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    De quando em quando, converso com um amigo meu, que é deputado pelo Piauí. Sabe das coisas, e, por isso, sempre aprendo com ele, mesmo quando divergimos. Aprendi, por exemplo, que há uma região no Estado que é esquecida pelo Governo de Teresina: não tem estradas e as comunicações são difíceis com a sede do Poder. A vida econômica liga-se mais com a Bahia.  

 

    Tanto que existem alguns exaltados que pensam em criar mais um Estado no Brasil. No que se defrontariam com meu mais veemente protesto, pois não gostaria de ver mais três senadores e mais oito deputados federais, todos dizendo que São Paulo é imperialista e explora o Nordeste. Esse amigo tem relações no Ministério da Educação, por força do ofício. Deveria transformar essas relações em influência, e jogar todo o peso dela para que os órgãos especializados do Ministério comunicassem a Deus e ao mundo que o Piauí existe e que se algum livro escolar deixar claro que ele é apenas uma vaga idéia que ele, meu amigo, tem das coisas, deverá ser queimado em um verdadeiro auto-de-fé.  

 

    O leitor poderá supor que brinco, por falta de assunto. Aliás, a semana anda privada deles, exceto o escândalo do deputado e a disputa por saber quem vai mandar na seleção de futebol. Todavia, não brinco. Houve um cavalheiro que, escrevendo um livro de Geografia para o que antigamente seria o grupo escolar, e fazendo um mapa – como todo bom compêndio de Geografia deve conter -, esqueceu-se de que o Piauí existe! O Brasil perdeu um Estado! Os brasileiros que cursam o primário (antigo), e que não são do Piauí, crescerão com a santa ignorância de que o Piauí existe.  

 

    A discussão sobre saber se o Piauí existe ou não, não teria a menor razão de ser, pelo simples fato de que o Estado está lá, incrustado no território nacional, e tem representantes de diversos partidos no Congresso Nacional. O auto-de-fé deveria ser realizado, apesar de o Piauí existir, porque não é concebível que alguém escreva um livro de Geografia com tamanha ignorância, que o editor – que felizmente não é paulista – imprima esse livro e que ele tenha sido adotado – imaginem, onde? No Piauí!  

 

    Conto a história – pois não é estória como alguns gostariam que se dissesse, pelo menos lá pelos anos 50 – porque ela é real! Mais grave do que real, supera em tudo aquilo que dizem sobre a realidade imitar a arte – ou os acordos. O livro não foi adotado em uma cidade qualquer do território de Fernando de Noronha. Foi adotado em um colégio de Teresina. Pior, o responsável pelos alunos serem obrigados a comprá-lo, sabia que o Piauí não existia para o autor – e para o livro.  

 

    Apesar disso, adotou o livro com uma condição: que se corrigisse o erro. A notícia não diz se numa próxima edição ou na mesma. Como na mesma seria impossível, conclui-se que os alunos compraram o livro – ou o receberam do Ministério da Educação – e descobriram que vivem num Estado que não existe. Mais esculhambada – com perdão da palavra, embora Ortega a empregasse para descrever a Espanha de antes da revolução – é a desculpa do editor: cometem-se erros!

 

    Se o livro só foi adotado sem que o Ministério da Educação tivesse tido qualquer tipo de ação – comprando não se sabe quantos exemplares -, o caso seria simplesmente de polícia, pois alguém iludiu a boa fé de alunos. Se o Ministério distribuiu o livro, é o caso de uma rigorosa sindicância, que, sugiro, seja presidida por meu amigo do Piauí, exatamente para que não haja imparcialidade.  

 

    Alguém dizia, nos seus tempos de tomista, que o oitavo pecado capital era a ignorância. Hoje, imagino que tenha abandonado esse salutar caminho e pense diferente – mas pelo pouco que conheci dele nos anos 50, sei que diria que o pior crime é a ignorância aliada ao desejo de ganhar dinheiro fácil, vendo seu livro adotado no Piauí.

 

 

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