça os visitasse – assim como o secretário dos Direitos Humanos -, como se estivessem fazendo greve de fome para protestar contra alguma arbitrariedade, ou estivessem presos por determinação da Justiça paulista sem terem cometido qualquer delito! Os presos que se amontoam nas delegacias ou nos presídios, esses não merecem a menor atenção do Ministro Renan Calheiros ou do secretário José Gregori – nem quando as organizações internacionais que zelam pelos direitos humanos denunciam a degradante situação em que se encontram – mesmo os que não cometeram crimes hediondos.  

 

    A verdade é que os seqüestradores já conseguiram uma importante vitória: o Governo brasileiro se julga obrigado a dar satisfações à opinião pública internacional como se estivéssemos num regime fechado e os criminosos fossem vítimas de clamorosa injustiça. Aliás, esse temor do Governo brasileiro pelo que possam vir a pensar da Justiça paulista no caso dos seqüestradores não é de hoje. Tudo começou no Governo Itamar Franco, quando poderoso lobby, tendo à frente a figura do então cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, pressionou o Congresso para que aprovasse o tratado entre Brasil e Canadá que permitiu a troca de prisioneiros – embora não sua expulsão! Agora, os seqüestradores que ainda estão presos no Brasil querem mais. Não se conformam em esperar a aprovação, pelo Congresso, do tratado entre Brasil e Chile que igualmente permite a troca de prisioneiros para que chilenos cumpram no Chile o restante das penas a que foram condenados no Brasil. Querem a expulsão antes da aprovação do tratado, pois assim não terão mais que permanecer presos por um crime hediondo – hediondo aqui, na Itália ou no Chile. E querem, mais, o indulto para seu comparsa brasileiro! E têm amplo e variado apoio para essa nova investida contra a Justiça brasileira. Contam com a reação de algumas ONGs no exterior que infundem medo ao Governo brasileiro de ser acusado de violar direitos humanos. Contam com a audácia insolente de um Ministro chileno, que afirma para todo o mundo que espera receber os seqüestradores chilenos logo e “com vida”. Contam, desde o dia em que foram presos, com a solidariedade do correligionário ideológico d. Paulo Evaristo. E, para surpresa de todos, merecem a visita solícita de d.Cláudio Hummes, arcebispo de São Paulo, que lhes foi levar seu conforto espiritual.  

 

    Numa subversão total de valores, os autores de crime hediondo passaram a merecer tratamento V.I.P.! Os milhares de presos comuns não mereceram a visita de altas autoridades da República.

 

 

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