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      O debate sobre a Alca tem sido visto, até agora, da perspectiva das conseqüências que a criação de uma zona de livre comércio poderia ter para a indústria brasileira. O chanceler Lampreia foi o primeiro a colocar o problema,na conferência que proferiu há meses na Escola Superior de Guerra. Nos últimos dias, ante a proximidade da visita do presidente Clinton, a questão ganhou novos contornos. A informação que o Estado publicou quarta-feira a respeito da preocupação de alguns economistas do BNDES sobre o futuro do Mercosul à luz da quase certa criação da Alca – seja em que ano for – mostra que a discussão não se deve restringir aos aspectos econômicos da zona de livre comércio, mas deve levar a algo mais. São poucos, quase ninguém, os que têm a audácia de definir esse “algo mais”, por sonhador que seja.

 

     Os economistas do BNDES não estão preocupados com os aspectos das instituições do Mercosul – tribunais, comitês, o que seja. Pensam como economistas – mas seu horizonte está mais longe. Não dizem, mas admitamos que pensem que a política exterior de Clinton não é dessas de fazer babar tio Stalin ou o General Marshall. Mesmo admitindo esse fato político, atêm-se ao econômico: apenas a tarifa externa comum não será suficiente para deter a avalanche da zona de livre comércio. Limitando-se à tarifa externa comum, o Mercosul ficará para trás, isto é, digo eu, em termos geoestratégicos, os Estados Unidos não terão mais preocupações com a liderança do Brasil, como insinuou Kissinger numa entrevista recente.     

 

     A questão que se coloca é a seguinte: começando em 2005 ou 2020, terá tido o Brasil condições de preparar-se para negociar politicamente com a diplomacia norte-americana, que mesmo que continue a mesma – e nada indica que assim será, necessariamente – terá como característica a mesma sutil brutalidade com que os Estados Unidos impuseram seus interesses nacionais nas Américas Central e do Sul? Para não falar no México? O Brasil talvez possa – afinal, a geografia nos deu – pelo menos alguns assim pensam – uma força e um destino. O problema para a realização desse destino é o Mercosul. As catadupas de mel que altos funcionários de Washington derramam sobre o Brasil no fundo não são nada perto das declarações de amor que fazem a Buenos Aires, lá ou em Washington. Os economistas do BNDES ressaltam a assimetria dos países que compõem o Mercosul – e nisso têm razão. Se assim é, pode-se perguntar: essa assimetria, nas condições políticas da Argentina, favorece as negociações sobre a Alca ou, pelo contrário, é um fator de fraqueza do bloco e, o que me interessa mais, do Brasil?     

 

     Um dos economistas aflora o problema central: o Brasil, por ser o maior, trata seus parceiros mais ou menos como os Estados Unidos trata a América Latina, e não quer abrir mão de parcela de sua soberania. O diagnóstico é perfeito e no Itamaraty não se reprovaria o candidato que escrevesse tal coisa – embora se lhe pedisse que não falasse mais nisso depois de a prova ser queimada. O que não adianta nada, pois os parceiros sentem essa superioridade. Ou a disputa em torno da vaga no Conselho de Segurança não tem um pouco a ver com o orgulho portenho machucado pelo crescimento do Brasil? Sucede, e nisso é bom pensar, que o crescimento brasileiro, nas condições em que se está dando, está forçando a mudança da matriz energética do País. Não apenas nos seus elementos integrantes – água, petróleo, gás, carvão. Também nas fontes de suprimento deles.     

 

     Esses dados devem ser levados em conta e é por isso que repito, sozinho como de hábito, a sugestão: para que o Mercosul dê um passo à frente só há um caminho: o acordo de confederação. Afinal, como dizia Napoleão, os Estados fazem a política de sua Geografia. Desde que tenham os elementos de poder para tanto.

 

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