[título original – NESSA COMÉDIA, A PRESIDENTE ESTÁ SOZINHA, SÓ, MAL ACOMPANHADA?]

 

 

 

       A vida social se torna agradável quando todos aceitamos que alguém fixe o horário dos trens e quando os maquinistas o obedecem, sem invocar e procurar afirmar, com greve e outros movimentos, seu direito “soberano” de protestar porque não foram chamados a opinar.

 

      A dificuldade em arriscar-se a traçar possíveis rumos para a crise brasileira está num ponto: os atores principais se colocam como se fossem personagens de uma peça clássica, quando na realidade ao que se assiste todos os dias é mais um ato da grande commedia dell’arte representada por quem age como inimigo do Estado. Por quem detesta o Estado porque a simples idéia de que haja uma autoridade, qualquer que seja ela, estabelecendo normas de conduta que devem ser obedecidas para que a vida em comum possa ser levada sem uma crise a cada minuto, é suficiente para despertar uma reação contra quem “oprime”.

 

      A rigor, não há relação alguma, organizatória ou ideológica, entre a comédia de Brasília e o drama (ou tragédia?) de qualquer município. Porque não sabe que encena uma commedia dell’arte, cada artista diz e faz o que bem entende dizer e fazer, sem se preocupar com o que o outro fará ou dirá. Os únicos que agem em função de normas pré-fixadas são os juízes. O problema é que, enquanto os juízes não decidem, a comédia continua.

 

      Os que controlam os movimentos de massa sabem disso – e insistem neste ou naquele refrão que comove multidões. Seja qual for o tema, inclusive macroeconomia, eles influenciam os “especialistas” que, por sua vez, influenciam os artistas protagonistas da peça principal. E a comédia continua… com um problema adicional. Os atores podem controlar outros atores, agindo em ensaios que não o realizado em Brasília, animados por igual sentimento contrário às normas estatais. Até o momento em que proprietários que confiavam no Estado cheguem à conclusão simples de que as leis da Natureza os obrigam a defender-se dos que matam e destroem suas propriedades…

 

      O que liga a comédia e o drama é o estado de anomia para o qual estamos indo, se é que já não lá chegamos. Os “especialistas” em economia afirmam que já chegamos – e os números do déficit do Tesouro em fevereiro apontam para isso. E, para que os otimistas não os desmintam, agora se preocupam com perder tempo descrevendo como será o pior que virá…

 

      A Petrobrás, que nos trouxe até aqui, aponta uma saída: a China, que tem capitais suficientes para nos socorrer e evitar que o pior aconteça agora. O governo espera palmas ao anunciar o empréstimo chinês à estatal. Que poderá ser pago em petróleo do pré-sal, ou talvez servirá como pagamento antecipado de uma concessão ferroviária na qual Pequim empregará prisioneiros dóceis. A aliança China-Petrobrás de fato altera a ordem mundial como quer nossa política externa; nossa adesão ao BRICS tem, agora, sentido prático porque monetário.

 

      Contudo, mesmo que sem relação organizatória e/ou ideológica aparente, é a commedia dell’arte brasiliense que comanda o espetáculo. Cuja direção é cada dia mais evidente – ela está no Congresso, o que dá caráter institucional à commedia dell’arte. É como se, cansados do presidencialismo de coalisão, desejássemos explorar o parlamentarismo de ocasião, de maioria incerta e não sabida. A primeira prova foi, ao que tudo indica, vencida pelo ministro da Fazenda, que, horas após prever o desastre se o mercado internacional não mais emprestar recursos ao Brasil, conseguiu que uma comissão não votasse – mas não arquivasse – projeto que contraria sua política. Com o que, vencida uma terça-feira, vamos ver se o Senado nos concede outra…

 

      Enquanto isso, alguns atores continuam insistindo em que o espetáculo siga o roteiro que eles mesmos escreveram. E convocam passeatas para hoje ou amanhã, na esperança de que as multidões atendam a seu apelo.

 

      É difícil fazer previsões quando não se sabe onde está e em que pensa a Presidente da República, que parece contentar-se com os comentários dos “especialistas” políticos que nos dizem quase todos os dias que ela está só. Os gramáticos discutirão se ela está ou sozinha. Discussão que deliciará os que defendem que se ensine um bom português, mas em nada auxilia os comentaristas, especialmente quando, da resposta correta, poderá depender o futuro do sistema político.

 

      Há filmes, especialmente do farwest, em que o mocinho se faz a mesma pergunta num longo monólogo que termina mais ou menos assim: “Eles pensam que estou sozinho. Não estou; nem estou só”. Apanha o .45 e sai para caçar os bandidos – e no filme os mata, todos, um depois do outro. No filme, em que não há constituição nem lei.

 

      Na comédia a que assistimos e, por vezes, aplaudimos, há os que pensam que a presidente está só – que está só e mal acompanhada. Tanto assim que levarão às ruas no dia 12 a palavra de ordem “impeachment”, confiando em que haja multidões a clamar por ele. Pode ser uma doce ilusão. Se no Congresso houver quem queira turvar o ambiente, mil pessoas e duas faixas serão bastantes para desencadear o processo. Afinal, tudo é uma commedia dell’arte. A questão que se colocará, então, é simples: esteja só ou sozinha, quantos e quais inimigos o nosso herói do farwest matou? Quantos e quais hão de querer assumir a tarefa de negociar com o BNDES chinês? E com o Congresso?

 

      O problema é que não se sabe como a comédia vai terminar, tantas são as questões que se colocam. Como esta: a presidente estará sozinha, só, mal acompanhada? O que se pode ter como certo é que os eventuais sucessores de Dilma, na hipótese de o impeachment ganhar raízes, tudo farão para que a crise política não se estenda à economia. Tarefa difícil, porque o risco, na economia, é função da política. É, portanto, função de como vai evoluir a commedia dell’arte.

 

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 (publicado com o título 'Commedia dell'arte' em Brasília

no dia 09 de abril em “O Estado de S.Paulo”)

 

 

 

 

 

 

 

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