Ainda que isso, por ordem superior, não esteja entre suas prioridades, o Itamaraty precisa estar atento ao que ocorre em nossa fronteira Norte. Mas também ao que ocorre no Oriente Próximo. É na Síria que se decidirão muitos dos caminhos da Política internacional, na qual o Brasil, queira ou não, será engolfado e dependerá das decisões de três governos – se é que um deles seja de fato um governo: o dos Estados Unidos, o da Rússia e o do autodenominado Estado Islâmico.

 

      Bem vistas as coisas, EUA e Rússia reagirão às situações criadas na Síria e nos países em que são praticados atentados contra a ordem vigente. O que, de certa maneira, faz que Washington e Moscou, independentemente de seu enorme poder militar, tracem suas políticas externas em resposta ou em função do que o EI provocar. E, por sua vez, faz que o Brasil, por sua dependência geopolítica e econômica, tenha sua política externa contaminada.

 

      É bem possível que a ONU decida intervir contornando um confronto aberto onde as necessidades e/ou as vontades russa e norte-americana se defrontarão em um grande movimento geopolítico. Que só não terminará em um conflito armado entre os dois colossos se a ONU conseguir reunir exércitos aptos a evitá-lo. Ou seja, a única alternativa possível é uma “força de paz” capaz de intervir em território sírio e de, com sua presença, evitar contato direto entre o esforço russo de firmar posição nesse território e a intenção norte-americana de impedir que nele a Rússia ganhe influência, espaço e poder – o que será também a intenção de boa parte da Europa. Essa situação e essas intenções estão, como vimos, dependentes das ações do EI.

 

      Exceto por sua posição na Europa e seu armamento atômico, a França é considerada uma potência menor que a Rússia pode namorar, mas sabe que não terá núpcias régias. Apesar das críticas que a ele se fazem porque insiste em dizer que seu país está em guerra, o Presidente francês constrói uma diplomacia com apoio nessa idéia, provocando, ao ser radical, que se movimente a pesada máquina de possíveis acordos quase nunca sonhados. Hollande procura vencer com palavras o fosso que o separa dos EUA e da Rússia. Não é feito atlético insignificante. A França terá importância apenas na medida em que lograr êxito em seu esforço para que a Rússia só aja na Síria de acordo com ela, além de com os EUA e a Inglaterra. A Alemanha e outros Estados europeus ocidentais serão levados a participar dessas bodas que terão a grandeza da causa que leva a França a buscar a solidariedade russa, e se deslumbrarão com tanto esplendor.

 

      Deixando de lado o problema da Venezuela e da Bolívia, o Brasil poderá ser chamado a desempenhar algum papel de relevância na nova ordem mundial que está sendo traçada aos trancos e barrancos pela Rússia e os EUA. Sem que nos esqueçamos da China, que encontrou na fragilidade brasileira terreno propício ao avanço de seu capital financeiro.

 

      O Itamaraty, desta feita em conjunto com o Ministério da Defesa, navegará por águas turvas, mares revoltos, quando não de sargaços. Por sua tradição de intervir em conflitos menores, o Brasil se qualifica como o Estado ideal para capitanear outros que se prestem ao triste papel de sipaios dos grandes: tem muita experiência nas “forças de paz” e tem poder, restrito até agora a seu território. Se bem que, considerando-se a dimensão desse território, deveria estar em sua defesa permanente durante as próximas décadas, mas lhe falta armamento básico, até fuzis modernos, para garantir as fronteiras (pelo menos, assim nos informou o Comandante do Exército). Portanto, embora não corresponda ao que dele dever-se-ia esperar, qualifica-se pelo caráter brando desse poder.

 

      A expressão sipaio – que se refere ao que é um pouco mais que um serviçal, pois empenha a própria vida na defesa dos interesses daquele a quem serve, e traduz uma das mais enganosas situações possíveis – vem da Índia colonial. E pode ser hoje aplicada a Estados independentes, mas subalternos – aos que se mostram satisfeitos com o prestígio que a diplomacia lhes confere e despreocupados com adquirir os instrumentos que lhes permitam passar da posição de um Estado que se sente prestigiado à de gozar de poder real no campo internacional. Observemos a Índia após a independência em 1947. A colônia bem administrada e bem explorada pelos ingleses forneceu para as frentes de batalha na Europa e na África dezenas de milhares de soldados que, nem por isso, foram garantia de que, à República da Índia, já soberana, fosse permitido afirmar-se como poder, a não ser nos textos diplomáticos.

 

      A questão que se coloca à nossa frente, que o Itamaraty deverá resolver, se possível, com a colaboração do Ministério da Defesa, é a seguinte: na atual crise econômica e política que atravessamos por falta de inteligência capaz de prever e apontar causas e soluções, como preservar e transformar o prestígio, com o qual o País sempre contou, em poder de fato. Isto é, em capacidade de intervir conforme seus próprios interesses. Não encontrando resposta a essa questão, o Brasil corre o risco de ser visto pelos grandes, mais uma vez, como um Estado sipaio, fornecedor de mercado e bucha de canhão em alguma emergência.

 

      O que diferencia uma situação de poder de uma situação de apenas prestígio é a capacidade – ou não – de tomar iniciativas independentes das ondas do momento, inclusive das ultrapassadas ondas terceiro-mundistas entre as quais se inclui a chamada “bolivariana”; e, a partir dessas iniciativas, construir, tijolo após tijolo, bem cimentada, uma liderança firme pelo menos regional. O que requer não ter receio de armar-se o suficiente para defesa e não se envergonhar ao ser acusado de pretender ser “hegemônico”…

 

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 (publicado nesta data em “O Estado de S.Paulo”)

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