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     A perda da hegemonia de parte do grupo que fundou a Universidade de São Paulo e a Faculdade de Filosofia não significou que o ensino privado tivesse ocupado espaços. Talvez os tenha preenchido quantitativamente – como de fato o fez ao longo dos anos. Nunca, porém, os mantenedores das diferentes faculdades, depois universidades, tiveram a preocupação de construir uma especial visão do mundo, específica do ensino privado. Não se preocuparam por algumas razões: em primeiro lugar, porque os fundadores tinham erguido uma bandeira que apenas as escolas confessionais poderiam contestar: ensino laico e espírito crítico; em segundo lugar, porque os mantenedores, ao contrário dos fundadores, não pertenciam àquilo que se pode chamar de “coterie”, um grupo ligado não apenas por relações de amizade, mas por iguais experiências de vida, educação e cultura.

 

    Os mantenedores vinham dos mais variados grupos sociais e muitas vezes não mantinham relações pessoais entre eles, afora as formais nos sindicatos. Em terceiro lugar , porque os mesmos fatores demográficos, as mesmas mudanças na sociedade que haviam feito que os fundadores perdessem sua hegemonia impediram que os mantenedores construíssem a sua. Finalmente, porque a visão do mundo que os inspirava era, sobretudo, argentária – vil, como diria um filósofo neo-hegeliano.  

 

    Com o passar dos anos, apagando-se a influência dos fundadores,simplesmente se consolidaram os efeitos de todos os fatores negativos que impediam o ensino privado de ocupar, qualitativamente, o lugar que lhe corresponderia pela quantidade. O ensino confessional não teve a inspirá-lo a chama hegemônica de Santo Inácio – “Do rei e da educação do rei”, como rezava o título de famosa obra de um jesuíta, séculos antes. O resultado é que chegamos, hoje, onde estamos: ninguém mais se preocupa em “educar o rei”, os grupos dominantes na política e na sociedade. Espanta, assim, que um pequeno grupo, que tem como proposta hegemônica a sua leitura enviesada de Gramsci, empalme o poder e não tenha quem se lhe contraponha?  

 

    Os fatores sociais que conspiram contra a supremacia do ensino público são, como diria um filósofo liberal, da ordem de grandeza de quatro algarismos. O que significa que será difícil, se não impossível, falar n’Isto e não n’Aquilo. Na medida, porém, em que fui formado em escolas de pensamento que buscavam encontrar sempre um ou poucos fatores condicionantes, não posso furtar-me a buscá-los nesta viagem pelo passado. As “mudanças no meio social interno” – das quais, como referi no último artigo, a eleição de Vargas como senador por São Paulo, em 1945, é o exemplo, é um deles. O outro, é que a urbanização de São Paulo, depois sua industrialização e finalmente sua esclerose como fenômeno urbano se deram a partir do momento em que o Estado getulista, o projeto castilhista-borgista mesclado de nacionalismo-protecionista, se impôs politicamente com o Estado Novo e, depois dele, com a perpetuidade das instituições fundamentais que ele havia criado: o atrelar dos sindicatos ao Estado e o protecionismo industrial, para não dizer o populismo trabalhista. Esses dados institucionais são importantes porque criaram um quadro – inconsciente ao nível coletivo – em que grupo social algum, dominante ou não, tinha razões para esforçar-se para buscar forjar uma visão do mundo que rompesse um statu quo que era altamente favorável a muitos do ponto de vista vil. Boa parte da crise que se verifica em Pesquisa e Desenvolvimento vem daí – por que investir se sou protegido, ou então posso fazer uma associação vantajosa com quem me dará uma tecnologia já ultrapassada, que no entanto me fará ser o melhor aqui dentro?  

 

    Apenas os “iluminados”, os fundadores, seriam capazes de compreender a importância e a necessidade de levar às últimas conseqüências sociais e políticas o que a fundação da Universidade e da Faculdade de Filosofia trouxera em germe. O problema é que eles tinham sido vencidos em 1937 e, em 1945, quando puderam voltar, o meio social interno se tinha transformado de tal maneira que apenas puderam continuar sua luta, mas já sem poder contar com os apoios sociais que lhes permitiram ter a hegemonia até o Estado Novo -apenas em São Paulo, sejamos claros.

  

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