O quadro eleitoral de São Paulo é rico em lições. A trajetória política de Paulo Skaf evidencia que a Indústria paulista não tem medo do futuro. Ou comprova a tese de Oliveira Viana sobre a desorganização da sociedade brasileira. A aliança PSDB/PSB mostra o que é a Política brasileira do ponto de vista ideológico: “meu pirão primeiro”. É o “Pântano”. E os Mosqueteiros do Rei se lançam contra o Decreto 8.243, enquanto Richelieu comanda o processo.

 

      Não hesitei em formar com os que viram no D8243 a criação de um grande Soviet. Haveria outra explicação? Talvez. Vejamos. No processo russo, os soviets eram criação espontânea que bolchevistas, menchevistas e socialistas-revolucionários tentavam controlar. Se a ação dos nossos Mosqueteiros segue isolada e o desinteresse político da Indústria permite pensar que tudo vai bem, qual o projeto do PT que comove tantos liberais? Por que temê-lo, se os interesses materiais da chamada burguesia estão preservados, se os programas sociais e de participação popular permitiriam que o regime fosse mais democrático? Ainda que teórica, a questão é importante se tomamos como pressuposto que a batalha real que se trava é pela imposição de uma concepção do mundo ou, pelo menos, por um novo tipo de organização política e social.

 

      A imagem que me ocorre é a da retirada da Força Expedicionária Inglesa de Dunquerque, em 1940: primor de improvisação combinada com organização que permitiu que, sem armas, 300 mil soldados fossem recebidos como heróis na Inglaterra ─ o que levou Churchill a dizer: “Não se ganham batalhas com retiradas”. Até hoje discutem-se os motivos que levaram Hitler a ordenar a pausa na ofensiva que teria derrotado o inimigo. O fato é que a ordem de cessar fogo foi dada, e permitiu aos ingleses, na sua ingenuidade, imaginar que a guerra tinha terminado. Alguns desejavam a paz, pois os interesses estavam preservados: a Ilha era inglesa e o Império, também. Churchill, Primeiro Ministro, sabia, porém, que a guerra era entre duas concepções de Civilização.

 

      Para saber qual Dunquerque temos pela frente, a primeira pergunta será: qual o objetivo do PT? O Poder, evidentemente. O Poder, sim, mas, para quê? O Lula da eleição contra Collor já não existe. Ele pode dizer, na convenção do PT, que é preciso combater os oligopólios e o capital espoliador. Seu discurso hoje, como não foi durante seus governos e os quatro anos de Dilma, não é contra a Propriedade. Nem contra o Capital produtivo. Lula e os petistas objetivam o Poder para usufruir das benesses que ele propicia, especialmente o prestígio ─ que lhes permite festejar qualquer coisa como burgueses na Corte de Versalhes ─ e o controle, não sobre a Sociedade, mas sobre os produtores – proprietários e trabalhadores. Os instrumentos legais e financeiros do Governo estão à disposição daqueles que comandam a Política e a Produção. E isso lhes basta como projeto político ─ ainda que para realizá-lo tenham de subverter a ordem em que se criaram.

 

      Voltemos ao D8243 que, mais bem refletindo, é uma ordem de Hitler para parar a ofensiva. Não a de Rommel à frente, mas a dos que após a pregação anterior nas praças e nas escolas, sentem-se com direito a romper as amarras da velha sociedade e sair às ruas… por livre iniciativa, sem organização central, reclamando participação e democracia direta.

 

      Levantar hipóteses e refletir criticamente é fundamental para que possamos    compreender o processo que vivemos, em que a Indústria aceita a sua Dunquerque e os liberais não têm uma grande inteligência que os una em um projeto de Estado Nacional. Esta hipótese que aqui trago é imposta pela observação dos fatos, como ensinava Holmes. Diria que tudo começou com o MST, seguido pela Via Campesina, que nunca foi punida pelos Governadores ou a Justiça. Esses movimentos criaram suas próprias organizações que permanecem incógnitas ─ e ao PT nada coube senão apoiá-los. Sendo-lhes suporte político e intelectual, contribuiu para que uma idéia simples, do século XVIII, a de que o agronegócio é o Mal que destrói a Natureza fosse difundida por certa pedagogia pseudo-anarquista, criando bases emocionais para ações mais ousadas.

 

      Do Campo, a idéia de que a organização não partidária impõe a vontade da massa e faz a democracia chegou rapidamente à Cidade e, aqui e ali, despontaram movimentos sem outro objetivo que “participar”, “fazer” a Democracia Direta, que os “300 sem vergonhas” que Lula denunciara não permitiam ser feita. O PT, desde a constituinte, deu enorme contribuição para a desmoralização do sistema político de que deseja, agora, servir-se, já destruído, para manter-se no poder. Aprendiz de feiticeiro, a representação popular e a democracia direta ameaçam agora o seu poder, especialmente em São Paulo. 

 

      O PT não controla o Passe Livre, nem o Movimento dos sem teto, muito menos os Black Blocks. Será preciso enquadrá-los em uma diretriz de ação única que não antagonize a Propriedade e permita ao Partido continuar sendo o rector do processo e das vantagens conquistadas na batalha de Dunquerque. O D8243 talvez não crie um soviet, mas pretenda apenas controlar os movimentos espontâneos que o PT não consegue dirigir. É instrumento de um projeto de Poder ─ Poder autoritário ─ que corre o risco de ser solapado pelo desejo de participação e de criação da democracia direta pregados pelo próprio PT durante os anos em que esteve longe do Governo.

 

      Dilma sentiu que significa para o Governo a democracia direta ─ recebeu os dirigentes do Passe Livre sem saber que lhes oferecer. Saberá o Secretário Geral reduzir o ímpeto dos que querem realizar aquilo que o PT, com sua propaganda, incentivou e hoje vê como inconveniente?

 

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 (publicado no dia 29 de junho em “O Estado de S.Paulo”)

       

 

 

 

  

 

 

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