Oliveiros S. Ferreira

Publicado em 14 de maio de 1972, sempre tive este artigo como uma profissão de fé. Possivelmente não tão clara quanto uma cerimônia religiosa de confirmação, mas ainda assim uma profissão de fé. Trinta anos depois, não há por que buscar mudar o clima de tristeza com que o escrevi. Ainda continua sendo, para mim, a mesma profissão de fé. – Oliveiros S. Ferreira

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     Ao erguer os olhos para os céus de Interlagos, a alguns quilómetros de Arembepe, mergulhei no universo concentracionário: à distância de um golpe de vista, erguidas como de parede-e-meia com a praia, as chaminés fumegavam dia e noite na afirmação impessoal do progresso que chegara até ali. Àquela fábrica imensa, fonte de alguns empregos numa região faminta deles, a qual jogava suas luzes contra a escuridão da noite e fazia fugir o luar, dei instintivamente o nome do campo de morte — pois de morte cultural e humana se tratava: Auschwitz.

 

     Não é só à beira-mar que a civilização persegue o que ainda resta de expressão de cultura neste país tão escasso dela. Chegue-se à cidade da Salvador e espante-se diante do que a civilização ou alguém em nome do progresso vai realizando, fria e calculadamente, com o aplauso generalizado dos que têm a ganhar e o silêncio dos que nada sabem sobre o que estão a perder. A paisagem colonial e imperial modifica-se a cada dia: a cada projeto aprovado, são casas que dão lugar a ruas, becos que se transformam em avenidas, ou dez ou mais andares que se erguem sem que conservar o passado preocupe o Estado, ou que o proprietário ou o arquiteto busque saber como poderão viver aqueles pobres ricos-homens, que irão morar no símbolo de concreto da ascensão social, ou da miséria compartida, habitantes da afirmação civilizatória que tomou conta do Brasil.

 

     O Pelourinho, que se restaura para o turismo, é o que restará, juntamente com as igrejas, algumas já vencidas pelo tempo, de São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Porque o resto — que não é a urbe dos prefeitos e dos governadores, mas a cidade da história e da cultura que não se renovam mais — vai desaparecer.

 

     Não se irritem os baianos se falo assim de sua cidade, toda ela cor e alegria. Aquilo que soa como um vaticínio pessimista já é uma realidade triste para muitos dos residentes, os que ainda procuram um lugar calmo para trabalhar e meditar, gozando das criações regionais de cultura. Lentamente, graças aos programas nacionais de radio e TV, o Brasil vai-se igualando todo inteiro na mediocridade mais das proposições intelectuais do que propriamente dos talentos, e na insipidez destes costumes e desta fala fria, impessoal, urbana e categórica que é própria do Sul-Sudeste industrial.

 

     Os homens de pensamento, com pretensões a dirigir intelectual e culturalmente a Nação, deveriam ter presente que a Federação não é apenas um fato político e constitucional, para não dizer administrativo. Ela é isso, porque antes de sê-lo é outra coisa — a diversidade dos costumes, a terra que se amanha de modo diferente, a mulher que se ama com mais veneração ou mais amor, o prestígio que advém das letras ou do dinheiro amealhado, o poder que se recebe ou se conquista, a honra, exigência do grupo para que se jogue a existência ou permissão para que tudo termine na mera frase de efeito. Foi sobre essas variadas formas de reger a vida que os homens organizaram as diferentes maneiras de se dominar uns aos outros — e foi quando se procurou estabelecer a uniformidade, desprezando-se a diversidade, que a Federação política sucumbiu. Na história das formas sociais, os ciclos vitais são diversos dos que observamos nas formas orgânicas: primeiro deve morrer a conseqüência para que sobre o choro das carpideiras lentamente se processe a mutação das causas, até que um dia tudo venha a ser a mesma coisa.

 

     Não sou um saudosista da Federação. Da política, pelo menos. Politicamente, sempre fui unitário, não por convicção ideológica, mas por reflexão — porque nossa História, salvo o interregno da Primeira República, sempre foi vocação de Estado unitário. Mas uma coisa é reconhecer racionalmente que o Estado unitário é a única forma de organização política capaz de realizar as tarefas implícitas na geografia e reclamadas pela economia, e outra é aceitar passivamente que se aniquilem as diversidades regionais em nome da unidade; que em nome da civilização se destrua a cultura, e que em nome da Moda, esta falsa deusa adorada em efígie nos alcoices, o amor se faça sempre o mesmo, isto é, prostituído, por toda a parte.

 

     Na solidão de Interlagos e no bulício de Salvador, dei-me conta de que a consciência ativa dos que influem ainda não se capacitou, coletivamente, de que estamos construindo um imenso país literalmente para ninguém. Entre o mar e a nova Auschwitz, compreendi que, na euforia do crescimento e na compulsão de que é preciso crescer depressa, não fomos capazes de distinguir entre duas coisas essenciais: uma, o desejo e a necessidade de crescer; outra, o destino que nos espera desde que fizemos do PIB o padrão de todas as coisas, e do êxito o critério de verdade de uma política.

 

     Se a imagem não parecesse banal, diria que vendemos a alma ao diabo — governantes e governados, adesistas e subversivos, procônsules e antístites. É verdade que ninguém se atreve — por recato e por recear que se recorde a má origem da expressão — a afirmar que a cultura deve morrer. Mas o fato é que a afogamos, como a literatura nos diz que fazia Ricardo III a seus ternos inimigos, nos tonéis dos melhores vinhos, e comprovamos a cada ato nosso que realmente acreditamos que Deus morreu, porque a tudo nos permitimos.

 

     Aos que clamam aos céus, com fome e sede de justiça, nossa consciência se consola com acenar com o pão e a água; e aos que sofrem as afrontas dos opressores e os atrasos da Justiça, respondemos com os progressos econômicos alcançados, quando não nomeamos uma comissão de alto nível para estudar as maneiras de equacionar os problemas. Nem sequer nos demos conta de que os números que atualmente cultuamos em breve nos sufocarão — e de que os zeros que acrescentamos à direita de cada brasileiro que nasce e que constituem, eles, os zeros, motivo de nosso orgulho e razão de nossa força, farão que amanhã os homens venham cobrar aquilo que não lhes demos e que Rousseau, singelamente, chamava de Virtude. E no culto da civilização, nos esquecemos de profecia do Cidadão de Genebra: “Nunca se viu, porém, um povo que se tenha corrompido, voltar à virtude”.

 

     Não se procure, aqui, mais do que está. Se se quiser ver mais, olhe-se lá fora e atente-se para as cidades que permitimos se construam, e por um momento, um único que seja, ouçamos o clamor humano que tenta vencer o caos em que as cidades se transformaram. E ao senti-lo, talvez compreendamos que estamos secos interiormente, ensimesmados na solidariedade do asfalto, e talvez descubramos que não mais nos comovemos quando uma criança chora, transida de fome, frio ou medo, perdida na imensidão da megalópolis desnecessária, trazida para o cimento armado do desespero pelo trem que a arrancou da terra sáfara e das colheitas sem futuro.

 

     Para os tecnocratas, para os políticos que não têm mais qualquer vinculação com expressão alguma de cultura, as cidades que crescem importam porque são elementos que engordam a contabilidade nacional e fazem aumentar o PIB. Mas para nós, são nossa sepultura. E enquanto aguardamos que sobre nós e para nós rezem o De Profundis, esperamos ainda, com o poeta, que a rosa venha a nascer: “É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

 

 

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