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     Quando falo em missão da Universidade, tenho plena consciência de estar falando a muito poucos. Para que alguma organização complexa – e a universidade é uma delas – possa ter o sentido de missão é necessário que haja, na sociedade, um “núcleo aglutinador” capaz de formular um projeto pedagógico que, bem pesadas as coisas, pretenda ser hegemônico. Esse grupo existiu, como procurei mostrar no artigo anterior, mas as transformações que se deram na realidade brasileira a partir de 1930 fizeram que ele rapidamente se visse sem as bases sociais que lhe permitiriam continuar exercendo sua função aglutinadora. Há uma frase de Armando de Salles Oliveira que ilustra bem tudo isso: o liberalismo, no Brasil, é o “liberalismo do jardim de nossas casas coloniais”. Afora isso, teria sido necessário que os quadros desse núcleo aglutinador crescessem; o Estado Novo cortou essa possibilidade e à visão “iluminada”, que começava a deitar raízes em São Paulo, opôs vitoriosamente a visão positivista do castilhismo-borgismo, que era a de Vargas, mas também de largas camadas do Exército.  

 

    Muitas das transformações da realidade se deveram à alteração da base demográfica. De 1500 a 1950, a população brasileira cresceu 50 milhões de pessoas; de 1950 a 1975, outros 40 milhões, e de 1975 a meados dos anos 90, mais 45 ou 50 milhões. A essa mudança quantitativa, que provocou mudanças na sociedade e despertou o sentimento de autonomia, seguiram-se alterações qualitativas nas maneiras de ser, agir e pensar. A esses números que exprimem as mudanças que se deram na base morfológica da sociedade e se transmitiram, ainda que imperceptivelmente, aos valores e idéias, há que acrescentar que esse crescimento extraordinário da população coincidiu, depois dos anos 50, com o progressivo erodir da autoridade em todos os setores e em todos os sentidos; com a “revolução das expectativas” dos anos 60, que trouxe para a grande maioria dos despossuídos a esperança e a ilusão de entrar no circuito de vida dos ricos e ter outro status.  

 

    Bem pesadas as coisas, as grandes mudanças que provocaram a crise de influência do núcleo aglutinador aconteceram da década de 50 em diante, embora já houvesse sinais dela depois do golpe de novembro de 1937.  

 

    Politicamente, não estaria errado situar o irromper das grandes mudanças nesse período: 1954 registra a morte de Getúlio Vargas e o início do longo processo que levará a 1964 e à quebra da aliança entre segmentos das Forças Armadas e da sociedade civil (basicamente de setores do escol culto e das classes produtoras), aliança essa que havia permitido, no passado, grandes saltos políticos e sociais. A rigor, porém, o processo que levou ao isolamento do núcleo aglutinador que poderia dar um sentido de missão à Universidade começou muito antes. Quando se sabe que, em 1938, Getúlio Vargas vinha a São Paulo com tranqüilidade e, em 1945 – portanto apenas 13 anos depois da revolução de 1932 -, era eleito senador por São Paulo, tem-se o retrato de corpo inteiro de como o grupo que cindira o Partido Republicano em 1924 e fora capaz de criar o “caso São Paulo” não conseguiu manter sua posição de preeminência. Gramsci dizia que Croce, sozinho, era um “comitê de propaganda” e sua pregação e seus livros haviam sido capazes de estabelecer uma hegemonia nos meios intelectuais italianos. Em São Paulo, o “comitê de propaganda” não conseguiu ter essa sorte – em boa medida porque o golpe de novembro de 1937 cortou o caminho aos “iluminados”.  

 

    Essas reflexões não se aplicam apenas à universidade pública e à perda de seu sentido de missão. Elas valem igualmente – e com muito mais razão, dada a presença marcante daquilo que o apóstolo Paulo chamava de “desenfreado desejo do dinheiro” – para as universidade particulares. O que nos levará a um beco sem saída, pois não há, na classe política – de cima em baixo – quem se preocupe com ter idéia de missão a transmitir aos outros. Para que o sentido de missão pudesse ressurgir, seria necessário que houvesse um novo “comitê de propaganda” com um projeto pedagógico que restaurasse a Auctoritas e incorporasse as grandes transformações que se dão na economia e na tecnologia, para não falar no mundo da geopolítica.

  

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