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     Vencida militarmente a Revolução de 30, e promovido de Coronel a General de divisão (então o posto mais alto no Exército) o General Góes Monteiro escreveu um pequeno livro sobre a missão política do Exército. Ele insistia na diferença entre o “do” e o “no”, lançando as sementes do que declararia depois, em 1936, quando criticou o Governo por pretender punir, enquanto Governo, os oficiais que haviam participado da Intentona de 1935. Para ele, o Governo deveria cuidar dos civis; do Exército, cuidava o Exército. Mas voltemos ao livro escrito pouco depois da revolução vitoriosa. O que impressiona os que o lêem hoje, vencida a fase mais crítica das relações entre Argentina e Brasil, é que Góes não via possibilidade de haver mais guerras. Possivelmente acreditasse na capacidade da Sociedade das Nações de conjurar perigo no grande plano internacional – no que sua visão de estrategista estava errada. À medida que se prossegue na leitura vê-se, no entanto, que não era apenas a SDN que ele tinha em mente; dava como certa que a época das guerras estava terminada, tanto assim que era preciso encontrar uma missão para o Exército. Essa era, para ele, simplesmente, a ocupação do território nacional e a preparação do País para a eventualidade da mobilização.  

 

    Não se procure coerência completa nessas idéias; ele não se preocupava com a lógica, mas com a corporação. E com o que fazer dela já que guerra não mais haveria. Entre parênteses, a posição de Góes e a evolução da doutrina militar brasileira dariam um grande estudo: onde (seria na Missão Francesa?) foi buscar a idéia de que o Exército deveria ocupar o território; por que, sendo evidente para ele – e seguramente para muitos outros – que guerras não mais haveria, a doutrina militar privilegiou a hipótese de guerra no Sul?  

 

    O que é interessante a assinalar no estudo de Góes é a missão que ele atribue ao Exército, que não tem mais guerras pela frente, mas deve cuidar de tudo aquilo que diz respeito à mobilização. Não houve, não hesito em dizê-lo, teórico da Geopolítica ou defensor do regime instalado em 1964 que chegasse ao extremo a que chegou aquele a quem sempre chamei de “intelectual do Partido Fardado”.

 

    Onde chegou? Simplesmente num ponto sem retorno: ao Exército, como missão, interessa tudo aquilo que diz respeito à sua mobilização: educação, saúde, transportes, indústria, etc, etc. Ou seja, era missão do Exército cuidar de que esses temas fossem resolvidos tendo em vista a mobilização – o momento em que os cidadãos seriam chamados a combater. Não se poderia ter uma mobilização eficiente se o cidadão não fosse educado – e educado no culto da Pátria -, não tivesse saúde e a indústria e os transportes não fossem capazes de atender às necessidades do Exército.Em 1946, respondendo num texto pungente a uma carta de Sobral Pinto, ele alinha uma série de autores (muitos filósofos, alguns homens de ação) que fizeram fama; Gramsci não estava entre eles, nem poderia ter estado.  

 

    Mas, seguramente, a missão que ele atribuía ao Exército, em 1931, era a do “Novo Príncipe”, a de um partido capaz de aglutinar, mediante disciplina, todo o País.  

 

    Resumidas razões, ele cuidava da Defesa Nacional, potenciando a equação Defesa Nacional igual a Forças Armadas. Dava à Defesa Nacional, porém, um sentido diverso daquele que resulta da primeira leitura da equação: se o cidadão deve estar preparado para a mobilização – educado, assistido e equipado – a Defesa Nacional não é apenas um problema militar, como pensamos hoje. É, no fundo, a preparação do País para a eventualidade – que seguramente não virá a se apresentar – de ter de defender o Estado (que para ele se confundia com a higidez da Pátria) contra seus inimigos.

 

  

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