Volto aos personagens de Silone em “A Escola dos Ditadores”, introduzindo o Prof. Pick Up, fundador da Nova Sociologia. 

 

 

 

     Thomaz, o Cínico − Meu caro Anarquista, vim procurá-lo porque acredito que você deve estar apreciando − ou seria melhor dizer saboreando? – os acontecimentos no Brasil.

 

     Anarquista − Engana-se, Thomaz. Seu cinismo não o deixa ver as coisas como são. Muito menos compreender aquilo que seus interlocutores pensam.

 

     Thomaz − Você não pretende dizer que não vê com simpatia o que está acontecendo… Será que a idade o deixou conservador?

 

     Anarquista − Vá para o diabo e que ele o carregue! Acomode-se que lhe direi o que penso. Mas não posso continuar sem antes lhe deixar clara uma posição que deveria ter sido esclarecida há muito tempo. Você me chama de Anarquista, imbuído da idéia de que os que pensam como eu estamos loucos para soltar bombas a torto e a direito, destruindo o Estado para assegurar uma liberdade que só se encontraria − dizem nossos adversários − no Éden do Velho Testamento − e ainda assim antes da Serpente ter feito seu trabalho sujo. Sujo, sim, porque nos forçou a trabalhar… Você está enganado a nosso respeito. De fato, somos contra a Propriedade e outras coisas, como a idéia de Deus que as religiões disseminam. E contra o Estado tal qual foi concebido no período do Absolutismo. Mas não somos contra a Autoridade…

 

     Thomaz − Espere aí! Você é contra o Estado, mas me diz que não é contra a Autoridade? Sua dialética não é muito boa e dificilmente convencerá alguém.

 

     Anarquista − Sei disso e sei também que é por isso que o Anarquismo acabou se transformando em uma coisa amorfa, sem pé nem cabeça, no fundo a serviço da reação. Sim, Senhor: defendo a Autoridade! Diga-me, Senhor Cínico: se não houver autoridade, quem respeitará o horário dos trens que vão circular na sociedade libertada da opressão? Todos o respeitarão, porque quem faz o horário tem, por delegação de todos (e ponha todos nisso, pensando em uma população de tamanho razoável…), autoridade para determinar quais trens vão circular em qual horário pela linha A e pela linha B. Entendeu?

 

     Thomaz – Não.

 

     Anarquista − Não importa. Continuo.  

 

     Thomaz − Espero que com alguma coisa que me faça refletir, vencendo, se possível, meu cinismo…

 

     Anarquista − Vamos lá. Um ilustre cientista político disse, noutro dia, em programa de televisão, que seria preciso verificar se não havia provocadores nas manifestações contra o aumento das passagens de ônibus. Seguramente, ele não atentou para o que dizia, pois se tivesse feito, deveria ter dito a serviço de quem os provocadores estariam fazendo seu serviço. Você se lembrará, Thomaz, do que leu certa vez em Victor Serge, que alertava os revolucionários para aquilo que deveriam saber sobre a repressão…

 

     Thomaz – Não, não me recordo…

 

     Anarquista − E você ainda pretende dar lições sobre como os grandes ditadores chegaram ao poder…! Ele se referia à Okrana, a polícia secreta do Czar, que se infiltrou nos ”Amigos do povo”; convenceu-os a matar o Czar e, dizem, até participou do atentado fatal. Está bem que você não se recorde de Serge. Mas se lembrará de “O dia do chacal”, um romance sobre um dos atentados frustrados contra o General de Gaulle. Qual é a lição que ele transmite? Que o sinônimo de organização secreta é infiltração policial. Muito bem. Se devemos pensar que há provocadores no meio dos manifestantes, a quem estarão servindo? A Alckmin? Sem sentido algum! A Haddad? Muito menos. Pelo contrário, este é alvo das manifestações. A Dilma? Por que ela deveria criar uma situação desse naipe, que poderá levá-la, um dia, se as manifestações continuarem, a empregar a Força de Segurança Nacional, se não o Exército e os Fuzileiros Navais? E não se esqueça de que ela tem uma eleição pela frente… A um misterioso Doutor Fu Manchu? Para quê? As Forças Armadas estão, hoje, naquela condição em que nós, anarquistas de fato, queremos: defesa civil e olhe lá… Então, não há provocadores. Mas, cuidado! Não há no sentido em que Serge apontou. Mas com toda certeza há os que, a serviço daqueles que planejaram as manifestações, provocam a reação policial para que haja quem se engaje para protestar contra a violência…

 

     Thomaz − E acabe apanhando…

 

     Anarquista − Que é o que se deseja. Mas deixe-me continuar. Quando se examinam fatos como esses que me preocupam, devemos ter presente outros que já estavam presentes. Que a nada de muito sério levaram.

 

     Thomaz − Antes de você continuar, lembraria outro fato à primeira vista sem importância, mas que pode ser relevante para nossa análise. Um amigo me disse, noutro dia, meio preocupado, que muito daquilo a que assistimos se deve a que não mais há oposição. Que pretendia ele dizer? Que os que têm hoje 30 anos (para não contar os mais moços) não têm a quem recorrer ou em quem se mirar para manifestar sua insatisfação com as coisas. E essa insatisfação existe, você concordará comigo.

 

     Anarquista − É evidente que existe. Era para ela que gostaria de chamar sua atenção. Mas nem sempre provoca manifestações de rua. E, de fato, não há oposição que as catalise. Veja só: a adesão de mais de milhão de pessoas ao pedido de que se fizesse a “ficha limpa”. Talvez tenha sido a primeira vez que houve um protesto contra o estado de coisas e desta vez, houve quem canalizasse a insatisfação. Em outras palavras, houve um “partido” (com perdão da palavra) que soube propor medida que permite (não sei até que ponto) a moralização do processo político. Foi um protesto, como de fato foi, mas dentro das normas do “sistema político” (que os cientistas me permitam o uso da expressão).

 

     Thomaz − Concordo com você que foi um protesto que respeitou as normas do “sistema político”. Mas o importante é ver aqueles outros, que se deram tangenciando, quando não violando as normas. E me recordo de um, clamoroso, que deveria ter tido continuidade em um “devido processo legal” (como alguns gostam de dizer): um grupo de arruaceiros quebrou os vidros e invadiu o Congresso e nada aconteceu.

 

     Anarquista − Talvez porque eles tivessem a proteção de gente graúda… Mas você tem razão. Não tenho notícia de que os autores desse crime, pois de fato está capitulado o Código Penal, tenham sido punidos…

 

     Thomaz − Em outros tempos, seria capitulado na Lei de Segurança Nacional. Mas isso seria autoritarismo…

 

     Anarquista − Meus desavisados companheiros até que aplaudiram, creio, porque a liberdade de que todos gozam indica que o Estado está fraco…

 

     Thomaz − Não apenas nisso se evidencia a fraqueza do “inimigo Estado”. É só ler o jornal que você encontra, todos os dias, provas de que a idéia de Estado − mais importante para a higidez de uma Sociedade do que a presença dele com a Polícia ou a Receita Federal  − está morrendo. Como a luz de uma vela que se apaga!

 

     Anarquista − Bonita imagem. Mas me deixe continuar. Se você recorrer aos arquivos de jornais, encontrará uma série de manifestações coletivas indicativas da insatisfação com o status quo

 

     Thomaz − Coletivas até certo ponto. São, diria, de pequenos grupos…

 

     Anarquista − Mas não deixam de ser coletivas e tendo sentido político de protesto. Quantas passeatas contra a corrupção no Governo (Executivo e Congresso)? Quantas passeatas contra a violência (com igual sentido de protesto contra a inércia governamental)? Esqueço-me, com certeza, de muitas delas. Só uma coisa me espanta: houve pequena participação, mas não comoção popular…

 

     Thomaz – Desculpe-me se o interrompo. A mim me preocupam as manifestações que não houve…

 

     Anarquista − Sei aonde você quer chegar! Todos os dias o povo sofre nos hospitais, nos postos de saúde, com a falta de leitos, de médicos, de remédios. O povo sofre, muitos protestam pela TV, mas é só. Enquanto isso, os pobres − e até mesmo os remediados – padecem, quando muitos não morrem. E ninguém faz coisa alguma e todos aceitam como normal − porque corriqueira − essa situação. O mais que fazem é pedir Justiça! Você, que se dedica a analisar os fatos, que me diz disso?

 

     Thomaz − Não é por nada que me chamam de Cínico. Dou-lhe duas razões: uma é que aqueles que poderíamos colocar na “classe” dos que provocaram as manifestações que procuramos entender não se importam com isso. Nada os afeta e imaginam ou sabem que esses fatos não conseguem mobilizar gente para protestar contra o Governo e a dita Ditadura − embora a saúde e a vida sejam mais importantes do que o preço da passagem de ônibus. Mas será que são, mesmo? Será que esses “intelectuais dos 20 centavos” vêem assim? A outra é que há sempre a esperança de que dentro de um mês ou mais serão atendidos pelos médicos durante quinze minutos… Eu diria, meu caro Anarquista, que tenho certeza de que por todos no Governo − todos eles − a saúde da população é vista como um não-problema, no sentido de que o problema “não é meu”… Todos protestam pela TV − e têm seus segundos de desforra. Mas ninguém protesta contra o mau Governo. É como se o Governo não tivesse obrigação alguma com a população pobre e remediada além de uma bolsa-família. População que, cinicamente falando, não tem seus intelectuais orgânicos, os que falem por ela e a organizem. O Gramsci que anda por aí é para uso da classe média e média superior − para não dizer para a classe alta debater na Universidade… Mas sou cínico e pago o preço por pensar assim.

 

     Anarquista − Você tocou num ponto importante, ainda que sua colocação seja prejudicada por seu cinismo. Gostei da classificação “intelectuais dos 20 centavos”. E, anarquicamente − dentro de minha Anarquia, não da deles −, podemos tentar entender o que está acontecendo. E viva Gramsci, apesar de que seja bolchevista! Você o leu mais do que eu. Deve se lembrar de que ele dizia que não há movimentos espontâneos na História. Se os fatos forem bem pesquisados, sempre se encontrarão documentos que provem a existência de alguém que deu origem aos movimentos espontâneos… Outra coisa que dizia ele é que não há organização sem intelectuais.

 

 

     Nesse momento, batem à porta com força. Thomaz levanta-se, abre-a e se espanta ao ver um homem alto, vestido como que para um jantar com executivos. O cavalheiro empurra Thomaz, entra, senta-se e começa a falar sem pedir licença.

 

     Pick Up − Sou o fundador da Nova Sociologia: “O Homem é o Homem e a Sociedade é a Sociedade”. Procuro fatos, enquanto vocês teorizam. Leram os jornais de sábado, 15? Não? Pois deveriam tê-lo feito. Lá encontrariam a relação de todas as organizações que patrocinam as manifestações. Mais ainda, veriam que elas já ampliaram seu escopo e agora são convocadas para protestar contra tudo e contra todos. Contra o Governo em primeiro lugar.

 

     Thomaz − Não somos tão alienados como seus alunos. Não era preciso ler jornais para saber que, na cabeça desses movimentos, há uma série de organizações…

 

     Anarquista − Inclusive um grupo que se intitula “anarquista” para desmoralizar a boa Anarquia. São, e dizem ser, a tropa de choque, a que vai pôr para quebrar a fim de que a Polícia intervenha…

 

     Thomaz – E, aí, haja vítimas, e todos se voltem contra a Polícia, quer dizer, o Governo.

 

     Pick Up − Qualquer estudante da Nova Sociologia sabe disso, desde o primeiro ano! O que eu não sei é se o Governo tem serviços de informação para detectar tudo isso. Aliás, o Governo não entende nem de Homem nem de Sociedade. Pensa em eleições.

 

     Thomaz − Ótimo, Professor. Mas, então, na sua sapiência, como vê as coisas?

 

     Pick Up − Deixe a ironia para outra ocasião. Vocês dois ensaiavam fazer uma análise da situação…

 

     Anarquista − Como diz isso? Como sabe o que fazíamos?

 

     Pick Up − Porque ouvia atrás da porta. Não tenho os equipamentos da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, mas tenho bons ouvidos − e a porta é de péssima qualidade. Mas vamos ao que interessa. Todos esses fatos que vocês apontaram e que não produziram movimentos de protesto diretos contra o Governo indicam uma coisa: o desassossego de boa parte da população com o estado de coisas. Não se esqueçam − especialmente você, Thomaz − de que não haverá movimento social, politicamente importante ou não, se todos estiverem satisfeitos ou conformados com o status quo. Os que vão aos postos de saúde e não são atendidos estão insatisfeitos. Como não há quem lhes aponte as causas de seu desassossego, extravasam sua inquietação falando ao repórter da TV. E atente para isso: não temem falar e mostrar a cara. Estão prontos para seguir quem lhes diga: o Governo é o culpado!

 

     Anarquista − Isso já havíamos constatado.

 

     Pick Up – Sei disso, porque ouvi. Notem uma coisa: os 20 centavos foram fator de mobilização. Por quê? Afinal, são apenas 20 centavos… Sucede que alguém fez as contas, mostrou-a a eles e eles viram que o rombo no salário ia aumentar sem que as condições do transporte fossem ao menos regulares. Thomaz deve estar com inveja ao ouvir esse raciocínio cínico. Mas é verdadeiro. Tanto é que imediatamente, ao mesmo tempo em que protestavam contra o aumento, começaram a pôr em dúvida a qualidade do serviço de transportes. Numa linguagem rasteira, de baixo materialismo histórico, perceberam que suas condições materiais de existência eram ruins por culpa de alguém. Esse alguém é o Governo, que gasta e gasta e não dá satisfação a ninguém…

 

     Thomaz − Filosofia de botequim à parte, você tem razão. Tanto assim que começaram a protestar contra o dinheiro gasto nos estádios para a Copa e contra o preço das entradas. Foi como se tomassem consciência de que pagaram a construção desses estádios e nem podem assistir aos jogos…

 

     Pick Up − Na minha Nova Sociologia, diria que houve um salto na consciência coletiva. Tomaram consciência, enquanto protestavam, de que tudo estava mal. E descobriram o Inimigo: o Governo. Ainda não é, meu caro Anarquista, o Estado, mas o Governo basta, por enquanto…

 

     Thomaz − Sua Nova Sociologia é tão velha como a Sé de Braga. Mas deixemos isso para lá. Esse salto, como você diz, coloca um problema para o qual talvez nenhum dos grupos que organizam as manifestações tenha atentado. Introduz a idéia da democracia direta, de governo popular naquilo que muitos chamariam de “administração das coisas”.

 

     Pick Up − Não entendo.

 

     Thomaz − É simples, Professor. Façamos uma análise de situação. Como parar esse movimento? Alckmin justificou a ação policial…

 

     Anarquista − Mas não sabe como a Polícia vai reagir nas próximas manifestações. Ela está sendo alvo de críticas não só no Brasil, mas no exterior igualmente, e com vigor. Será que o PM, que ganha mal ele também, vai querer chegar em casa e ouvir de sua mulher que os vizinhos os estão chamando, ele e ela, de brutamontes, comentando que batem no povo que só quer melhores condições de vida? Ele pode se recusar a cumprir ordens ou, o que será pior, maneirar na porrada que vai dar…

 

     Thomaz − Esse é um problema sério. Já houve exemplos de como isso acontece. Mas continuo, se me permitem. Alckmin espera contar com a Polícia para manter a ordem. Mas não tem poder para resolver a questão dos 20 centavos. Quem tem é o Haddad, que antes falava na impossibilidade de reverter o aumento e agora, depois de sexta-feira e da quase batalha campal, criticou a ação da PM e marcou uma audiência com os líderes do movimento. O General De Gaulle dizia que o Poder não recua. Haddad não pode, assim diz, cancelar o aumento − mas será que não encontrará um jeito de diminuir o peso no bolso do povo? Ao convocar a reunião com os líderes, recuou. O movimento ganhou uma batalha, ainda que numa guerra de patrulhas, e o Governo perdeu. Esse é o ponto.

 

     Pick Up − No seu cinismo, o que você quer dizer é que a vitória nessa batalha de patrulhas pode indicar o caminho das pedras: se não concordarmos com uma política, protestaremos. Protestaremos e protestaremos até ganhar outra batalha na guerra de patrulhas. Será, de fato, o governo popular na administração das coisas. A Política, essa não mais existe há muitos anos.

 

     Anarquista − Vocês estão querendo, então, dizer que, afinal, a violência é a parteira da História?  

 

     Pick Up − Talvez não de sua História, meu caro. Mas daquela que estamos começando a viver. Houve um salto na consciência coletiva e as multidões mostraram que não suportam mais o status quo. A desgraça é que não há um Partido que conduza o processo. O que significa que a violência destruirá, mais dia menos dia, o que ainda resta de Estado neste país.

 

     Thomaz − Meu cinismo me aconselha a pedir para parar por aqui. Mesmo porque o relógio indica o fim do expediente e, portanto, o começo do “happy hour”. Vamos andando?

 

     Pick Up − Como Professor, vocês sabem que não posso pagar a de vocês. Mas é uma boa idéia.

 

     Anarquista – Então vamos.  E que seja o que Deus quiser…     

 

 

 

 

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