Seria o caso de perguntar se as ruas de Paris ficaram lotadas de fiéis que protestavam contra o massacre ocorrido naquela que ficou conhecida como a Noite de São Bartolomeu.

 

      Poucos, hoje, lembrar-se-ão de que as guerras de religião (católicos contra luteranos e calvinistas; luteranos contra calvinistas) só terminaram em 1648 depois da Guerra dos 30 anos. Seria difícil lembrar, mesmo porque os motivos que levaram reis e pretendentes legítimos ou não a ensangüentar a Europa eram diferentes, ainda que fossem claros: matava-se e morria-se para conservar ou conquistar o poder de Estado. O Deus católico ou protestante era invocado para justificar teoricamente o ato criminoso (matar) ─ e seguramente por ser assim é que as lutas religiosas deixaram em cada campo religioso uma herança teórica de primeira grandeza ─ o Jusnaturalismo e a idéia do contrato social.

 

      Foi um passo civilizatório fora de série: podemos morrer ou matar o infiel, mas precisaremos enunciar os fundamentos teóricos da ação que sabemos ser contrária às leis divinas e às leis humanas. Por isso, nossa ação deve ser bem amparada na Teologia ou na Razão.

 

      Hoje, não há preocupação teórica. Ao acordar, diremos “Deus é grande!”, e repetiremos “Deus é grande!” ao apertar o gatilho do fuzil com que mataremos o infiel, quem quer que seja ele, seja qual for o Deus que professe! Não matamos porque queremos o poder para nosso grupo; matamos alguém em nome de Deus porque alguém O ofendeu e ao Seu Profeta. Não é um combate político; no máximo, estamos diante de uma querela a respeito de ídolos.  É sangrenta, mas é tribal.

 

      As 12 mortes em Paris, no meio da semana, foram definidas como barbárie. A guerra, em si, é bárbara? Quem deu o tiro de misericórdia no policial já ferido é um bárbaro ou foi misericordioso? Quem atirou por último sabe que está em uma guerra sem quartel ─ porque, no fundo, combate para que Deus, que é grande, aceite o sangue do infiel como parte da remissão de nossos pecados. Numa guerra travada para redimir pecados individuais e fazer triunfar Deus ─ que é grande! ─ não se buscará uma teoria explicativa das ações pessoais. O mais que conseguiremos é confirmar que a guerra em si é irracional…

 

      Apesar de não ser política, essa guerra tribal exige que o Estado nela se intrometa para garantir a paz civil e a vida de seus súditos. Uma conclusão e uma convicção que não resolvem o problema dos que, supondo viver numa sociedade com Estado, não acreditavam até ontem que referir-se com mau gosto ao Profeta significaria receber uma sentença de morte. Caberão as perguntas: referir-se mal ou ridicularizar? Como informantes ou como combatentes nos engajaremos nessa luta? Ou seremos inocentes úteis no lugar errado no momento errado? Só saberemos um segundo depois que o desconhecido invocar Deus, que é grande! E todas as perguntas levam a uma única conjectura: poderemos ser assassinados!

 

      A Europa, depois, com certeza, os Estados Unidos, são o campo de batalha em que se trava esta guerra. Ela não é feita para o controle do Estado, mas compromete o Estado e todos os seus súditos.

 

      Há outro aspecto dessa guerra que afeta seus combatentes: o Inimigo não é um Estado. A razão de ser do Estado moderno, ocidental, é a laicidade ─ e essa organização laica está sendo intimada pela força das armas a uma guerra que é tribal e religiosa. Guerra que o Inimigo trava como se fosse de guerrilha: o Estado está ausente, ocupamos seu espaço; o Estado existe e avança, recuamos todos, confiantes no ardor religioso de cada combatente.

 

      Não estamos assistindo a um choque de civilizações, como pôde ser anunciado. É bem pior que isso: nada sabemos, ou conhecemos muito pouco da outra civilização. Sabemos que tem uma religião que alguns dizem que prega a violência, enquanto outros vão a seu livro sagrado para provar o contrário. Na sexta-feira, em Paris, os assassinos de Charlie não foram mortos por serem defensores de uma civilização diferente, mas porque mataram franceses e tudo indicava que matariam outros mais se julgassem necessário.

 

      Ninguém nos dirá que ouviu notícias de uma civilização caçando outra em Paris. Ouviremos dizer da Polícia (especial ou não) caçando criminosos confessos e possivelmente reincidentes. Que matam porque Deus é grande. Se não têm sua proteção em todos os momentos, morrem com a certeza íntima de que Ele os receberá em Sua Graça e com a festividade que o Profeta sabe organizar. Se Ele não os protege em toda parte, precisam eliminar a organização dos homens. Contra ela, enfrentam a do Estado, e têm como auxiliar o medo que abate os que temem morrer numa guerra que não lhes pertence.

 

      Agora, que resta? Os Estados (seus governos) vão se reunir para traçar políticas de combate (caça!) a terroristas individuais que se julgam amparados por uma grande organização que, se o Estado for eficiente, na terrorista já se infiltrou. Se, na Rússia czarista não era fácil à Okrana distinguir um russo decembrista ou amigo do povo de um fiel súdito do Czar ─ eram todos russos ─, hoje a Polícia do Estado leva uma vantagem: vigiará imigrantes ou os filhos deles ─ que são fisicamente diferentes da população nativa. O que muda o sentido de caçada: na tribo, o outro é outro porque é fisicamente diferente; fácil de ser localizado e seguido.

 

      O saber ou a disciplina que deve inspirar nossa visão das coisas não é a Antropologia cultural. Na vingança de Maomé contra Charlie, os terroristas ressuscitaram a Antropologia física. Na caçada que virá, os defensores da lei e da ordem não vão cuidar do judeu, tal como se cuidou durante o 3º Reich, mas de um tipo determinado de imigrante ─ nem que, para cumprir sua missão nova, tenham de enterrar os princípios do Estado construído no Ocidente europeu.       

 

 

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 (publicado nesta data em “O Estado de S.Paulo”)

  

 

 

 

 

 

 

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