A reação brasileira à votação das sanções contra o Irã pelo Conselho de Segurança permite que seja dito que o Brasil lançou a luva aos membros permanentes do Conselho e à Alemanha. Outra interpretação não pode ser dada, senão esta, à declaração de voto da Delegada brasileira ao Conselho: “Também foi questão de grave preocupação o modo como os membros permanentes, junto com um país que não é membro do Conselho de Segurança, negociaram entre si durante meses, a portas fechadas”    

 

     As declarações do Presidente Lula da Silva sobre o Conselho foram mais contundentes:  “Às vezes, me dá a impressão daquele pai duro, que é obrigado a dar uma palmada no filho mesmo que o filho não mereça, para dizer: ‘eu sou o pai’. Acho que o Conselho de Segurança jogou fora uma oportunidade histórica de negociar o programa nuclear iraniano”.   

 

     Segundo o Presidente, os doze países que votaram pelas sanções o teriam feito “apenas por birra”.

  

      A decisão teria mostrado que “quem não queria negociar eram aqueles que acham que a força resolve tudo (…) e que os donos do Conselho não querem democratizar de verdade” o órgão.

 

     E essa decisão, conclui o Presidente Lula da Silva, terá sido “uma vitória de Pirro”.    

 

     O Chanceler Amorim foi ainda mais duro. Segundo ele, o Conselho de Segurança teria adotado “procedimentos muito estranhos: uns votaram por convicção, outros porque teriam alguma vantagem com isso”

  

     E foi mais longe, numa demonstração de altanaria ou de grosseria que não se permite em relações internacionais, a menos que pretendamos firmar uma posição de poder, como a dizer que somos capazes de viver sozinhos, que desprezamos as organizações internacionais e desdenhamos os que tomam posição contrária à nossa. “Se a condição para ser membro permanente do Conselho de Segurança é dizer amém para tudo, então é melhor não ser”, afirmou o Chanceler. Sobre a posição da China e da Rússia, completou:  “Há um artigo nos jornais brasileiros que se refere a possíveis isenções a países que foram considerados cooperantes. Vamos parar por aí”.

  

     A luva, pois, foi lançada.    

 

     A posição brasileira está solidamente ancorada, esta é a expressão, naquilo que os responsáveis pela política exterior do País consideram ter sido a maior contribuição à solução do problema nuclear iraniano: o Acordo de Teerã. Eles parecem não dar qualquer importância a que esse acordo tenha sido firmado por três Presidentes ou Chefes de Governo comprometendo o Grupo de Viena (Estados Unidos, França, Rússia e a Agência Internacional de Energia Atômica) que não participou das negociações.    

 

     Horas antes da sessão do Conselho se Segurança, os Governos norte-americano, francês e russo comunicaram sua discordância com a chamada “Declaração de Teerã”. É possível, pois, perceber que a Diplomacia brasileira ou não compreende os fatos ou esforça-se por fazer prevalecer uma interpretação segundo seu próprio arbítrio.    

 

     Em seu voto, a Sra. Maria Luiza Viotti declarou que a reunião iria atropelar a Declaração de Teerã e inviabilizar qualquer negociação. A certa altura, disse ainda: “Não se deu tempo ao Irã para reagir às opiniões do Grupo de Viena, inclusive a proposta de uma reunião técnica para analisar os detalhes”. Imediatamente antes, porém, em frase introdutória a esta, afirmava: “As reações do Grupo de Viena (isto é, a negativa dos Estados Unidos, França e Rússia) à carta de 24 de maio, que confirmou o compromisso do Irã com o conteúdo da declaração, foram recebidas há apenas algumas horas”. 

 

     Com o que não ficamos sabendo se o Grupo terá feito propostas ou simplesmente recusado o acordo de que não fez parte. A impressão que a Diplomacia brasileira pretende passar, no entanto, é bastante clara: a de que o Grupo teria dito “não” antes mesmo que o Irã pudesse discutir o seu “sim”. Haverá, pois, claramente, interesse em criar confusão na opinião pública – a brasileira, mais que a internacional − sobre a posição do Brasil.     

 

     Na verdade, o que a Presidência e o Itamaraty também pretendem é participar de relações internacionais com base num poder alegado, que nada tem de efetivo para lastreá-lo. E colocar-se contra os Estados Unidos, ainda que ao preço de, pelas palavras − duras, quando pensamos em relações internacionais, relações nas quais a ação do Diplomata é fundamental já que não há o General, como diria Aron −, dissociar-se da Inglaterra, da França, da Rússia, da China e da Alemanha além de distanciar-se daqueles que os apóiam.     

 

     Essa posição se põe evidente quando analisamos, com alguma atenção, a reação do Professor Garcia, que assessora o Presidente Lula da Silva em relações internacionais, ao ter o assessor norte-americano para segurança internacional sugerido que o Brasil mediasse as relações da comunidade internacional com o Irã: a sua resposta foi um simples “não”. Surpreendentemente, o país que se ofereceu como mediador no Oriente Médio no “caso iraniano” não aceita mediar quando uma das partes envolvidas no drama lhe propõe fazê-lo.    

 

     Não apenas a luva foi lançada, como os dados também.     

 

     Apesar do discurso do Presidente Lula da Silva (e levemos sempre em consideração a sutil distinção entre “falar” e “dizer”), o Brasil está, hoje, caminhando para um isolamento diplomático que não será facilmente perceptível, mas que o Chanceler Amorim já pressentiu. E isso bem podemos perceber por sua declaração de que não interessará ao Brasil estar no Conselho de Segurança como membro permanente caso deva ceder às pressões “dos grandes” ─ vale dizer, dos Estados Unidos ─ e a expressa “recusa” a ser “obrigado” a dizer “amém para tudo” ─ como se China e Rússia (para não dizer Inglaterra e França) fossem, como se diz na linguagem popular tão de agrado do Presidente Lula da Silva, meras “vacas de presépio”.   

 

     O Presidente Lula da Silva parece, porém, regozijar-se com essa inequívoca derrota e pouco lhe faz que a política interna do Governo iraniano mereça a condenação internacional dos países reconhecidamente democráticos. Daí, nos comentários à decisão do Conselho de Segurança da ONU, ter feito questão de referir-se ao Presidente do Irã como alguém de suas relações políticas, aconselhando o “companheiro” Ahmadinejad a que “continue tranqüilo”. Justo Ahmadinejad, que, ao saber do resultado da votação, disse simplesmente: “Pela direita e pela esquerda nos aplicam sanções, mas para nós são como moscas irritantes. Temos paciência, agüentamos muitas coisas e resistiremos outra vez. Esta resolução não vale um centavo. É como um papel para limpar a boca que jogamos no lixo”   

 

     O isolamento do Brasil, conforme dissemos, apenas não será facilmente percebido pela simples e boa razão de que, com seus território, população e, sobretudo, mercado potencial, o Brasil interessa aos “grandes” que atravessam séria crise que pode afetar suas políticas internas. O Brasil é, hoje, apesar das debilidades que muitos apontam, uma província predileta de acumulação do capital mundial. Não pode ser desprezado.     

 

     O Governo Lula da Silva não apenas tem disso consciência, e disso se prevalece, como também sabe, e muito bem sabido, que o fluxo de capitais internacionais é importante para que mantenha a popularidade e possa assegurar-se da vitória do PT nas próximas eleições. Desta perspectiva, o Presidente Lula da Silva se assemelha, e muito, a Luís XV de França: “Depois de mim, o dilúvio”. Se vier, não será culpa dele. Se não vier, terá sido ele quem evitou a tragédia.     

 

     Uma última observação: até que ponto as posições do Governo Lula da Silva comprometem − e podem obrigar − o próximo Presidente brasileiro e seu Governo? Se vitoriosa, Dilma, que tem seu apoio, com certeza seguirá a mesma política, custe o que custar. E seu maior adversário? Que política externa irá promover? Alguém já lhe perguntou?     

 

 

 

 

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