DESPEDIDA

04-07-1999

OESP  

 

 

    Por uma dessas estranhas associações de idéias, ao aceder ao convite de Pimenta para escrever este artigo, veio-me à lembrança a angústia do jovem recém-formado pela Faculdade de Filosofia, à procura de emprego, descendo à noite a Ladeira General Carneiro rumo à Rua Barão de Duprat para entregar a Paulo Duarte – que não conhecia, a não ser pela fama de rigor – a reportagem que havia pedido sobre a derrubada das árvores em São Paulo. Era a prova a que o jovem deveria submeter-se para candidatar-se a uma vaga de repórter. Só que o que levava não era uma reportagem; era uma crônica, seguramente mal escrita, pois foi rejeitada e com ela a possibilidade de trabalho.  

 

    Nova cena vem à memória. Mais tarde, em 1952, já na Major Quedinho – para onde a confiança de Lourival Gomes Machado me havia levado -, são a voz e a pessoa de Júlio de Mesquita Filho, em plena redação, irritado porque alguém – que era eu – tinha usado incorretamente uma palavra numa tradução que seria publicada. E há também a lembrança, muitos anos depois, do bilhete amável de Ritter, redator-chefe, falando de uma crônica sobre a visita do General de Gaulle ao Brasil e assinada “De nosso correspondente diplomático” – que era igualmente eu, já então secretário de Redação.  

 

    É dificil falar de quase 50 anos de convivência diária com a notícia e com a visão, que era própria da Casa, de que um bom jornal, para não dizer um grande jornal, se constrói pelos fatos bem apurados e pela notícia correta em seu pormenor. Nesses anos todos, se alguma coisa aprendi e posso transmitir aos que empunham o bastão nesse longo revezamento que já dura mais de século – que é o tempo de vida deste jornal, o “comitê de propaganda”, como diria Gramsci, falando de Crocce e de sua influência sobre a vida intelectual e política na Itália – é que o pormenor, o “detalhe” (que a “caixinha”, que Paulo Duarte tinha deixado, proibia se usasse porque era galicismo), é que faz um grande jornal, e que descuidar dele conduz, inevitavelmente, com o decorrer dos anos, à perda de influência e de prestígio.

 

    Falar desses 50 anos é lembrar Giannino Carta, que me ensinou a trabalhar. O jovem Ruy, zelando pela “República Democrática do Exterior” – que trouxe para o Estado um prêmio da Unesco por sua grande cobertura internacional -, corrigindo todos os dias o noticiário que saía publicado, contratando o professor Salum, da Faculdade, para nos ensinar português. Ou Carlão, zelando para que não houvesse atritos na redação. Ou Julio Neto, com quem trabalhei depois praticamente 30 anos seguidos, fechado, de tudo e de todos sabendo o suficiente, cedendo a contragosto à invasão da redação pelas mulheres, que a redação acabou lhe impondo. Para não dizer Zizo, andando calado noite adentro pela tipografia nas quartas e sextas, para que não caísse a produtividade. Ou Juca, sempre sorriso, duro às vezes, atendendo aos “homens da Casa” com a sabedoria de quem conhecia a vida. Ou os companheiros todos que me sustentaram nas diferentes chefias que exerci. Mas é sobretudo lembrar aquela figura do “solitário de Elsinore”, como ele próprio se chamara em 1945, falando aos formandos da Faculdade de Direito: Julio de Mesquita Filho, e a de seu irmão, Francisco, sempre discreto – e que, depois da morte de Julio, descia todas as tardes à redação para, num gesto de amizade, perguntar o que estava acontecendo no mundo. Mas é lembrar, sobretudo, aquele dia de céu triste em que o “soviet” se instalou na Rua Major Quedinho por obra e graça de dr. Julio, num gesto que definia uma personalidade e marcava um tipo de relação entre uns e outros e fazia do jornal o pilar em que todos nós, nos momentos de tristeza, nos encostávamos para refletir sobre a tranqüilidade e a certeza garantida da vida que a Casa nos transmitia com o rigor profissional que de nós todos exigia, acolhendo-nos por nossos méritos, mesmo que fôssemos de esquerda.  

 

    Era a greve de 1962 – a dos jornalistas, a primeira de que se tinha notícia. As reivindicações tinham sido atendidas pelo Estado antes do início dela. Por isso, continuamos trabalhando durante dois dias, até que no sábado – tamanha era a pressão dos grevistas e sua determinação de impedir a circulação dos caminhões da remessa – os editores decidiram aderir à greve. Eles deliberaram sozinhos, não comprometendo ninguém – e cônscios de que exerciam funções de confiança, decidiram que entrariam em greve, entregando seus cargos. Enquanto deliberavam, toda a família Mesquita se reunia na sala de dr. Julio para, igualmente, deliberar. Decidir, sabendo que metade da edição de domingo, com todos os anúncios classificados, já estava impressa.  

     Vejo a cena até hoje. Eles saem para a redação, e o “velho” diz com voz de comando: ” ‘Seo’ Domingos, reúna a corporação.” Aproximamo-nos, irmanando-nos aos companheiros da gravura, da revisão, da tipografia – poucos, pois metade do jornal estava impressa. Dr. Julio fez um discurso, louvando a ordem e denunciando o fato de o Governo Carvalho Pinto não garantir a liberdade de trabalho. A cada palavra sua, uma após outra, cada um de nós via aproximar-se o momento fatal em que deveria confrontar-se com a Casa. E ele terminou seu discurso, dizendo: “E como esta é a situação, peço aos senhores licença para não trabalhar até que haja garantias para o trabalho.” Foi saudado com uma salva de palmas e a Casa perdeu toda a edição de domingo. Segunda-feira, o TRT julgou a ação e voltamos contentes ao trabalho, a harmonia da Casa não tendo sido quebrada.  

 

    Março de 64 não nos apanhou de surpresa. Foram tempos difíceis, os de 67 em diante, quando Costa e Silva assumiu a Presidência. Especialmente depois da apreensão da edição de 13 de dezembro de 1968, muitas, mas muitas horas antes da edição do Ato Institucional nº 5, que só foi lido pela rádio às 23 horas, quando os censores já estavam na redação sem que nenhum ato legal, mesmo de arbítrio, os autorizasse a tanto – da mesma maneira que apenas a vontade do superintendente da PF em São Paulo tinha determinado a apreensão do jornal.  

 

    Não falarei desses dias, que foram muitos. Direi apenas que deles me ficou a lembrança de uma corporação disposta a tudo fazer para resistir – das direções do Estado e do Jornal da Tarde ao mais humilde dos contínuos. Resistir sem bravatas. Posso dizer, com toda a isenção, que fizemos o jornal mais subversivo – como um promotor militar nos enquadraria na Lei de Segurança Nacional por “propaganda psicológica adversa” – de todo o período militar. A prova disso, tive-a um dia, na Faculdade, já na Cidade Universitária: os alunos haviam colado num quadro negro, de mais de metro de largura, títulos e mais títulos do jornal, todos visados pelo censor, nas oficinas. Parei e li-os. Murmurei um palavrão e disse de mim para comigo: “Que jornal subversivo, estamos fazendo.”  

 

    É esta Casa, de companheiros leais e dedicados, prontos a qualquer sacrifício em defesa da liberdade e da dignidade profissional, que deixo depois de transpor o Cabo das Tormentas. Repetindo, como escrevi quando comemoramos o centenário de Julio de Mesquita Filho, que sua falta será sempre sentida por muitos – especialmente por mim.

  

 

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