O panorama político-diplomático será marcado nos próximos meses pela visita de Dilma aos EUA.

 

      Analistas procurarão encontrar elementos que justifiquem essa visita e, mesmo não tendo a intenção de fazê-lo, procurarão apontar a quem ela mais beneficiará. Até agora uma ou outra análise indica que a presidente Dilma e o Brasil serão os grandes beneficiados pelo restabelecimento da normalidade diplomática entre os dois países.

 

      Sendo um encontro de chefes de Estado de grandes potências regionais, seria natural que o Departamento de Estado oferecesse a Obama uma previsão de como se daria a conversa. É sobre essa previsão que o Departamento de Estado estará efetivamente debruçado, e oferecerá um esboço o mais possível perfeito do comportamento da Presidente brasileira, um quadro o mais detalhado possível do que os EUA podem esperar do encontro. Imagine-se um documento de trabalho indicando algumas possibilidades de ação e reação de Dilma.

 

      O retrato traçado seria mais ou menos assim: apesar da preeminência de Dilma no processo político brasileiro, não se pode dizer com certeza que ela é de fato a líder desse processo. Encontra-se em posição frágil, atribuída a diferentes fatores, o primeiro dos quais é o caráter, a personalidade dela mesma, a maneira como a presidente enfrenta eventuais desafios. Isso se agrava pelo fato de que o affaire Petrobrás não só abalou seu prestígio como sua própria confiança na condução dos negócios públicos, o que justifica a interferência ostensiva do ex-presidente Lula. Essa interferência poderá contribuir para uma aproximação mais calorosa, embora o comportamento de Lula sempre será visto com muita reserva. O Departamento de Estado não deixará de incluir ainda, em seu aide-mémoire, uma referência ao fato de o maior partido de Oposição atribuir responsabilidade de Lula na crise aberta pelas notícias de corrupção, e ao empenho do presidente do PSDB em que se apontem os responsáveis pela situação caótica da Petrobrás.

 

      A pauta das conversações é até agora desconhecida, mas incluirá necessariamente as relações entre EUA e Venezuela, se não também incluir Cuba. E há um elemento psicológico importante a ser considerado para o qual muitos analistas brasileiros chamam atenção – o pequeno interesse de Dilma pelas relações internacionais. A confirmar-se, Obama terá diante de si um interlocutor atento às vantagens consulares e econômicas que possa obter, mas que não se preocupará com conquistar.

 

      Caso não conduzirem a resultados positivos, Dilma poderá atribuir o malogro das conversações e as dificuldades em cimentar boas relações à ação daqueles que desejam impedir uma substancial melhora nas relações Brasil X EUA para abalar ainda mais a sua posição política como presidente, já fragilizada pelos escândalos que envolvem o seu Partido; ou à crise econômica e política que atinge o mundo ocidental; ou à má vontade da própria potência do Norte.

 

      O Departamento de Estado também chamará a atenção de Obama para a necessidade brasileira de empréstimos internacionais para cobrir os rombos na contabilidade da Petrobrás, cujos programas de exploração do pré-sal podem ser colocados em risco pela falta de capital de investimento.

 

      Antes mesmo de que se iniciem as negociações com Obama, a China começa a despontar como o Estado capaz de auxiliar o Brasil a vencer a fase mais difícil da sua crise atual e concedeu vultosos empréstimos, seja para a Petrobrás seja para os programas de infra-estrutura. O que é importante saber – e não será fácil a Obama descobrir – é em que medida essa aproximação econômico-financeira do Brasil com a China retirará dos brasileiros o pouco que lhes resta de iniciativa no plano internacional.

 

      A China hoje é um parceiro tão importante na política externa brasileira quanto os EUA. Obama deverá ter consciência de que os empréstimos oferecidos ao Brasil no “mercado” chinês têm um sentido geopolítico da maior relevância. Por muito menos os EUA declararam que a política interna da Venezuela afetava a segurança dos EUA. Não só isso: esses empréstimos poderiam ter sido obtidos junto ao Banco Internacional criado pelos BRICS. Não tendo assim ocorrido, ao amarrar-se o progresso brasileiro à boa vontade chinesa, o Brasil corre o risco de perder espaço – se é que já não perdeu – entre as potências que aspiram a ser consideradas grandes.

 

      Restará saber se aqueles que decidem sobre a política externa norte-americana considerarão o apoio chinês ao Governo Dilma como uma ameaça velada à segurança dos EUA. E especular até que ponto fortalecerão a posição dos chamados bolivarianos e atingirão o cerne da política externa norte-americana, que se resume em documento aprovado pelo Congresso dos EUA em 1811 – a resolução da não-transferência, pela qual se comunicava aos que tinham pretensões de independência na América espanhola que a política norte-americana repousava em três elementos que o Congresso considerava fundamentais: segurança, tranqüilidade e comércio.

 

      A rigor, os EUA não têm pela frente o tesouro chinês repleto de dólares. Têm todo o sistema econômico chinês, que já deslocou o Brasil da posição anterior no comércio internacional da China e é o lastro para os acordos comerciais futuros com outros países da região. Obama lembrar-se-á de que os acordos comerciais entre os chineses e a Argentina estão baseados em empréstimos que a China concedeu ao nosso vizinho, evitando sua bancarrota.

 

      São acordos que começam a preocupar seriamente os industriais argentinos. E também aqueles todos que temem que, na construção de obras de infra-estrutura, a China não só empregue material e tecnologia, como traga sua mão de obra.

 

      Esse problema também deveria preocupar Brasília. A visita de Dilma a Obama não o resolverá.

 

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 (publicado no dia 26 de Maio em “O Estado de S.Paulo”)

 

 

 

 

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