GUERRA CIVIL

06-11-2012

 

 

 

 

     Enquanto 1. os políticos e boa parte dos comentaristas políticos se esmeram em procurar compreender o resultado das eleições municipais e buscam saber quem será candidato em 2013; 2. os adversários intransigentes do PT e dos Governos Lula e Dilma gastam humor e horas de criação via Internet para manifestar seu profundo desagrado e, às vezes, sua ira; 3. os economistas estudam os dados para prever quando virá a crise das contas-correntes da balança de pagamentos, se não a crise cambial − enquanto perde-se tempo com coisas grandes, mas menores, as nuvens no horizonte já não prenunciam a tempestade. Ela já caiu, forte. A crise do Estado aí está sob sua pior forma: um ensaio de guerra civil.

 

     A tempestade formou-se aos poucos, tão devagar − embora visível − que dela foram poucos os que se aperceberam. Os Governos, não!

 

     Ela era visível desde o instante em que os banqueiros do jogo do bicho aliaram-se ao tráfico de drogas (ou tornaram-se os próprios financiadores). As nuvens só começaram a preocupar quando, para as autoridades, a ocupação das favelas no Rio de Janeiro pelo tráfico se tornou insuportável. Por outro lado, preocupadas com o diminuir o número de homicídios nas ruas e escudados na Federação (que os políticos mais inteligentes sabem morta), os Governos estaduais pouca importância deram ao fato de o tráfico dominar favelas e bairros nas capitais, substituindo-os no atendimento de necessidades corriqueiras da população que passou a viver com medo. A segurança da vida, é importante registrar, tornou-se a moeda de troca do tráfico em todos os territórios que ele ocupou: o silêncio passou a ser a garantia da existência. Em pouco tempo, a lei mafiosa da omertà passou a ser a lei vigente e contra ela pouco fizeram as autoridades aqui e ali. Ausente o Governo, o tráfico passou a ser, ele próprio, o Governo de fato.

 

     Levou-se tempo para perceber que a ocupação de territórios em diferentes partes do país era a garantia de que necessitavam os barões do tráfico para continuar dando ordens. E a ocupação dos morros no Rio de Janeiro foi de muito pouca utilidade para a Inteligência do Estado.

 

     Depois, vieram os ataques a bancos. Não mais os assaltos que, nos anos 60 a 80, foram marca registrada do terrorismo dito a serviço da democracia. Agora, não se procura, com risco, apoderar-se do dinheiro em caixa nas agências bancárias. A arma usada não é mais o revolver e a intimidação dos clientes e funcionários dos bancos, mas a dinamite, que se usa para explodir caixas eletrônicos de madrugada. Agora também matam-se PMs e, sinal da mudança de qualidade das ações, bombardeiam-se quartéis da PM não em São Paulo ou no Rio de Janeiro, mas em Minas Gerais.

 

     A quantidade, diziam alguns filósofos, altera a qualidade.

 

     A primeira coisa a observar é que os inimigos do Estado venceram as primeiras batalhas. No Rio de Janeiro, os chefes do tráfico fugiram (ou apenas saíram) dos morros ao ser anunciado o dia em que estes seriam ocupados. Uns foram para outros morros; outros, vieram para São Paulo e talvez tenham ido para Belo Horizonte. O elemento surpresa, uma das condições da possível vitória na batalha, desapareceu no instante em eles souberam quando e por quem os morros seriam ocupados. Mas, antes, onde quer que estivessem presos, os barões do tráfico já haviam ganhado outra batalha, que é a da comunicação. Dos presídios, comandam por telefones celulares ações nas cidades sem que o Governo tenha tecnologia bastante para interceptar as ligações. Tecnologia existe, porém – simplesmente custa caro e será preciso fazer uma licitação ou concorrência para escolher quem vai fornecê-la. Existe também a revista para impedir a entrada dos telefones nas prisões. Mas eles continuam entrando. Os ataques a dinamite continuam, embora seja fácil (sem necessidade de concorrência pública) fiscalizar pedreiras e obras civis em que se usa o explosivo. Não se sabe por que, a dinamite continua a ser usada, cada vez mais. Em suma, tendo desprezado o elemento surpresa e perdido as batalhas da comunicação, da tecnologia e da Inteligência (essa, sobretudo), o Governo central assiste impassível a guerra civil grassar nos estados − perdão, os Governadores dos estados, escudados na autonomia estadual, resistem a que a União lhes preste serviços, com medo de que isso influa nas eleições de 2013.

 

     A guerra civil do crime organizado contra o Estado é apenas parte da tempestade que podemos ver. Há outras nuvens que se adensam − e talvez a tempestade inteira que prenunciam seja ainda mais danosa para as instituições.

 

     Uma fração do PT colocou-se frontalmente contra as decisões do Supremo Tribunal Federal no caso do “mensalão”. Antes, havia vencido uma refrega na guerra de comunicações ao insistir (sendo atendida pelas pessoas de boa cultura e prestígio) em que não se usasse essa expressão maldita, mas sim o número da ação que corria no STF. Em seguida, pretendeu fazer crer que os Ministros da Suprema Corte votaram sob pressão política, da Imprensa e de parte da opinião pública manipulada pelos órgãos de comunicação. Agora, anuncia que as prioridades do Partido são a “regulação da mídia” e a “desconstrução da farsa do mensalão”. Que o PT tenha feito pressão sobre o STF, enviando manifesto de centenas de assinaturas em defesa de José Dirceu, pouco importa. Não seria pressão. O importante a observar é que esses petistas procuram fazer crer que a condenação dos “mensaleiros” é a condenação do Governo Lula e do Governo Dilma. Esperam, assim, aumentar o número dos que não acreditam no Supremo Tribunal Federal nem na Justiça brasileira. Com que fim? Um único: ganhar mais uma batalha contra o Estado.

 

     Há mais, porém: há os que, condenados, anunciam que irão recorrer à Corte Interamericana de Direitos Humanos, alegando que lhes foi negado o direito de defesa, já que sua condenação foi determinada por apenas uma instância judiciária quando os direitos humanos exigem que se dê em duas instâncias para poder ser eficaz. Riam-se da pretensão os que queiram rir. A Corte Interamericana já condenou a Venezuela em caso idêntico. Se decidir em favor dos requerentes, estará aberta uma crise entre o Estado Brasileiro e a Corte, vale dizer, a OEA. Crise de bom tamanho…

 

     Último, mas não final: há os que, louvando-se em sua negritude afirmada, incitam o ódio racial contra o Ministro Joaquim Barbosa, relator, negro ele também, a quem acusam de submissão aos que mandam nesta sociedade racista, e advertem de que Barbosa será abandonado pelos que são, dizem eles, uma minoria oprimida. É, por enquanto, uma pequena nuvem no horizonte. Que poderá unir-se à tempestade se não prestarmos atenção para o fato de que essas minorias são insufladas e apoiadas por quantos, na Europa e nos Estados Unidos, lutam pela desintegração da sociedade brasileira.

 

 

 

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