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   Foi por puro acaso que, entrando num sebo dei de cara com Liberdade, poder e planificação democrática, de Karl Mannheim. Tive-o desde anos.

 

    Depois, não sei mais por onde andou. Movido pelo remorso ou pelo desejo de planificar nesta época de globalização, comprei o livro. Novo em folha, apesar de editado em 92 e, pasmem, no Brasil, por Mestre Jou.  

 

   O Mannheim que se lê em Liberdade, poder… é um otimista: a época é de desintegração, mas essa “não é total. Se assim fosse, não poderíamos continuar vivendo”. E continua: “Aliás, numa sociedade em desintegração, existem processos de auto-recuperação e reajustes espontâneos que tornam a vida de certo modo tolerável.” Atenção ao “de certo modo tolerável”.  

 

   O otimismo só se justifica para quem chega até o final e descobre que o grande intelectual dos anos 30/40 tem na religião uma das formas e condições da coesão social. Mas é um otimismo que só se justifica por esse apelo sincero ao sentimento religioso. No mais, não há razão para tanto. Afinal, que disse parágrafos antes de afirmar a existência dos processos de reajuste espontâneo? Simplesmente isto: “O caso é completamente diferente quando a sociedade se desenvolve em grande escala e sem orientação. Então se realizam também inúmeros esforços para substituir padrões de conduta e organizações antiquadas por outros novos; mas ou não se pode achar nenhum padrão novo no plano da experimentação ou, se por fim surge uma solução, existe um hiato durante o qual não se apresenta nenhuma reação satisfatória. Em tais casos, podemos falar de desintegração social”.  

 

   Eu falaria, como venho dizendo, “Estado anticonstitucional”. Agora, descobriram que o narcotráfico é uma questão de segurança nacional. E falou-se, por lapso de linguagem, no Rio de Janeiro. O problema, que as autoridades não querem ver – ou temem ver com “olhos de ver e compreender”, como se dizia na antiga Faculdade de Filosofia – é que o Estado anticonstitucional não existe apenas no Rio de Janeiro ou impera nas favelas e bairros pobres de São Paulo. Ele existe há muitos e muitos anos em Alagoas, onde, em 1965, dizia o policial federal, “todos calçam pé 40”. E impera onde o “país real” fala mais alto que o “país legal”. O hiato entre as organizações antigas – quando os grandes oradores sacros pregavam o sermão da Paixão – e as que se buscam criar hoje, com evangélicos ou carismáticos, ele existe há tempo suficiente para que a desintegração social se tenha dado. O hiato a que se referia Mannheim vem de longe. O General Góes Monteiro – que sabia que existe a “Camorra de cima” e a “Camorra de baixo”, uma procurando substituir a outra, nenhuma pensando na Pátria – disse certa vez que a crise se estabelecera no Brasil quando a elite que viera governando a República, mas vindo do Segundo Reinado, morreu. Morreu sem que fosse substituída. A crise, hoje, é que os que governam o País – econômica, política, militar e intelectualmente – detestam a palavra elite, porque aceitar que são uma elite implica assumir as responsabilidades de direção que são próprias de quem quer governar e fazer uma Nação, não um país. Implica criar e sedimentar valores novos, ser capaz de fazer novos sermões da Paixão. Ao recusar essas responsabilidades, aumentam o hiato entre as velhas fórmulas e as novas – que não se preocupam em saber se existem ou podem vir à luz, nem apontam caminhos novos para ninguém. O Estado anticonstitucional, esse aponta: “Obedece e cala-te ou morre.” A autoridade pública, a constitucional, essa cuida de fazer leis, enquanto nós, do lado de cá, cuidamos de derrubá-las nos tribunais.  

 

   Mannheim só conhecia o horror nazista; nunca lhe passou pela cabeça que pudessem coexistir, como irmãos siameses, dois Estados: o constitucional e o anticonstitucional. Muitos, na Academia, também não acreditam. Por isso, não querem ouvir falar em “anomia”.

 

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