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      O Partido da Ordem, no Brasil, está hoje em situação semelhante à da Assembléia Nacional francesa em 1954, quando Pierre Mendès-France a chamou às suas responsabilidades no que se referia ao desastre de Dien Bien Phu. Era necessário escolher entre fazer a guerra, com todas as conseqüências no plano interno (convocação de reservistas, aumento de impostos e tudo o que se segue num conflito colonial), ou simplesmente privilegiar o “nada fazer”, imaginando-se que a Indochina seria mantida como colônia sem que a metrópole se dispusesse a fazer qualquer sacrifício. Não se trata de comparar o deputado Roberto Jefferson a Mendès-France, mas o desafio é o mesmo. E é Jefferson quem o lança.

 

     A História não escolhe seus heróis. Dos rumores que sobem da massa desorganizada não se pode discernir, ainda, que rumo ela deseja que o seu D’Artagnan imprima ao processo. É nítido o mal-estar dos que, no Partido da Ordem, sempre desejaram que El Cid, o salvador, fosse de fato o cavaleiro imaculado a que pudessem referir-se, ou aderir, sem receio de que sua escolha fosse objeto de escárnio dos seus próximos.

 

     Os “pais” das famiglias que integram o Partido da Ordem devem aperceber-se, porém, de que este não é o momento de clamar por El Cid, pois ele não virá defendê-los e a seus interesses. Ele, simplesmente, morreu e se enterrou, como cantávamos à volta de copos e garrafas, nos anos 50, lembrando os feitos de Marlborough, que fora para a guerra. Vivo ou, pelo menos, cadáver visível fosse, ainda seria possível, na emergência, colocá-lo sobre um cavalo e lançá-lo contra as hostes que ameaçarão as instituições.

 

     Sepulto, nada pode fazer.

 

     Resta ao Partido da Ordem, embora não seja da intimidade dos ‘pais’, reconhecer D’Artagnan. É aproveitá-lo ou perder a grande oportunidade de reformar o País e deitar abaixo o Sistema (denunciado em meu livro A Teoria da Coisa Nossa, publicado em 1986) que sobreviveu ao cataclismo de 1964 e, mais ainda, ao de 1968, quando um ilustre Ministro do General Costa e Silva dizia sentir que os jovens oficiais que pressionavam seus Chefes estavam possuídos por um ardor soreliano de mudança.

 

     Parecerá estranho que esteja chamando a atenção dos “pais” do Partido da Ordem para que façam as reformas políticas (e outras) que abalarão as bases do Sistema sobre as quais eles assentam, também eles, sua riqueza, seu prestígio e seu poder. Meditem um pouco, no entanto, e me darão razão. Quando o Estado denunciou as “polonetas” no Governo Figueiredo, abriu-se a oportunidade de expor as entranhas do Sistema e pôr a nu as ligações perigosas entre o Governo e alguns que sabiam como aproveitar as grandes oportunidades.

 

     Entre escolher pôr fim àquilo que o Estado chamava de “corrupção institucional” e construir um país em que a Política fosse discutida sem asco e a carreira política de fato fosse um cursus honorum; entre pôr fim à corrupção institucional ou permitir que os interesses vis continuassem a dirigir ações governamentais nem sempre claras, o Partido da Ordem preferiu jogar todos os seus trunfos – mobilizando seus aguadeiros que assentavam no Congresso – para que nada se apurasse.

 

     Hoje, a oportunidade que se abre tem outro sentido: como no Dom João de Mozart, o velho Comendador — a opinião pública — vem do túmulo em que se via esquecida, para exigir contas de quem não a honrou. As entranhas do monstro – do Sistema – foram expostas por Jefferson, que, não esqueçamos, aponta fatos e, às vezes, para dar verossimilhança a tudo o que afirma, se confessa culpado disto ou daquilo. Assume, a cada dia mais, o papel de D’Artagnan. Não é nosso juízo sobre ele o que importa neste processo que rompe a pasmaceira e inova, depois de muitos anos, por ser político.

 

     O fato é que, dia após dia, Jefferson é ouvido e o que diz se mostra como verdade, ou seguros indícios de verdade. O que basta, para um processualista, para que se abra o competente inquérito criminal contra presumíveis responsáveis.

 

     As denúncias do deputado Jefferson bastam, assim, como notícia-crime para que se investigue a fundo – e sem o espírito de facção que se pode perceber em algumas ações da Polícia Federal e do próprio Ministério Público, como ficou claro na intervenção do senador Suassuna na sessão da CPMI dos Correios de quinta-feira, 30 – o mecanismo de ocupação do aparelho de Estado por aqueles que nele pretendem manter-se a qualquer custo. Não estamos diante da ocupação do Estado pelo setor privado, como se costuma dizer a propósito das privatizações. Trata-se, tudo indica, do assalto de um grupo ao aparelho de Estado por via eleitoral. Com que fim? Para se manter no poder ou, como disse com todas as letras o senador Suassuna, para exibir um estilo de vida mais glamoroso.

 

     O Partido da Ordem deveria rever, se não viu, essa longa sessão em que D’Artagnan, “nervos de aço”, apontou mais um fato da maior gravidade — o pedido para que intercedesse junto ao IRB para a transferência de fundos no exterior. E deverá guardar para sua reflexão pelo menos algumas intervenções. Não só as da Juíza Denise Frossard e dos senadores Pedro Simon e Jefferson Peres.

 

     Este, em entrevista ao Aliás, foi ao coração do problema: se nada for feito, as instituições perderão sua legitimidade.

 

     O Presidente Lula já percebeu a gravidade dos fatos e que a situação poderá envolvê-lo.

 

     Tanto assim que mandou apressar os estudos para conceder o aumento aos militares, tentando cumprir o que foi prometido, atitude que, devido às atuais circunstâncias, mais parece a de quem necessita cortejar as Forças Armadas.  

 

     O Partido da Ordem será tão apegado a seus interesses que permitirá que a República pereça??

 

 

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