A idade me permite recordar as eleições que ajudaram a construir o Brasil de hoje. Sou levado a discordar do padrão acadêmico: a Política era diferente, feita de fato com participação popular! Não havia eleição sem comícios e os que se faziam antes dos pleitos eram ─ e foram de fato ─ a terra em que, lançadas as sementes pelos partidos (apenas 13, 14 se contarmos o PCB, na ilegalidade, mas sempre com seus candidatos), floresciam as lideranças reais. Desde 1945 até o dia (fatal para a Política) em que se criou o horário eleitoral gratuito, era nos comícios, com discursos exaltados, que as raízes dessas lideranças e as das candidaturas se firmavam.

 

     Os comícios eram um grande espetáculo. E um ponto de encontro. Eu me deslocava para a Praça da Sé ou à Roosevelt para ouvir Janio, Carvalho Pinto, Ademar de Barros, outros candidatos de maior ou menor peso verbal e eleitoral; mas não só eu – saíamos todos de casa ou do trabalho e nos juntávamos à massa para aplaudir ou gritar contra um candidato, dependendo do orador – que precisava ser bom! Cada um com seu público: Emílio Carlos, Carlos Lacerda, padre Godinho, quem tivesse conquistado a simpatia popular, abusando que fosse da boa vontade dos que se punham em desacordo!

 

     O horário eleitoral gratuito e obrigatório matou tudo isso, acabou com o patético de cada eleição e de cada comício. Faça-se a História dessa instituição dita democrática porque oferece a cada partido a possibilidade de usar a TV para difundir seu programa e apresentar seus candidatos. Alguém viu ou ouviu no horário gratuito o programa desses partidos que aí estão? Ou ouviu algum candidato apresentar seu programa de ação? Promessas, mesmo que sejam de mais escolas, creches e postos de saúde, não são programas de ação. 

 

     Mas não só o horário eleitoral gratuito matou tudo isso. As reações coletivas a determinados fatos permitem sempre visão mais correta do que terá ocorrido e do que ocorre. Só compreenderemos o getulismo e por que tudo mudou em 29 de outubro de 1945 se atentarmos a um pormenor: depois do 10 de novembro de 1937, quando a PM do Distrito Federal (Rio de Janeiro, capital da República) fechou o Congresso, a Política passou a ser feita em torno de pessoas, indivíduos que o ditador cultivava para deles fazer seus interventores (servidores) nos Estados. A Política era Vargas e sua vontade. Escolhido o interventor, a Política nos estados mais importantes, nas cidades do Interior, girava igualmente em torno de sua vontade, a do interventor que o seria enquanto Vargas permitisse e, como tal, senhor da PM que era a Polícia e era o Poder. Vargas, chefe revolucionário e ditador, pouco precisou fazer para criar inimigos pessoais. E inimigos políticos, Vargas os teve, sim! Inimigos na sua visão intelectual do Brasil, que viam o País sob outra luz que o corporativismo e a ditadura. Inimigos porque pensavam o Brasil de modo diferente e como e que fazer para que ele fosse grande e respeitado.

 

     Nos comícios, havia sempre um momento em que eu me perdia no coletivo e tinha consciência de estar formando aquilo que depois seria chamado de opinião pública. Nos comícios, não em pesquisas, os analistas buscávamos descobrir como estava o humor popular ─ e, em nossa presumida sapiência, errávamos: os comícios do Brigadeiro tinham muito mais gente que os do Dutra; portanto Eduardo Gomes deverá ganhar as eleições… mas perdeu em 1945 e 1950. Contudo, foi nos comícios que o udenismo se consolidou como estado de espírito cívico-eleitoral e foi do udenismo (dos comícios) que nasceu o lacerdismo, não ao contrário. E, sem Getúlio, não teria existido o udenismo. Ou os comícios nos quais não só o líder perdia a voz – fato que não mereceria notícia, pois seria corriqueiro demais – mas todos a perdiam.

 

     É significativo que o período de novembro/1937 a outubro/1945 seja sempre mencionado como “ditadura Vargas” e não como Estado Novo. É como se inclusive o 10 de novembro dependesse exclusivamente da vontade e da autorização de Vargas, como se as forças e os atores políticos e sociais que desejavam o fim do regime democrático (a começar por Góes Monteiro) não estivessem em cena. Se falamos “ditadura Vargas” é porque a Política passa a ser e se consolida como uma obra individual.

 

     Hoje, que temos? Espantei-me ao ver que, num sábado, um jornal dedicava página inteira a comentar que este ou aquele candidato estava rouco. Irremediavelmente rouco.

 

     Apesar de que ainda se façam comícios que alegram as “bases” e de que saibamos quanta gente eles concentram, o grande comício agora somos nós, dez ou pouco mais, que nos reunimos para um drinque e/ou jantar, a ouvir, em vez de música, candidatos trocando amenidades a respeito de programas de dimensão municipal (sim, pois o Estado não os preocupa!). Assistimos a uma cena apelidada de debate, em que os “atores” devem respeitar regras pré-estabelecidas que orientam as críticas permitidas, muito bem educadas para que ninguém seja ofendido e não reclame, em nome da lei, seu “direito de resposta”. No grupo que assiste ao debate na TV, eu sou EU, preocupado com parecer mais inteligente e arguto que meu companheiro de copo. O espírito crítico apontará se as idéias foram bem expostas, se houve cuidado com a lógica e quem mal domine o Português.

 

     A Política deixou de ser, antes de tudo, criação mental coletiva, patética; tornou-se ação individual, sem emoção. Ausente dela o Estado, não haverá inimigos. Reduzida a uma troca de idéias entre adversários cordiais, o patético perdeu-se na obrigação de dizer e ouvir frases que pareçam ser um programa de governo. Imaginamos poder fazê-la apenas ponderando os atributos pessoais de cada “ator”.

 

     Sinto muito, meus amigos, mas isso não é fazer Política.

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 (publicado nesta data em “O Estado de S.Paulo”)

  

 

 

 

 

 

 

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