O fato de que o Brasil mantenha boas relações com algum país não significa que nos manteremos informados do que nos possa afetar. Aprenderemos no susto. Sempre maior se o fato que nos apanha de surpresa vem de um aliado ou de quem julgamos ser um aliado em nossas grandes causas e projetos.

 

     Pretender alterar os critérios que consideram “A” mais importante que “B” e/ou estabelecer novos padrões para que “A” seja bem aceito ainda que com menor poder que “B” é pretender alterar a ordem mundial. Quem define esses critérios são Estados que se consideraram (por natureza) com direito a ser reconhecidos como importantes o bastante para decidir sobre a pertença ao sistema e se reservam o direito de decidir quais outros teriam condições de também decidir.

 

     A essa condição, a esse, digamos, status de potência, chega-se por diferentes caminhos, sempre abertos aos que têm vontade de poder, sobretudo têm os meios para de fato ter poder – sabendo que, nas relações internacionais, não basta estabelecer sozinho quais os critérios para lograr estar entre aqueles que decidem. Para que o pretendente seja levado a sério é preciso que os outros integrantes do sistema a que pertence lhe reconheçam o poder necessário para que seja considerado membro a igual título que os que decidem. Ser reconhecido como membro do sistema, merecedor de toda atenção, é participar de um jogo em que Cesar sabe que poderá ser enganado por Brutus; o mesmo Brutus que estranhamente só terá paz se tiver certeza de que foi compreendido por aqueles que antes louvaram Cesar.

 

     Os que orientam ou determinam a política externa do Brasil sabem de certeza sabida que o País não pode participar desse jogo pretendendo ser Cesar ─ embora saibam que tem elementos que, em dados momento, podem ser associados para permitir que almeje tanto. A associação de Espaço e População pode ser feita por um qualquer, que a esses fatores determinantes de Poder acrescentará, conforme a circunstância, a participação do País na economia mundial – isto é, até que ponto o bom ou mau desempenho da economia brasileira afetará aquele da economia mundial ou será afetado pelo que sucede no exterior. 

 

     No mundo econômico de hoje, afetando a política geral e a de alguns países em particular, há alguns poucos países, cujo desempenho conjunto pode afetar o de todos. O que lhes confere, por fato próprio, o direito de ser CESAR ─ ou Brutus.

 

     Intelectualmente fatigado de tanto pensar o sistema internacional como condicionado, em sua forma e condições de pertença, ao poder militar de alguns poucos, em termos de “poder bruto”, houve quem sugerisse que fosse criado um novo critério de análise, mais “democrático”: que fosse dado ao PIB, se não o poder, a possibilidade de influir no sistema global, independentemente da dureza do poder bruto do Estado. Também por cansaço intelectual, criou-se uma figura que, esperava-se, mudaria a forma do sistema internacional: o BRIC – sem o S da África do Sul.

 

     Rússia, Índia e China já têm tamanha capacidade de interferir na harmonia do sistema que, se espirrarem, deverão explicar-se. Podem operar no sentido de mudar fluxos financeiros que afetarão o PIB nacional, a economia do BRIC e a global.

 

     O Brasil foi colocado no BRIC por motivos não muito relevantes: oitava (sétima ou sexta?) economia do mundo, mas um dos grandes devedores e dependente, ele próprio, dos demais membros desse grupo, enquanto país exportador de commodities. Para não dizer que serviu para compor a sigla. Afinal, BRIC soa melhor do que RIC, CIR ou IRC. Elogiosa a escolha, reconhecendo nossa importância ou não, saudamos nossa promoção a país que pode influir no mundo e cuidamos de dar forma ao novo grupo.

 

     O BRIC preencheu qual lacuna? Não é um grupo econômico no sentido de poder ditar normas ou políticas nacionais para facilitar um objetivo comum. E que objetivo podem ter em comum Brasil, Rússia, Índia e China, além daqueles determinados por negatividade: não fazer a guerra, não perturbar a ordem internacional e a economia regional e global?

 

     Para o Brasil, o BRIC abriu a oportunidade de acalentar um antigo sonho de potência: criar condições para mudar a ordem internacional, oferecendo aos “have not” a oportunidade de livrar-se dos constrangimentos que lhes são impostos pelos atuais e reais grandes, sobretudo os Estados Unidos e a Europa, que de uma maneira ou outra controlam, mais do que a economia mundial, os humores dos que não têm poder. Os constrangimentos são financeiros e medem-se, na realidade, pela dependência do FMI e do BIRD.

 

     Louvando-se nas reservas cambiais da China, o BRIC (que se tornou BRICS pelo acréscimo da África do Sul) poderá oferecer amparo aos países que necessitem de caixa para resolver problemas de balanço de pagamentos ou tocar programas de desenvolvimento. EUA e EU perdem poder na medida em que não são os únicos que decidem.

 

     Alterou-se, assim, para os que acreditam nas palavras, a ordem internacional. Exceto num aspecto importante: todos os países do BRICS, desta ou daquela maneira, continuam ligados ao sistema financeiro internacional e suas moedas estão sujeitas às flutuações no sistema. O preço do petróleo caiu; o Rublo perdeu poder de troca frente ao Dólar e já é importante e necessário observar com atenção a economia russa. O BRICS não tem condições de organização capaz de permitir ação imediata no mercado com o objetivo de estabilizar o valor de uma moeda. Apesar de tudo o que se diz dele e se propõe para ele, não conseguiu mudar, sequer de leve, o caráter do sistema financeiro internacional. Com o que as moedas nacionais mais vulneráveis continuam tão vulneráveis quanto antes ─ ou mais: o Real, hoje, está amarrado a quatro moedas susceptíveis de ataques ou crise sistêmicas.

 

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 (publicado nesta data em “O Estado de S.Paulo”)

 

   

 

 

 

 

 

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