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    Vencido o mês, continuaremos preocupados com a crise, pensando economia. Nem poderia ser diferente, dado o tamanho do que nos espera. O risco que se corre, do ponto de vista político-institucional, é perdermos de vista os fatores não econômicos que poderão influenciar negativa ou positivamente nossa vida de modo geral. As pessoas que se preocupam com economia deveriam estar atentas aos “saltos da consciência coletiva”, com as mudanças viscerais do humor das populações, especialmente as urbanas, afetando o processo político com danosas influências sobre a economia.  

 

    Os fatores que influenciam essas mudanças de humor são a soma de pequenas coisas que se vão acumulando e não têm relação alguma com a política nem ligação direta com a economia. Um dia, alguém se cansa da rua não asfaltada, do descaso das autoridades, da arbitrariedade do cavalheiro que se esconde atrás da árvores para multar quem está andando de carro em dia proibido, de chover demais quando deveria fazer sol. Soma tudo isso e se recorda de duas frases que aprendeu com os imigrantes italianos: Piove, governo ladro; m… per m…, marcia reale. E sai à procura dos que, como ele, estão cansados e têm o amargo sentimento de não suportar mais o status quo.  

 

    Para sorte do Governo – pois são os estaduais que têm a obrigação de cuidar em primeiro lugar desses “atletas da consciência coletiva” -, não há partidos que queiram chegar ao poder para impor uma visão do mundo.  

 

    Nem sei se será possível organizar um partido assim. Fukuyiama, o do “fim da História”, disse que a atual crise mundial pode levar ao fascismo, que seria, porém, de curta duração. Não sei se é correta sua outra previsão de que o marxismo não tem mais vez depois do malogro completo do socialismo real – substituído na antiga URSS por um sistema produtivo em que a política predomina sobre a economia. O que sei é que, não havendo um partido que queira impor uma visão do mundo à sociedade, será difícil canalizar a insatisfação e o mau humor. A Igreja e os militares não mais fazem parte daquilo que, 50 anos atrás, eram as “autoridades civis, militares e eclesiásticas”, saudadas em qualquer cerimônia mais ou menos oficial. A esquerda brasileira ou se perdeu no cretinismo parlamentar ou vive sonhando com o Manifesto de 1848, quando não com a Albânia de Hodja, o Farol da Humanidade, ou a China de Mao, o Grande Timoneiro. Na universidade, os alunos – que foram esperança de renovação antioligárquica há muitas décadas – querem saber onde encontrar um emprego. Os professores preocupam-se em publicar para garantir seu lugar no rol dos produtivos. Sendo assim, quando houver o salto da consciência coletiva, será como o estouro da boiada. Esgotadas as forças do estouro, o Governo federal sairá triunfante, pois a ordem se restabeleceu e ele não terá tido culpa alguma pelo que aconteceu.  

 

    Com o perdão da expressão feia, se houvesse vontade política, talvez se pudesse alterar esse panorama – que pode estar errado como qualquer exercício de futurologia. Vencido outubro, seguramente haverá quem comece a pensar como será a primeira eleição presidencial no século 21. É um tema fascinante: quem será o primeiro Presidente do terceiro milênio? E garanto que a falta de assunto – o único que existe é a crise – mais o próximo fim do milênio ensejarão a que se preencham páginas.  

 

    Mais modestamente, preferiria pensar no aqui e agora. Antes de o milênio terminar, haverá eleições para Prefeito. Um governador de Estado que não goste do Presidente incomodará muita gente; um governador e um Prefeito de capital importante incomodarão muito mais antes que o século acabe. Vale a pena pensar nisso?

 

  

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