OESP

 

 


    O final da carta do general Góes Monteiro a Sobral Pinto, em 1945, é patético, como toda ela, aliás. Não é apenas a confissão de quem sabe que fracassou na missão a que devotou sua vida – e poder-se-ia dizer que se recusa a admitir que uma das razões de seu fracasso foi o “idealismo da corporação militar” e o voluntarismo do “Novo Príncipe” por cujos prismas via o Brasil -, mas, que também é o amargo reconhecimento de que será difícil ao Brasil chegar às  culminâncias com que sonhara.


    Leiam-se estas linhas: “…peço-lhe que aceite, a par dessas breves considerações, o testemunho de meu apreço, os meus votos para que o confuso futuro do mundo encontre nossa Pátria com a defesa nacional adequada, e com a disciplina social, consciente, que lhe almejei. (…) O Brasil letárgico e ignoto não despertou à madrugada; preguiçoso chegou ao meio-dia e se assim se detiver até o entardecer do século, não poderá sustentar-se de pé. Haec est hora vestra et potestas tenebrarum. Retribuo, assim, seu leal aperto de mão.” 


     Em parte, o patético espelha o estilo – e o estilo é o homem. Ao assumir, em 1937, antes do golpe de Estado de que foi um dos artífices, a chefia do Estado-Maior do Exército, foi no mesmo tom que saudou o ministro e seus colegas de farda. Ele não está sendo empossado na chefia do EME. Ele a está assumindo, tomando para si: ‘Dou-me por empossado no cargo de Chefe do Estado-Maior do Exército brasileiro.’ Essa assunção é “um instante resolutivo”. “Nele, tomo uma responsabilidade potente, sombria e apaixonante, em face da nossa Pátria ameaçada por forças dissociativas, perante o Exército, cuja razão de ser já é denegada pelos agentes internos e internacionais redutores de sua grandeza, de sua unidade e de sua independência, que periclita e oscila.”


    Observe-se como da Pátria ele passa para o Exército e como, na frase, aquelas que se diriam ser ameaças ao Exército são, a rigor, ameaças à Pátria. Uma e outro se confundem em seu pensamento. Assume a chefia do EME com uma responsabilidade “perante a posteridade, que nos tomará severas contas se consentirmos em que o Brasil fique menos íntegro, e menos dos brasileiros do que este que recebemos das gerações que viveram antes de nós, despedaçado a imagem e semelhança de uma ibéria (sic) fumegante e desolada“. E se pergunta qual o pensamento que “nortifica” o chefe do EME. “A preocupação constante e irreprimível de um chefe do EME é a guerra (…) dilatável até os limites do totalismo.” No fundo, a razão do fracasso está em ter querido preparar o País para uma guerra “totalista”, sem perceber que o Brasil só despertara ao meio-dia.


    Com Góes, morre o “partido fardado” e talvez tenha morrido porque a idéia de 31, de que a guerra era impensável e de que a missão do Exército era ocupar o território, se vira confrontada e negada pela realidade da guerra.


    O tom patético, a denúncia das camarilhas políticas que destruíram, aliadas às oligarquias regionais, o ideal republicano não encontrarão quem lhes dê continuidade. Talvez no coronel Golbery do Couto e Silva, da ESG, o dos ensaios que compõem a Geopolítica do Brasil, haja alguma ressonância dessas idéias. Há, nos dois, a condenação do liberalismo e, em Golbery, a idéia de um planejamento geoestratégico de ocupação do território, de uma política externa que não é apenas independente, mas prenunciadora, letra por letra, do Terceiromundismo. O “partido fardado” morreu com seu intelectual. O que do partido se viu, de 1964 a 1979, foi uma cópia sem brilho, porque Pátria e Exército já não eram uma e a mesma coisa, e antes da defesa nacional, isto é, da defesa do Estado, colocou-se a questão de saber que grupo ocuparia o poder ainda que sem programa.

 

 

 

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