(palestra  proferida em 10/11/2015 por ocasião do Simpósio Internacional “Segunda Guerra Mundial – 70 anos” organizado pelo Departamento de História da FFLCH-USP)

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      O tema proposto não nos obriga apenas a que o pensemos mantendo sempre, como pano de fundo, os fatores propriamente geopolíticos. Ele também nos obriga a construir o pensamento sobre as relações internacionais sem minimizar a importância da influência dos indivíduos, especialmente os que ocupam posições de poder.

 

      A 2ª Guerra chegou ao fim com os países que se agruparam, mais tarde, na OTAN em evidente desvantagem não só estratégico–militar mas também em desvantagem política. É possível dizer que essa desvantagem foi estabelecida pelo General Eisenhower quando afirmou não teria qualquer importância estratégica a conquista de Berlim pelas forças desses países – os que, depois, formariam a OTAN para contrapor-se ao poder soviético. E, semanas mais tarde, quando não aprovou as idéias de Patton de romper a frente alemã e chegar a Praga para impedir que a URSS libertasse a Tchecoslováquia e afirmasse uma posição hegemônica apoiada na Europa Oriental.  

 

      O mapa marcando a presença da OTAN na Europa foi ditado pela guerra, tendo a URSS evidente superioridade conquistada durante as ofensivas que varreram a Wehrmacht alemã.

 

      A linha estratégica desenvolvida por Stalin a partir de dezembro de 1942 privilegiou a geopolítica, o que levou a que a guerra terminasse com a URSS dominando militar e politicamente Berlim, mais aquilo que ficou depois conhecido como Alemanha Oriental, mais os países que compõem a Europa Oriental.

 

      Quando a guerra termina há, portanto, uma clara superioridade estratégica da URSS, embora esse Estado fosse inferior aos EUA do ponto de vista econômico e ainda não tivesse o poder atômico.

 

      A ofensiva soviética iniciada em dezembro de 1942 não teve por objetivo tão apenas assegurar uma vantagem geoestratégica para a URSS. Sem dúvida, o objetivo foi a construção de uma barreira de Estados entre o que era a Polônia e o território soviético; e, sem dúvida essa preocupação de Stalin com a segurança do território soviético presidiu a formulação do quadro estratégico. Ele estaria incompleto, no entanto, se não pensássemos no Norte político que orientou a formulação da grande estratégia: chegar a Berlim. Assim foi feito, apoiando-se na extensão do território em que se combatia e no ódio que as populações da Europa Oriental nutriam pelos alemães.

 

      Quando a guerra termina, os países ocidentais necessitarão do consentimento soviético para chegar a Berlim, cidade em que as quatro grandes potências vencedoras necessariamente, por motivos antes que mais nada político-estratégicos, deveriam estabelecer um governo de ocupação.

 

      Do ponto de vista estritamente geopolítico, o mundo pós-1945 apresentava uma curiosa configuração. As potências que constituiriam depois a OTAN, para buscar compensar a fragilidade geopolítica do que depois foi conhecido como Ocidente, tinham influência, se não controle, sobre os Estados no espaço que então se chamava Oriente Próximo e Oriente Médio – hoje, tudo isso se chama Oriente Médio; controlavam o Mediterrâneo, mas precisaram disputar com a URSS o controle da Pérsia, e,  no continente europeu, afirmavam sua presença nos países que depois vieram a constituir a Europa dos Seis e deram origem à União Européia que, ainda hoje, não consegue definir e afirmar uma política externa conjunta.

 

      Só conseguiram afirmar essa presença na Europa ocidental neutralizando a ação do que restava da guerrilha antinazista e o resultado da propaganda dos Partidos comunistas.

 

      É uma curiosidade histórica que tenha sido um inglês quem difundiu a idéia da importância do controle de determinados territórios quando se pretende dominar o mundo. E que só com algum atraso a OTAN tenha atentado para o fato de que a URSS controlava o “coração da terra”. Tinha, portanto, a propensão a controlar toda a Terra. Talvez fosse o caso de acusar a Inglaterra do séc. XIX de ser responsável pelo que se poderia chamar de pensamento político duro…

 

      Por ter-se afirmado como governo no decorrer de uma dura luta político-militar e por estar, em suas linhas gerais, mais preocupado com os aspectos de conflito na política do que com os meios ou o processo pelo qual se conquistam adesões, o Partido Comunista russo soube transferir para o plano prático da Política Internacional a importância que tem, para a Política, o esforço voltado à conquista de corações e mentes.

 

      Os Coronéis franceses aprenderam a combater o adversário já aceitando, como alguém terá dito, a idéia de que a guerra na Indochina era uma guerra para conquista de corações e mentes. Aqueles que estavam lutando politicamente em posição de comando militar e, portanto, tinham a responsabilidade de traçar as diretrizes estratégicas do combate, compreenderam com mais facilidade esse processo, que caracteriza tanto a ação política pacífica quanto a bélica – os demais, por sua vez, não alcançaram sequer a compreensão do que seria a Política – de que ela é um conflito. 

 

      Paradoxalmente, essa compreensão de que a Política é conflito – obrigando, portanto, um dos Partidos a oferecer idéias que seduzam o adversário e diminuam sua vontade de lutar -, paradoxalmente, digo, esse fato marcou o pensamento e a ação dos dirigentes das organizações totalitárias do séc. XX e traduziu-se numa frase que se encontra no Mein Kampf – “uma idéia não se combate com uma idéia, combate-se com uma idéia mais a força”.

 

      As linhas gerais do quadro estratégico da oposição entre aquilo que hoje se chama  Ocidente (OTAN + OTASI + Pacto de Bagdá) e a velha Rússia controlando a Ilha do Mundo e se projetando o mais possível sobre o Oriente Médio do petróleo, essas linhas gerais só podem ser compreendidas e, nelas, só poderá ser buscada orientação para uma política externa se tivermos bem claro que, mais do que uma idéia, o importante é nos convencermos de é fato que uma política externa se faz levando-se em consideração os Estados – que têm interesses geopolíticos, econômicos e militares. 

 

      O problema para quem estuda as relações internacionais e examina largos períodos históricos é que a compreensão de que o Estado é o sujeito do processo é dificultada pelo fato de que são os funcionários do Estado, isto é, o Governo quem negocia interesses e posições no mapa econômico e político mundial. Essa circunstância, que é um dado também de fato e não pode ser desprezado, dá, ao Governo que se identifica com o Estado, uma superioridade nas discussões travadas para que ao conflito sucedam momentos de paz supondo-se possível a acomodação pacífica das divergências.

 

      A paz de Vestefália desenhou um mapa da Europa que Napoleão rasgou. No Congresso de Viena (1814/1815) buscou-se recompor aquele mapa, sem que se atentasse ao fato de que a expansão do capital em breve obrigaria as potências imperiais a procurar encontrar, nos campos de batalha, a harmonia perdida. As discussões que levaram à constituição da Sociedade das Nações ilustram o processo pelo qual as potências redesenham a ordem internacional, como se temessem o juízo dos intelectuais que eram formados na condenação da guerra e se dedicavam ao estudo das relações internacionais. É por esse motivo que Wilson convence seus iguais a aceitarem a Paz de Versalhes.

 

      E é desejoso de afastar dos EUA a pecha de imperialista que Truman propõe a Stalin a criação da ONU – que teria a espinhosa e difícil função de assegurar a paz e conter o ímpeto de expansão dos Estados. E é também o desejo de redesenhar a ordem mundial que leva Truman a concordar com Stalin e a aceitar que a nova organização tenha um Conselho de Segurança com membros permanentes e temporários, os primeiros reservando-se o direito de veto.

 

      Os acordos entre EUA e URSS criaram uma ordem mundial caracterizada pela desigualdade de poder e deram, aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, a tarefa de mantê-la regionalmente. O que não impedirá que, algum dia, os interesses de dois desses membros a destruam no plano mundial.

 

      A ordem mundial que se impõe a partir de 1945 tem a orientá-la um novo poder: o átomo. É a potência atômica o que explicará o fato de a ordem criada em 1945 ser substituída em 1949 por uma outra ordem caracterizada pelo equilíbrio entre as potências com capacidade militar atômica.

 

      A partir de 1947, quando enuncia a Doutrina Truman, os EUA se apresentam como defensores de um sistema político nacional interno que se opõe àquele que a URSS veio construindo com auxílio do Exército Vermelho e que seria vendido pela propaganda norte-americana como democracia X ditadura. A desvantagem da democracia era evidente para quem sabe ler mapas.

 

      É preciso ainda que não nos esqueçamos de que a 2ª guerra terminou sem que houvesse um tratado de paz. E de que a própria ONU, ao ser fundada, excluía de seus membros a Alemanha.

 

      A presença da URSS na Europa oriental e sobretudo na Alemanha – especialmente depois da explosão da primeira bomba atômica soviética – perturbou todos os cálculos políticos e levou, depois da Doutrina Truman, ao Plano Marshall, que uma análise objetiva pode considerar como sendo a última tentativa dos EUA de sensibilizar corações e mentes, contendo, ao mesmo tempo, qualquer avanço político da URSS. 

 

      Vem daí a necessidade de os EUA se comprometerem com a Europa na tentativa de impedir a vitória comunista nas eleições de 1948 e, depois, organizando a OTAN.      

 

      É a partir das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki que o raciocínio geopolítico clássico é obrigado a aceitar a dominância do poder militar – sem abrir mão dos elementos tradicionais, de extensão e posição territorial, e daquilo que se considerou sempre como sendo os elementos constitutivos do poder dos Estados.

 

      Se o raciocínio geopolítico clássico ainda podia ser feito tendo-se em vista a presença da URSS e dos EUA na Europa ou no Oriente próximo e depois na Ásia, esse raciocínio não mais poderia desconhecer a nova realidade estratégica criada, orientada e determinada pelo poder atômico. Os Estados à frente dos dois blocos que se constituíram a partir da criação da OTAN e do Pacto de Varsóvia tinham essa realidade bem presente. E submeteram-se à, digamos, rendição ao poder maior com a aceitação, por temporária que fosse, da doutrina estratégica que se resume em destruição mútua assegurada – apelidada de MAD, em inglês – e que traduz muito bem o estado de espírito que orienta a Política internacional: a demência de uma estratégia inspirada pelo poder atômico, que também exige que esse poder seja restrito a alguns poucos que consideram-se, eles mesmos, como os únicos responsáveis pela manutenção da ordem mundial.

 

      A importância do poder atômico na análise das relações internacionais fica ainda mais clara a partir de 1968, data do Tratado de Não-Proliferação e, ao mesmo tempo, um elemento novo no jogo de poder que decreta o fim da guerra fria.

 

      De fato, se mais do que seu poderio atômico, EUA e URSS receiam o aparecimento de terceiros países com poder atômico é porque o importante, para ambos, não é tanto a disputa de pequenos poderes no campo mundial, mas o aparecimento de países considerados irresponsáveis que possam, com seu novo poder atômico, alterar o mapa fixado com a conquista de Berlim em 1945.   

 

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