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     O leilão da Telebrás veio demonstrar que não há mais condições de ressuscitar o espírito nacionalista que, nos anos 50 e sob a Presidência constitucional de Getúlio Vargas, fez que até ponderáveis setores da UDN aderissem ao slogan “o petróleo é nosso” e permitiu que se criasse a Petrobrás e depois a Eletrobrás. Em outras palavras, o nacionalismo e o antiimperialismo já não mobilizam massas. Pode, eventualmente, transferir votos – o que se demonstrará, se não nas próximas pesquisas eleitorais, com certeza em outubro. Não é mais capaz, enquanto palavra de ordem, de comover largas camadas da população urbana, porque, no caso do leilão, as oposições à privatização não foram capazes de demonstrar de maneira cabal que, a curto prazo, a Telebrás seria capaz de atender à demanda reprimida de telefones. Em outras palavras, de satisfazer necessidades de consumo do povo. A privatização, contudo, coloca um problema urgente para o governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso e, por via de conseqüência, para sua candidatura: a agência reguladora do sistema telefônico não poderá permitir que se repita, no caso dos telefones, o que sucedeu com a energia elétrica no Estado do Rio de Janeiro.  

 

    Essa incapacidade de mobilização das massas em torno de teses nacionalistas, por respeitáveis que sejam, em boa medida explica por que bancos, comércio e indústria não conseguem convencer a opinião pública de que se está desnacionalizando a economia brasileira. Como dizia amável leitor, o desenvolvimento das comunicações, da tecnologia e das facilidades concedidas aos fluxos financeiros fez que os centros de decisão deixassem de ser os diretores das transnacionais para ser o mercado global.  

 

    Suas observações, sem a menor dúvida, são inspiradas pela certeza de que o mercado é de fato quem, mais racionalmente – falando em termos de racionalidade de fins e não de valores, para citar Weber -, determina onde alocar recursos. Essa idéia não será contestada por nenhum daqueles que julgam que a economia brasileira corre o perigo de ser desnacionalizada e os centros de decisão transferidos para o exterior. A idéia não será contestada pela simples e boa razão de que os que temem a desnacionalização sustentam, pelo menos de público, que são contra a intervenção do Estado na economia e a volta ao protecionismo. É essa contradição entre a idéia – o mercado é racional ao alocar recursos – e o “ser”, como diria um aprendiz de filósofo – a defesa dos interesses materiais – que não permite que se erga, fora da esquerda, a bandeira da burguesia nacional, como nos anos 50 e começo dos 60. Gramsci diria que a consciência real (os interesses) entra de tal maneira em choque com a consciência verbal (a defesa do mercado) que a ação dos “burgueses nacionais” se paralisa.  

 

    Aliás, antes de prosseguir em sua defesa da permanência dos centros de decisão no País – poucos deles, por sinal, defenderam a Calha Norte ou sustentaram a necessidade do Sivam para garantir a soberania nacional -, os “burgueses nacionais” deveriam responder a uma pergunta, uma apenas: na venda de bancos, supermercados e indústrias a estrangeiros, o comprador encostou o 45 no peito do proprietário e o obrigou a assinar a escritura de venda? Ou a venda se fez porque, enquanto agente econômico racional, o vendedor fez o cálculo de quanto precisaria investir para suportar a concorrência se o comprador adquirisse outro negócio, e de qual seria a rentabilidade de seu capital se continuasse trabalhando ou se tornasse sócio de outro negócio ou simplesmente aplicasse o dinheiro em papéis? Não há notícia, no noticiário policial, de que se tenham vendido negócios sob coação ilegal. Donde se poder concluir que quem vendeu agiu como agente econômico racional e não como defensor da soberania nacional.

 

  

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